Calendahistória – Dia das crianças

Coluna Calendahistória
Por Juliana Winkel

– Quer dizer que, como é Dia da Criança, hoje as crianças não vão para a escola?

O avô de Clara, Norberto – ou Seu Nonô – riu diante da pergunta. Como todas as sextas-feiras, eles batiam papo pelo computador: ele no Brasil, ela no Canadá. O ritual se repetia já há alguns anos, desde que seu filho, pai da menina, tinha se mudado para lá com a família.

Naquele 12 de Outubro, a conversa girava ao redor do significado da data. E, como fazia um calor danado, Nonô falava com a neta tendo ao lado um copo geladinho de suco de graviola – que recebia constantes olhares de Clara, pois era o seu preferido.

– Não é “porque” é Dia da Criança, querida – explicou ele. Coincidentemente, hoje é também um feriado religioso, dia de Nossa Senhora Aparecida, considerada padroeira do Brasil. Mas sim, as crianças da sua idade podem aproveitar para ficar em casa – sorriu.

– Pena que eu não estudo aí!

– Sim, mas vocês têm outras datas nesse período que nós não temos, como o Dia de Ação de Graças, por exemplo. Cada país tem seu calendário. Não foi isso mesmo que sua professora pediu que vocês pesquisassem?

A menina pensou um pouco.

– Sim… e o Thanksgiving não tem perigo de cair no domingo – ela riu.

O avô riu junto.

– É verdade. Mas você gosta tão pouco assim de ir à escola?

– Não vô, é brincadeira. Eu gosto da escola – ela respondeu. – Mas claro que um feriadinho não é mal, né?

– Não! – disse Nonô. – Mas voltando ao assunto das datas festivas… como anda sua pesquisa?

Na semana anterior, Clara havia comentado com o avô que a escola sugerira um trabalho sobre as datas festivas ao redor do mundo, inspirada no “Thanksgiving”, a famosa tradição americana. Como brasileira, ela tinha escolhido falar sobre o Dia das Crianças.

– Ainda não juntei muita coisa – ela respondeu. – A pesquisa é para o mês que vem.

– Então acho que nisso posso ajudar! – disse ele, mostrando algumas revistas antigas sobre a mesa. – Você sabe que eu sou publicitário, não sabe? E dessa história eu me lembro pessoalmente…

Clara ficou curiosa para entender do que o avô estava falando.

– O que são essas revistas?

Ele pegou a primeira da pilha, em um formato grande, diferente do que a menina estava acostumada a ver. Mostrou uma das páginas, cheia de fotos preto-e-branco de crianças pequenas. O anúncio dizia que aqueles bebês eram finalistas de um concurso nacional.

– Essa revista é de 1967 – disse ele. Naqueles anos, uma famosa marca de produtos para bebês fazia um concurso anual para escolher as crianças mais “bonitas” – e, claro, aproveitava para divulgar bastante o seu nome. Esse concurso ficou tão famoso que dizer que o filho de alguém poderia concorrer virou sinônimo de elogio. Lembre-se que, antes da internet, ver a foto do filho em uma revista era um acontecimento bem importante!

– Legal! Mas o que isso tem a ver com o Dia das Crianças?

– Tem a ver que esse concurso, na verdade, foi criado após uma outra marca famosa de brinquedos do Brasil ter inventado a “Semana do Bebê Robusto” para aumentar as vendas de sua principal boneca, durante a semana do dia 12 de Outubro. E os pais também podiam enviar fotos de seus filhos de até 2 anos, concorrendo a prêmios e divulgação. Isso aconteceu na década de 50, mas não tenho revistas com esse anúncio para te mostrar…

– Ah vô, se eu inventasse uma propaganda chamada “Semana do Bebê Robusto”, também não ia querer guardar nada de lembrança!

Foi a vez de Nonô dar uma gargalhada.

