O papel da escola no bilinguismo que envolve uma língua de herança

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Por Felicia Jennings-Winterle, Coluna Educação Bilíngue
Atualizado em Outubro/2016 com a contribuição de Fernanda Krüger e Carla Pontes

E a escola? Aquela local, pública ou particular, de língua majoritária. Qual é o papel da escola na promoção de um bilinguismo que envolve uma língua de herança?

Para muitos de nós a escola é uma embaixada para o conhecimento, para o desenvolvimento do pensamento crítico, da curiosidade e da cidadania. Os educadores, os coordenadores e os administradores são, portanto, embaixadores nesse processo de crescimento sociocultural.

Há quem diga que a família educa, os professores ensinam. Mas que tal pensar que família e escola, juntas, dão asas? Asas possibilitam voos, visitas ao passado, presente e futuro em esferas conhecidas e desconhecidas; mas uma criança só consegue adquirir e fazer crescer tais asas se seu desenvolvimento emocional, físico, cognitivo, cultural e social forem concretizados em plenitude.

Para uma criança que pertence a uma família bilíngue e/ou multicultural esse desenvolvimento é ainda mais multifacetado, incluindo no mínimo, uma língua, uma cultura e uma identidade adicionais.

 

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À escola cabe nutrir esse diferencial e não fazê-lo anormal. Seu papel é reconhecer todos alunos como seres inseridos em um contexto social e cultural. Entender que crianças multiculturais trazem conhecimentos de uma língua que não é a oficial da escola e experiências de uma cultura que não é a da comunidade em que a escola está situada é só o ponto de partida.

Esses conhecimentos, essas vivências que vêm de casa e/ou de um outro contexto (e até de um outro país, no caso das crianças imigrantes) não podem ser vistos como obstáculos à aprendizagem ou como algo “interessante”, “exótico”. As escolas devem se comprometer a fazer um plano político-pedagógico que considere e inclua o multiculturalismo e o multilinguismo.

O famoso pesquisador Colin Baker diz que, de maneira geral, as escolas forçam um monolinguismo a quem tinha tudo para ser bilíngue e celebram o bilinguismo de quem tinha tudo para ser monolíngue.

Por isso, a escola deve oferecer às famílias, multiculturais ou não, informação e possibilidades de discussões sobre o bilinguismo através de palestras, workshops, leituras, fornecendo meios para o incremento do ensino bilíngue com recursos variados (ex: biblioteca com títulos em diferentes línguas), estímulo e apreço pela multiplicidade de seu público.

A escola pode ainda contribuir para a viabilização do ensino das línguas de herança (LH) dentro de seu espaço físico e/ou rotina. Se dela vier a aprovação, certamente os pais ficarão mais seguros de que o bilinguismo de seus filhos será uma vantagem e não um obstáculo no desenvolvimento social e acadêmico deles.

 

Como uma escola pode acabar com a vitalidade de uma LH?
A jornalista e programadora visual, Karen Mohrstedt Badin mora na Holanda e é mãe de 4 filhos de idades 18, 15, 13, 10. Em entrevista à Plataforma Brasileirinhos (em 2012) ela conta para nós como foi falar e não falar português com eles.

Plataforma Brasileirinhos>Os seus filhos falam português?
Karen>As de 13 e 10 sim, em um nível meio básico. Não leem nem escrevem em português. Elas entendem bem, principalmente a mais nova, e respondem em português. Mas falam com sotaque e com uma fluência média.

PB>Você nunca falou português com eles, ou falou em algum momento na infância?
Karen>Falei português com todos até a idade escolar. Porém, meu primeiro filho era muito agitado e difícil quando criança. Na escola arrumava problemas diariamente. Eu ia sempre buscá-lo pensando ‘do que será que a professora vai reclamar hoje?’.

No segundo ano escolar a diretoria me pediu para parar com a segunda língua porque estava atrapalhando o desempenho escolar dele.

A escola achava que ele estava com menos vocabulário que as outras crianças e que confundia as duas línguas. Eu, com muito dó, marinheira de primeira viagem, aceitei. Se era a escola que estava pedindo…

PB> Mas e você se arrepende disso?
Karen> Naquela época ainda não havia tanta informação sobre bilinguismo como existe hoje, infelizmente. Eu me arrependo muito, porque depois, continuar a falar em Português com as outras crianças  dificultou a logística da casa – tinha que ficar mudando de língua a toda hora. À mesa, com todos juntos é um caos. As crianças menores começam a protestar e entram os amiguinhos em cena e em uma certa idade crianças ficam com vergonha de ser diferentes, não querem falar outra língua com amigos por perto… enfim, com 4, o dia-a-dia ficou complicado.

