Feira do Livro Infantojuvenil de Língua Portuguesa

Em comemoração ao Dia do Português como Língua de Herança, a Brasil em Mente e a Federação de Iniciativas em prol do PLH promoverão a Feira do Livro Infantojuvenil de Língua Portuguesa. Desde 2014, diversos grupos, organizações e indivíduos comemoram no dia 16 de maio o Dia do PLH. Essa é uma forma de conscientizar os expatriados de língua portuguesa a manterem seu idioma materno junto às gerações que nascem e crescem no exterior. Além disso, nessa ocasião celebram-se as diversas iniciativas, projetos e indivíduos que promovem essa língua-cultura ao redor do mundo.

No dia 14 de maio, a comunidade em NY e redondezas poderá celebrar essa data conhecendo autores, conversando com eles e ouvindo belíssimas histórias. O encontro será na New York University, na 82 Washington Square East, entre 2 – 4 da tarde.

+ Veja aqui o que mais está sendo marcado para celebrar o Dia do PLH.

Para participar, é só chegar! Venha e desfrute de momentos incríveis!

Screen Shot 2016-04-28 at 1.48.39 PM

Daniel Munduruku, autor e ativista indígena, e Susana Ventura, autora e crítica literária, estarão na feira. Vejam só o que eles estão preparando!!

Retornos

Por Carla Scheidegger
Coluna Pelo Mundo

Desde minha última viagem ao Brasil, em março deste ano, tenho refletido sobre o que o “retorno” ao país onde nasci e cresci gera em mim e em minha família, bem como de que forma ele se manifesta em nosso dia-a-dia. Para me ajudar nesta questão um pouco filosófica, conversei com Andreia Moroni*, pesquisadora sobre o português como língua de herança na comunidade brasileira da Catalunha para seu doutorado em Linguística Aplicada na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em nosso bate-papo, traçamos um paralelo entre os diferentes significados da palavra “retorno” e o PLH.

P1-3

A volta ao ponto de onde se partiu
O primeiro ponto-de vista levantado por Andreia foi que, se pensarmos no retorno como a volta ao ponto de onde partiu, ele pode ser interpretado como uma reflexão, a fantasia de um possível reestabelecimento no Brasil: Como seria a minha vida se eu ainda vivesse lá?

Ela explica que a vida no exterior também traz insegurancas e frustrações, que podem ser de caráter prático – como resolver assuntos bancários, matricular os filhos na escola, procurar um emprego – ou sociais, quando as limitações para se expressar e viver de acordo com valores e a cultura locais aparecem. A chance do retorno seria, portanto, um porto-seguro, a possibilidade de voltar à zona de conforto cultual, ao conhecido.

Andreia passou pela experiência efetiva do retorno, quando voltou com sua família de Barcelona à Campinas, sem saber que um dia retornaria à Espanha. Ela confessa que foi um choque cultural, pois já havia absorvido alguns hábitos e processos da cultura catalã. “Passamos por uma fase de re-adaptação, inclusive fisiológica, como por exemplo com o horário das refeições”. Com este relato, chegamos à conclusão de que, quem vive longe de sua terra natal nunca volta ao ponto de onde partiu, pois, como Andreia bem lembrou, “não se banha no mesmo rio duas vezes” (Heráclito).

Ir novamente
Para as famílias que podem passar férias no Brasil, ir novamente para lá é um momento de felicidade, em que as raízes se refortalecem e se pode para matar a saudades. Já para crianças que nasceram no exterior, esta visita é muito mais uma ida do que um retorno, pois seu ponto de partida é o país onde nasceram e vivem, segundo Andreia.

Para elas, ir ao Brasil é uma oportunidade de viver na prática o que se aprende em casa e de colecionar experiências positivas. É a “Terra da Fantasia”, como ela descreve; a chance do mimo da família, de mais liberdade, de encontrar os primos e de viver em outros círculos de falantes de português.

Segundo a pesquisadora, “é ali que a língua aflora para a crianca”. E eu acrescento que é ali, que o ensino da língua de herança se concretiza, já que ele resgata estes aspectos positivos do nosso Brasil.

Mercadoria que se trouxe em troca da que se levou
Olhando sob este aspecto, conversamos sobre o que vem na mala quando retornamos do Brasil. Levamos presentes, expectativas, saudades, amor e trazemos coisas “que ajudem a construir o discurso de identidade brasileira”, afirma Andreia. “Eu trouxe um filtro de barro e fico muito feliz em ofecer água fresquinha às visitas”, contou orgulhosa.

