Ah, só depois do Carnaval…


Por Felicia Jennings-Winterle, MA

O Carnaval que conhecemos hoje é uma mistura de tradições e crenças de longa data, dos festivais gregos aos deuses do vinho, do prazer e da fertilidade. Foi se modificando, se moldando e sendo apropriado por outras tradições, entre elas o cristianismo. Trata-se de 5 dias (de sábado a quarta-feira) de total diversão e experimentação de, há quem diga, todos os pecados e prazeres da carne. A palavra Carnaval, vem do latim, “Carne Vale”, ou adeus à carne. É sempre datado 40 dias antes da Páscoa (contados a partir da quarta-feira de cinzas).
O Carnaval era também festa européia. Em Portugal era chamado de entrudo e consistia de uma brincadeira de sujar as pessoas com lama, água e comida.
Foi este o Carnaval levado às colônias, inclusive o Brasil. Era festa da elite, de bailes elegantes ao som de música com tom de nobreza. Nem letra tinham. Foi a grande pianista Chiquinha Gonzaga, sob encomenda dos dirigentes do cordão Rosa de Ouro, quem em 1899 escreveu uma música especificamente para o fim carnavalesco. Compositora e musicista já consagrada, registrou assim a primeira e a mais antiga marcha-rancho do carnaval brasileiro.

Ó abre alas
 Que eu quero passar

Eu sou da Lira
 Não posso negar
Ó abre alas
 Que eu quero passar
Rosa de Ouro
 É que vai ganhar

A festa do entrudo foi trazida para as Casas Grandes, onde os senhores e barões se divertiam. Os casais elegantemente vestidos eram observados pelos escravos que se maravilhavam com tanta beleza. Como não eram convidados, passaram a imitar as festas, com um tom de chacota. É dai que vem, por exemplo, as fantasias exageradas cobertas de plumas e paetês, e a dupla Mestre Sala e Porta Bandeira.

Durante a maior parte dos anos noventa, o Carnaval ficou reduzido aos desfiles das escolas de samba e aos grandes bailes em clubes fechados, como nossa geração deve bem lembrar. O tradicional “carnaval de rua”, de brincadeira espontânea, sem pagar entrada, tinha sido abandonado. Nos últimos anos, entretando, tem havido uma tentativa de resgate desse carnaval mais infantil e ingênuo.

O carnaval é festa da carne, do pecado, dos excessos que esgotam e registram a história com ironias e paetês. Antigamente havia mais glamour, as belezas eram mais naturais, a dança, a música e tudo enfim eram mais brasileiros, mais autênticos. Agora, tudo virou um megashow pirotécnico e americanesco… bem longe da saga tupiniquim e da intensa miscigenação que temos em nosso povo” (Gisele Leite e Denise Heuseler). Mas, elas continuam, “ao cair na folia, há uma democracia racial, todos estão na mesma forma, quer sejam brancos, índios, orientais, negros, todos reunidos significam uma “nova raça’’ que surge durante os quatro dias, a raça dos foliões”.

É essa democracia cultural, essa alegria geral, que mais me maravilha nesta festa. É marca registrada do brasileiro, e apesar do esteriótipo “no Brasil o ano começa depois do Carnaval”, a perpetuação desse universo carnavalesco é o que garante que gerações futuras também experimentarão dessa riqueza.

Hoje, o Carnaval brasileiro é uma verdadeira indústria. São milhões de dólares envolvidos em fantasias, enredos, comerciais, direitos autorais e de transmissão. Grande gerador de emprego, principalmente em São Paulo e no Rio, o Carnaval não acontece somente em fevereiro. Na cabeça dos artistas e demais envolvidos, o Carnaval é tema para o ano inteiro. Cada ano tenque ser melhor.
Mas, e os ritmos? E a dança? E aquele Carnaval de rua? Ah, é esse que eu adoro e me orgulho de ver e difundir. Em todo o Brasil, ritmos novos e velhos embalam a multidão. Frevo, maracatu, ciranda, coco, samba, samba de roda, afo axe, caboclinho, baião, xote, xaxado. (Saiba mais sobre cada um deles nesta semana de Carnaval em nossa página no Facebook).

Frevo
Samba de roda

Maracatu

E as marchinhas? Ah que delicia. Me fazem lembrar dos dias que eu ia fantasiada de havaiana ao clube do estádio do Morumbi, dançar chupando picolé de uva. “Mamãe eu quero”, “Taí”, “Você pensa que cachaça é água”… Você lembra dessas?

Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.
© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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Um comentário em “Ah, só depois do Carnaval…

  1. E nos mal podemos esperar toda essa festanca comecar… 🙂
    Que bom termos o privilegio Em participar de eventos voltados totalmente ‘a nossa Cultura Brasileira, atraves dos Projetos Brasileirinhos e Brasil Em Mente.
    Obrigada.

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