– Ah, querida, naquela época o vocabulário das pessoas, assim como das propagandas, era um pouco diferente de hoje. E também o que era considerado “bonito” ou não! O “Bebê Robusto” se chamava assim porque a boneca era rechonchuda, o que era considerado sinal de saúde – explicou. – E não fui eu que criei essa propaganda, não. Nessa época eu também era criança!

– Então o Dia da Criança nasceu para vender mais brinquedos?

– Na verdade, não… a data já existia desde 1924, mas ninguém prestava muita atenção. Mas foram, sim, as indústrias de artigos infantis que criaram a cultura de dar presentes nesse dia.

– Puxa… essa “tradição” é diferente das outras que estudei. É a primeira vez que vejo o “dia de alguma coisa” ficar famoso por causa de uma propaganda.

– E não é o único caso… mas isso não quer dizer que essas datas não tenham seu valor. Eu sempre acreditei que toda data festiva é, também, uma oportunidade de refletirmos sobre aquele tema, ou de estarmos mais perto de quem é importante para nós. Até nosso aniversário é assim! E no Dia das Crianças é igual. Com ou sem presentes…

A menina pensou um pouco.

– É verdade, vô! Muitas coisas podem ser um “presente” nesse dia. Até um copo de suco de graviola… – ela riu de novo.

E foi nessa hora que a mãe entrou no quarto onde Clara costumava falar com o avô, trazendo uma bandeja com… um copo de suco de graviola e um pedaço de bolo de fubá.

A menina não acreditou no que estava vendo.

– Mãe… onde você achou graviola para comprar aqui?!

– Pensei que poderia ser um bom presente de Dia das Crianças – a mãe respondeu, com um sorriso cúmplice, olhando para o avô na tela do computador.

Ele levantou o copo, fazendo um brinde. Clara, feliz da vida, fez o mesmo.

E unidos pelo gosto das lembranças divididas, avô e neta comemoraram juntos mais um dia especial.

 

***********************

Juliana Winkel mora na Itália e sabe que a distância não desaparece, mas também acha que existem várias formas de chegar mais “perto” de quem é importante. Na pesquisa para esse texto, descobriu que o Dia das Crianças é comemorado em diferentes datas, de acordo com cada país – inclusive no dia 20 de Novembro, quando foi proclamada a Declaração Internacional dos Direitos das Crianças. Mas sobre o 20 de Novembro (no mês que vem) teremos também outras histórias… 😉

 

Anúncios

Vamos contar histórias em português?

Coluna High Tech
Aline Frederico

Para comemorar os 10 anos da Brasil em Mente, a coluna High Tech está de volta!

Estimular os brasileirinhos a falar o português é uma das tarefas mais difíceis do educador, seja pai ou professor, na área do português como língua de herança. A capacidade de compreensão e recepção do PLH geralmente se desenvolve mais facilmente do que a capacidade produção da língua, seja na forma falada ou escrita. Além disso, geralmente é há mais recursos para os pais estimularem a recepção da língua, por meio de livros – no formato impresso, e-book ou aplicativo literário–, televisão – TV tradicional, streaming ou YouTube –, além de canções, parlendas, adivinhas e outras brincadeiras com a nossa língua que as crianças adoram.

Mas você sabia que a literatura e a tecnologia também tem um potencial incrível de estimular a fala (e a escrita) do PLH? Um exemplo é o aplicativo Inventeca, da startup brasileira StoryMax. O aplicativo é uma biblioteca de narrativas visuais, isto é, histórias contadas por meio de uma sequência de ilustrações. No Brasil, esse tipo de narrativa é comumente chamada de livro-imagem, já em inglês são comuns os termos wordless picturebook (livro ilustrado sem palavras) ou silent book (livro silencioso).