Os profissionais de PLH, além de parecerem bibliotecas ambulantes, aproveitam para reciclar seus discursos, buscar produtos atuais da cultura de massa (gibis, DVDs), bem como materiais didáticos e paradidáticos que possam ser usados em suas atividades. O retorno é pesado e desconfortável, literalmente.

Voltar a manifestar-se
Por fim, esta é a definição de retorno que mais me agradou na conversa com Andreia. Para as crianças que crescem no exterior em contato com a língua portuguesa e cultura brasileira, participar das atividades de PLH – lideradas por profissionais que retornam e retornam atualizados, motivados e com energia recarregada – significa “criar uma identidade afetiva com o Brasil, expandir a utilização de seus conhecimentos e dar chance à expressão dessa cultura”.

Voltar e manifestar-se é manter esta herança viva e aplicada. É retornar continuamente a um local que já existe dentro delas.

*Andreia Moroni nasceu em Campinas, São Paulo, e mora em Barcelona. Desde 2012 pesquisa o PLH na comunidade brasileira da Catalunha para seu doutorado em Linguística Aplicada na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É pesquisadora visitante da Universitat de Barcelona (UB), mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universitat Autònoma de Barcelona e bacharel em Editoração pela Universidade de São Paulo (USP). Foi sócia-fundadora da Associação de Pais de Brasileirinhos na Catalunha (APBC) e colabora regularmente com a Brasil em Mente em Nova Iorque, sendo também uma das professoras do Curso de Formação para Professores e demais Envolvidos com PLH desta instituição. Já deu oficinas e palestras sobre políticas linguísticas na Alemanha, Brasil, Espanha e EUA. Desde 2003 trabalha como tradutora e editora. Seu livro infantil Borboletinha/ Samba Lelê, inspirados no patrimônio oral brasileiro e fruto de suas reflexões sobre PLH e transmissão deste legado de pais para filhos, foram adotados pelo Programa Nacional de Bibliotecas Escolares (PNBE) e tiveram mais de 85 mil exemplares adquiridos pelo governo brasileiro e distribuídos em escolas públicas. Hoje esses títulos estão disponíveis no exterior pela Editora BeM. É mãe do Mateo e da Sofia, sua inspiração para toda essa jornada.

 

Screen Shot 2016-02-16 at 7.27.27 AMNascida em São Paulo e criada no interior paulista, herdou a língua e a cultura alemãs dos meus pais. Estudou Comunicação Social na ESPM e pós-graduei na Fundação Getúlio Vargas, sempre com a certeza de que meu futuro seria longe do Brasil. Há 13 anos vive na Alemanha, trabalhando internacionalmente e valorizando cada vez mais a diversidade.

 

© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

Comida de mãe – Herança, passado e futuro

Por Rita Turner
Coluna Culinariando

O texto de hoje é inspirado em duas comemorações desse mês: o Dia das Mães e o Dia do Português como Língua de Herança. Acontece também a III Conferência Sobre o Ensino, Promoção e Manutenção do PLH com o tema “Quais são as heranças dessa herança?”.

Pensando nisso, gostaria de falar sobre a comida da mamãe – tanto como herança recebida (quais são as suas memórias?) e como herança a ser passada (que lembranças vamos deixar para nossos brasileirinhos?).

Primeiramente, vamos deixar duas coisas bem claras: comida de mãe não precisa ter ligação com a mãe.

Quando digo “comida de mãe” me refiro à comida feita por uma pessoa querida e com uma certa frequência. Aquela que nos traz boas lembranças. Pode ser de mãe, pai, avós, tios, tias, a empregada que era “praticamente da família” – dá pra entender, né?

O segundo esclarecimento é que “comida de mãe” não precisa ser feita em casa ou ser elaborada.

Smiling young mother and her little daughter cooking salad

Gosto de fazer esse esclarecimento pois muitos de nós não somos habilidosos na cozinha, o que não quer dizer que não podemos criar momentos de “comidinha de mãe”. Sua versão de comidinha de mãe (ou pai, etc) não precisa ser um prato Master Chef.

Um pãozinho com manteiga dividido na mesa da cozinha, um chá feito com amor e servido na canequinha favorita, a fruta madura, descascada e partida na medida certa – tudo isso conta. O importante é o ritual, é cavar espaço na rotina da casa para sentar e fazer uma refeição com nossos brasileirinhos, acompanhada de uma boa conversa, de conhecimento mútuo. Essa é a herança que vai ficar na memória.