Quando cheguei na filha mais nova pensei com meus botões: é agora ou nunca, preciso de pelo menos um intérprete em casa!

E com ela nunca parei de falar. Ela reclamou, protestou, me ignorou, me respondia em holandês mas hoje em dia fala direitinho, não perfeito, mas bem melhor do que era.

PB> Que recursos você acha que se tivesse tido à mão, teriam facilitado o processo de bilinguismo em sua casa?
Karen> Acho que teria sido bem mais fácil se meu marido fosse brasileiro. Também teria ajudado se eu tivesse uma babá ou empregada brasileira, ou amigas… Mas, naquela época, não havia  muitos brasileiros aqui no norte da Holanda. Muito menos algum(a) com crianças pequenas. Se na época eu tivesse tido acesso à informação que hoje em dia está disponível na internet e revistas sobre as vantagens da educação bilingue e como o processo de aprendizagem não é linear para todas as crianças, ou seja, que no começo a segunda língua talvez pareça ‘atrapalhar’ mas que depois o desenvolvimento das duas se estabiliza e que o raciocínio é beneficiado, teria parado para pensar mais cedo.

PB>Que recursos existiam ao seu redor, e que você acabou não usando?
Karen>Acho que não havia muitos recursos. Na época também, depois de ter tido muita dificuldade em parar de falar com meus próprios filhos em Português, eu aceitei. Não pensava muito isso. Tinha 4 crianças pequenas e meu trabalho, estava construindo uma casa… era muita correria para pensar direito sobre algumas coisas. Só mais tarde, vendo outras crianças bilíngues e lendo mais sobre o assunto é que eu comecei a perceber que tinha cometido um erro. Talvez pudesse ter ido mais frequentemente ao Brasil, mas na época (e ainda hoje) fazer uma viagem intercontinental com uma família grande é bem caro e exige muita preparação e disposição. Ia uma vez por ano, com 2 das crianças (sistema rotativo). Hoje, faço diferente e dou a dica: ano passado fui por 3 meses ao Rio e matriculei minhas filhas em uma escola e colônia de férias. O convívio com outras crianças brasileiras (e adultos) foi ótimo para ‘soltar a língua’ e elas se divertiram muito. Foram ótimas férias e muito educativas.

Ah, outra coisa interessante: a minha filha de 13 anos tem dislexia – o que também me desincentivou no passado a insistir com a segunda língua no caso dela – mas desde as férias na escola do Rio retomamos a aprendizagem e ela é quem fala com menos sotaque e aprendeu (ou reaprendeu porque até a idade escolar era o que ela mais ouvia) a língua super rápido e fala direitinho. Ou seja, mesmo com dislexia deveria ter insistido.

 

Então, conte para nós: qual tem sido o papel da escola de seus filhos na vitalidade de sua LH? Você tem recebido estímulos, meios e recursos? Os pais têm sido educados à respeito dos benefícios desse estilo de vida, ou tem-se sustentado uma noção reducionista e retrógrada acerca do bilinguismo? Escreva para nós!

Veja também:
o papel da mãe, o papel do pai, o papel dos avós, e o papel da comunidade.

 

Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.
© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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37 comentários em “O papel da escola no bilinguismo que envolve uma língua de herança

