É que nem andar de bicicleta…

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Por Felicia Jennings-Winterle
Coluna Educação Bilíngue/ Editorial

Vou confessar – eu não sei andar de bicicleta. Sou uma adulta de 28 anos, mas parece que nunca houve uma oportunidade em que eu pudesse aprender e praticar. A bem da verdade é que eu adoraria aproveitar um domingo no parque pedalando, mas para aprender vou precisar ir lá fora, ter alguém me segurando e, na frente de todo mundo, fazer algo que deveria ter feito na infância. Tarde demais? Não. Mas vocês podem entender como isso seria constrangedor.

Estou querendo fazer um paralelo entre andar de bicicleta e aprender a falar ou ler e escrever em português. Me deparo com muitas famílias que, por diferentes razões, chegam à mim com filhos de 5, 6, 7, 8 anos que não falam português. Na maioria dos casos, os pais estão arrependidos e acham que é tarde demais. Em outros, se sentem tão culpados que acham que nem adianta mais tentar.

Tarde demais? De maneira nenhuma.
Crianças, assim como adultos, tem um cérebro altamente plástico. Quer dizer, um cérebro que aprende e se adapta às situações mais diversas. E se a questão é a aprendizagem de uma habilidade, se houver estímulo, exemplos, instrução, o cérebro aprende mesmo. Realisticamente falando, porém, existe sim diferença entre o processo de aprendizagem de uma língua entre crianças de 2 – 5 anos e crianças de 6 – 10 anos. Uma das diferenças é a questão da inibição.

A criança de 2 – 5 anos tem menos inibições porque a compreensão que tem do mundo ao seu redor é limitada às suas experiências concretas – casa, escola, parquinho. Ela tem noção de poucas normas sociais e portanto diferenças em sotaque, línguas ou culturas são fatos interessantes e cativantes e não questões de status.

Voltando ao exemplo da bicicleta, como adulta, eu tenho noção de que é estranho um adulto não saber pedalar. Eu sei que se cair, vou me machucar e eu sei que preciso me equilibrar usando partes XYZ. Uma criança de 4, 5, 6 anos que aprende a pedalar não está pensando em nada disso. Ela pode até estar pensando em apostar corrida com o vizinho, mas não tem noção de que aquela é uma habilidade complexa e que envolve o corpo inteiro.

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Outra questão é a atenção. A partir de 5 anos, da entrada na escola e do desenvolvimento mais especializado dos símbolos (letras e números), a criança passa a se ancorar a padrões e normas na tentativa de organizar os fatos ao seu redor. Ela passa a se concentrar mais no específico do que no todo.

Aos 4, 5 anos a criança aprende a relacionar gráficos a sons e significados. Para ela, letras são símbolos e podem ter quantos sons e significados lhe forem apresentados. De acordo com a famosa psicóloga Ellen Biaslystok, aos 7, 8 anos, quando essa relação grafia/som/significado já está bem mais consolidada, é mais complexo para a criança se deter ao todo – pelo contrário, ela se detém a detalhes.

A complexa, mas a melhor coisa a fazer é começar de pequenininho
O português, ou qualquer outra língua, materna ou não, deve fazer parte do contexto da criança – casa, escola, parquinho. Para alfabetizar, melhor acompanhar o processo desenvolvido na escola de alfabetização da língua local, simultâneamente. Quer dizer começar a alfabetização da outra língua (no nosso caso o português) aos 4, 5 anos. Nessa fase, um segundo sistema será somente um outro sistema e não uma incógnita.

Nunca desista ou pense que é tarde demais
Se qualquer aprendizagem tivesse prazo de validade, nunca poderiamos aprender coisas novas depois dos 7 anos. Vai requerer mais esforço, mas certamente não é impossível.

 

Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.
© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

3 comentários em “É que nem andar de bicicleta…

  1. Felicia,
    Adorei a comparacao: “Aprender a andar de bicicleta & Aprender um segundo idioma”.

    Se torna muito mais facil assimilar linguas diferentes enquanto pequenos e sem inibicoes. Assim como, aprender a andar de bicicleta… caiu? machucou? levanta e segue em frente…. nao importa a idade, o importante e’ insistir e nao desistir.
    Como mencionado, o apoio e’ fundamental, assim como para aprender a andar de bicicleta sem rodinhas inicialmente alguem segurou e o apoiou para nao cair. Se torna impossivel, alcancar sucesso no aprendizado de uma segunda lingua sem o EXCESSIVO apoio familiar e educacional para a crianca ou adulto.

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