Cada um tem sua definição de “comidinha da mamãe”. Pode ser aquela sopinha que você tomava quando estava doente, pode ser o arroz-feijão diário (ao som do apito da panela de pressão), o bolo da tarde ou a sobremesa de domingo. Não importa, na verdade o que caracteriza um prato ou comida como “comidinha de mãe” tem muito menos a ver com os temperos e ingredientes e mais com o seu contexto emotivo, ou seja, tudo aquilo que a gente lembra, que vem à memória quando nos deparamos com tal comida.

Os americanos, especialistas em criar expressões com palavras que a princícipio não combinam, usam o termo “comfort food” para descrever a comida reconfortante, no sentido afetivo e quase sempre ligado à infância. Minha própria experiência é prova disso.

Tenho uma ligação afetiva muito pessoal com vários pratos e comidas, fortes e boas recordações de comidinhas de mãe, mas minha mãe nunca foi necessariamente uma “cozinheira de mão cheia”. Pelo contrário, como ela mesmo diz com certo orgulho feminista: “nunca fiz um bolo na vida”. Mas ela tem seus créditos.

Já falei aqui da sopa de legumes que ela fazia para mim e que até hoje me traz as mais tenras lembranças. O ato de sentar à mesa e provar algo que alguém que amamos fez para nós, com amor, é algo muito poderoso. Por isso que canja “faz bem”.

+ Você conhece o livro de culinária bilíngue Sou Chef / I am a chef?

A macarronada de domingo
Domingo era dia de macarronada na minha casa, peito de frango assado e muito, mas muito queijo parmesão (comprado fresco, na manhã, no mercado municipal). Mesmo não comendo frango hoje em dia, as lembranças desses domingos são muito queridas.

Eu me lembro da pia cheia de panelas para lavar depois do almoço (justamente quando todos estávamos em coma de macarrão), da assadeira com os peitos de frango, sem pele, sem osso, dourados e perfumados. Da disputa para quem ia escolher o tipo de massa – a minha favorita era (e ainda é) o bucatini, quele macarrão comprido furado no meio, que faz uma bagunça só quando misturado com molho.

Porém, a herança que eu mais aprecio hoje é justamente o ritual do comer em família, de sentar à mesa (sempre forrada com toalha), de ficar e conversar, muito após o fim da sobremesa. “Essa é a melhor parte da refeição”, minha mãe sempre repetia.

Esse esquema de se estender à mesa muitas vezes conflitava com minha agenda social de adolescente popular, mas hoje eu agradeço muito ter tido esses momentos em família. Tinha de tudo: piada de irmãos, discussões políticas, histórias de família, final de novela, opiniões, divergências, enfim, a mesa da cozinha era o scenário de um aprendizado mútuo de empatia, tolerância, amizade e amor.

Heranças na corda bamba
Essa é a minha herança, recebida e muito estimada. A questão agora é: como passá-la para frente?

Estou fazendo o suficiente para honrar minha herança e ao mesmo tempo criar oportunidade de novas lembranças para minha própria filha? É difícil.

Às vezes tenho a impressão de que o “suficiente” é uma daquelas metas que vai se distanciando conforme vamos ao seu encontro – uma ilusão de ótica. Então, vamos vivendo nessa corda bamba, de um lado o que passou, do outro o que há por vir, verdadeiros bêbados equilibristas, embriagados pela ilusão de tempo.

É necessário lembrar que o único lugar onde podemos atuar é no presente. É nele que devemos achar uma brecha para inserir um pouco do passado, para que esse possa fazer parte do futuro.

O convite fica, então, aos queridos leitores dessa coluna: pense na sua herança recebida, no que ela representa para você hoje, e qual a influência no seu crescimento humano. Agora pergunte-se: o que você gostaria que o seu brasileirinho(a) recebesse de herança? Quanta importância (ou prioridade) você dá no seu dia a dia para fazer com que essa herança vire realidade? O trabalho é duro, o esforço é constante, porém, para a esperança equilibrista, nada é mais gratificante do que ver show continuar.

 

Rita TurnerRita Turner é correspondente de diversos blogs de culinária. Simpatizante do grande chef Alex Atala que costuma dizer que a comida é a maior rede social do mundo, Rita acredita na influência da cozinha na formação da identidade e a vê como um agente fundamental na preservação da cultura de um povo.

 

© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe sempre com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.