Porém a verdade é que, ainda que a história visual seja “silenciosa”, a ausência de um texto verbal pode ter o efeito de estimular o leitor a produzir a sua própria narrativa. Especialmente quando a leitura é compartilhada, seja entre um grupo de crianças ou a(s) criança(s) e um(uns) adulto(s), é praticamente impossível navegar pela sequência de imagens sem discutir o que pode estar acontecendo e, principalmente, o que vai acontecer na cena seguinte. E assim, as histórias criadas pelos leitores, em colaboração, toma corpo.

A leitura compartilhada tem efeitos comprovados no desenvolvimento linguístico da criança, não só porque a criança é exposta ao sofisticado uso da linguagem verbal comumente encontrado em textos literários, mas também porque a situação de leitura compartilhada é um momento de intimidade e troca afetiva entre pais e filhos ou entre crianças e educadores. O suporte oferecido pelo adulto na compreensão da história, por meio de perguntas, comentários, detalhamentos e explicações também é um aspecto fundamental do grande sucesso da leitura compartilhada no desenvolvimento infantil.

Mas o que acontece se a história não tem palavras? Como a criança vai desenvolver a linguagem? É exatamente nesse aspecto compartilhado que a literatura visual pode ser mais interessante no desenvolvimento do PLH. O livro Visual Journeys Through Wordless Narratives (Jornadas Visuais por Narrativas Sem Palavras), das pesquisadoras Evelyn Arizpe, Tereza Colomer, e Carmen Manrtínez-Roldán, investigou como crianças imigrantes lêem uma das grandes obras primas da literatura sem palavras, o livro The Arrival, (no Brasil, A Chegada) do artista australiano Shaun Tan. A leitura em grupo dessa narrativa gerou grandes e profundas conversas entre as crianças. Essa pesquisa aponta para a universalidade das narrativas sem palavras e a possibilidade de integração de leitores de diferentes níveis de competência linguística. A narrativa visual atua como suporte quando a fluência da língua ainda está em desenvolvimento. Portanto, parece haver também um grande potencial na leitura dessas histórias para o desenvolvimento da língua de herança quando sua leitura é realizada de forma compartilhada.

Agora, e se os leitores pudessem gravar a sua história? Pois essa é a chave do Inventeca. O pequeno leitor pode escolher uma das diversas opções de história. Então aperta o botão de gravar, e registra a sua versão da narrativa visual. E pode fazer isso diversas vezes, já que cada vez que lemos uma história, ela é um pouquinho diferente, não é mesmo? E com isso, a capacidade e técnicas de contação de história tendem a se desenvolver, aumentando desejo de contar a história novamente, com um vocabulário mais vasto ou com uma estrutura mais sofisticada. E o adulto tem um papel importante em estimular e dar suporte a esse desenvolvimento juntamente com a criança.

O Inventeca funciona num sistema de assinaturas e novas histórias são adicionadas periodicamente. Uma vez que a regularidade e a consistência são muito importantes para o desenvolvimento do PLH, a leitura do Inventeca pode se tornar um daqueles momentos em que a família, esperando ansiosamente o lançamento de uma nova história, cria uma rotina gostosa para o uso do português. Sim, é possível contar as histórias em qualquer língua, mas convém aos adultos fazer desse um dos momentos em que o Português é o protagonista na vida familiar. Obviamente esse momento pode ser levado mais além, sugerindo que a criança escreva a história depois de gravá-la, se já for alfabetizada.

Finalmente, o Inventeca é um deleite visual, pois a biblioteca apresenta histórias ilustradas por vários artistas, com estilos e técnicas diferentes. Com o tempo e o aparecimento de mais e mais histórias, essa diversidade visual só tende a aumentar e isso pode ser explorado sugerindo que as crianças recontem a história por meio de seus próprios desenhos e contem aos pais o que desenharam e por quê.

 

Aline Frederico é doutora em Educação e Literatura Infantil pela Universidade de Cambridge, Reino Unido, e atualmente realiza estágio pós-doutoral na PUC-SP. Pesquisa a literatura infantil digital e os processos de construção de sentido envolvidos na leitura literária digital.

© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.