  1. Vou contar minha historinha…
    Desde que engravidei do Tito a escola sempre foi a minha “preocupação”, nesse tempo morávamos em Portugal e a relação que os portugueses tem com os brasileiros é bem complicada e permeada de preconceitos… eu via filhos de amigas que vinham conversar comigo pedindo pra que eu não contasse pros pais o que eles passavam na escola… isso me doía, me machucava… não quis essa realidade pros meus filhos… resolvemos voltar pra Fortaleza. Chegando em Fortaleza a preocupação era INCLUSÃO… as crianças com necessidades especiais são simplesmente deixadas de lado, as escolas tem uma imensa dificuldade de trabalhar essa questão, e eu sempre quis que ele convivesse e aceitasse as diferenças, sem preconceitos… O mundo da volta e saímos de Fortaleza ele tinha 2 anos, não chegou a ir pra escola, mas chegando aqui vi a necessidade tanto de socialização qto de aprender o idioma e fui buscar escolas e foi bem difícil pois moramos em um bairro com uma concentração maior de judeus, sendo assim a maioria das escolas são religiosas, e pelo que vi, não aceitam bem não-judeus! Até que encontrei uma que se encaixava muito bem no que eu queria, com uma diversidade de culturas convivendo bem, que praticam a inclusão e que tenha um foco maior na leitura. Nos primeiros dias o deixei com o coração na mão, mas confiante na escola e foi tudo muito bem, já tinha um coleguinha brasileiro lá, uma das professoras falava espanhol e eles se entenderam assim por uns bons 2 meses, até que ele pegou bem o inglês. Toda essa novela só pra dizer que a escola é FUNDAMENTAL nesse processo! Nas avaliações ele sempre foi bem elogiado principalmente por acolher as outras crianças que ainda não falavam o inglês, já teve mãe que veio falar comigo pra agradecer isso e dizer que o Tito foi um apoio do filho… Ou seja, mesmoq ue tenha alguma perda, oq ue eu não acho que isso aconteça, os ganhos são maiores!

  2. Com certeza, uma vez que o bilinguismo só traz pontos positivos para o futuro das crianças é essencial que a escola procure ficar a par das informações benéficas e tem o dever de passar estas informações à família daquela criança e dentro do possível oferecer os recursos possíveis para evitar que os pais tomem atitudes erradas por desinformação.

  3. O papel da escola seria de incentivar e ajudar as crianças a fazerem a separação entre a língua portuguesa e a outra língua, mas sabemos que a maioria das escolas e principalmente dos professores não sabem lidar com o bilinguismo e acabam optando pela solução rápida: os pais devem parar de falar português (ou qualquer outra língua) com a criança. Muitos estudos já provaram que o bilinguismo traz mais benefícios às crianças e que apesar os tropeços iniciais, a criança desenvolve um vocabulário riquíssimo em duas línguas (ainda mais quando são idiomas próximas como as línguas latinas). Aqui na França, um país que recebe muitos imigrantes há muito tempo (não em todas as escolas, não todos os professores naturalmente), está acostumada a trabalhar a questão do bilinguismo, não o refusando (para algumas línguas evidentemente), mas privilegiando o francês na escola, sem neglicenciar a língua materna da criança. No entanto, sempre há uma hierarquia clara: a língua materna é a segunda opção e voltar a ser a « língua da mamãe/papai », que não é tão importante. As vezes infelizmente a criança passa então a não querer falar sua outra língua, porque a torna diferente.

  4. Trabalho com educação bilíngue há uns 20 anos. Acho que há uns 10 diretamente em escolas internacionais e/ou que praticavam bilinguismo de imersão (inglês).No final de 2008,início de 2009 começamos a receber diversos ‘brasileirinhos” cujos pais estavam regressando ao Brasil,tanto por conta da crise que começava a se instalar,quanto por causa das boas oportunidades no mercado brasileiro. Apesar de serem crianças com trajetórias diferentes, a dúvida dos pais era sempre a mesma: como ajudar meu filho a aprender/manter a língua materna ou 2a língua? Em que língua meu filho será alfabetizado? Será que não vai confundir as 2 línguas?
    Acredito que o papel da escola seja não só o de formar estes alunos,mas também informar aos pais e professores sobre as vantagens e os processos de aquisição da língua.Cabe a nós educadores incentivar e buscar os suportes necessários para auxiliar famílias e crianças.
    No caso específico das línguas de herança talvez esse apoio e incentivo sejam ainda mais valiosos na medida em que o resgate desta língua ajudará na construção da identidade do aluno,no entendimento e na aceitação de outros valores culturais e até mesmo no desempenho acadêmico.

  5. Como moro na Holanda, o depoimento da Karen vai ao encontro da realidade que costumo ouvir por aqui, mas que ainda me espanta. É comum ouvir relatos de pais que deixam de criar seus filhos bilingues por causa da escola, como aconteceu com a Karen. Infelizmente, a escola aqui está carente de profissionais com uma visão mais moderna de bilinguismo. Logo, a escola presta, na verdade, um deserviço aos pais que desejam criar seus filhos bilingues e, assim, à sociedade. No mundo atual o multilingualismo é mais regra que exceção, principalmente se tratando de um país como a Holanda que prega o multiingualismo e o multiculturalismo. Na prática, porém, a realidade é outra. Professores continuam a perpetuar o senso comum, ou seja, a visão de que o bilinguismo é prejudicial e, assim, não quebram esta corrente. Ao invés, eles a reinforçam. Isso quando a escola deveria ser o meio pelo qual o blinguismo deveria ser incentivado, mostrando a importância, a relevância e os benefícios do mesmo. Promover o bilinguismo.

  6. Vendo o depoimento da Karen eu não pude deixar de me recordar da época em que morei na Holanda. Fui para lá por um ano como aupair. Trabalhei na casa de uma filha de Brasileira e só falava em português com as crianças. A mãe queria reforçar o português com os filhos. Ela era holandesa casada com um Holandês mas ela e os 2 irmãos aprenderam o português através da mãe que se casou com um Holandês mas nunca deixou de ensinar o português aos filhos. Os três filhos cresceram falando português e agora quem estava aprendendo os Português eram os netos. As duas filhas, casadas com holandeses continuaram a língua que aprenderam em casa. Tinham orgulho de ensinar o Português aos filhos porque queriam que eles não perdessem nunca a ligação com o Brasil.
    Vi que na escola realmente não tinham tanto apoio para o bilinguismo mas não se deixaram desanimar.

    Hoje, morando no Canada, vejo tudo bem diferente. O país tem duas línguas oficiais e apoia a introdução de outras línguas para as crianças. Eu vejo como as escolas e a comunidade apoiam o ensino de mais de uma língua O governo distribui cartilhas para os pais incentivando que falem a língua materna em casa. Com essa facilidade e apoio fica muito mais fácil fazer com que as crianças continuem com a língua materna.

  7. Eu acho que a escola poderia ajudar muito, porém nem sempre podemos contar com este apoio, porque os profissionais da educação e o próprio sistema educativo do país nem sempre está preparado para isso. De fato, as diferenças didáticas muitas vezes são tão drásticas e profundas que custa mesmo às crianças que não são bilingües (ou que têm este esforço de acréscimo) a se adaptarem. Eu digo esto, porque sou arte-educadora (professora de teatro) e trabalho no âmbito do tempo livre e do ensino extra-escolar, que gosto muito, e tenho visto na Espanha muitas diferenças no trato dos educadores com as crianças. Coisas que sempre tentei mudar e tive boa aceitação por parte dos pequenos.
    A meu ver, devemos (como pais), estar atentos ao que dizem os professores, mas também ter um pouco de visão crítica e muita atenção com as crianças, pois já vi casos em que a única opção viável para o desenvolvimento da criança foi trocar de escola. Por isso é bom estar sempre muito atentos, pois existem escolas que mais ‘deseducam’, que outra coisa.
    Como solução, vejo a necessidade de criar ofertas e opções adicionais: aulas extra escolares, aulinhas de português, aulas de teatro, de expressão corporal, de música, de capoeira etc. Pois a questão vai além da língua, é uma forma de ser e abordar o mundo, ou seja, uma identidade, uma cultura.
    Ser bilingüe é reconhecer uma identidade múltiple e atender às necessidades vitais e inconscientes, o que, muitas vezes, nos leva a ser ‘diferentes’; mas é o que somos, na verdade e aí reside a nossa riqueza.

  8. ” O bilinguismo e o plurilinguismo são hoje uma realidade crescente ” afirma o linguista Noam Chomsky . Sendo assim, a escola também deveria incentivar e promover o ensino de dois ou mais idiomas, e no que se refere as línguas de heranças, apoiar também as iniciativas de ensino por parte dos familiares e da comunidade.

  9. A Suécia é um país que valoriza a inclusão de pessoas que chegam aqui. Estrangeiros em geral tem direito de estudar a língua gratuitamente na cidade onde vivem e num centro mais próximo de casa. As possibilidades são inúmeras.

    Mas as crianças são as mais privilegiadas nessa sociedade, que investe TUDO na formação e desenvolvimento dos pequenos. A frase que diz que “a criança é o futuro da nação” é levada ao pé da letra aqui. Toda a sociedade é organizada de modo a suprir as demandas dos mesmos.

    Os filhos de estrangeiros que vivem aqui tem direito assegurado por lei de, à partir dos 6 anos de idade aprender a língua dos pais, no caso de um deles ser estrangeiros. A escola faz a ponte entre os pais e o Ministério da Educação e eles providenciam um professor na língua nativa da criança, e, além disso, é incentivado que o pai ou a mãe fale com a criança em casa em suas respectivas línguas maternas. O bilinguismo aqui é considerado importante e produtivo para o desenvolvimento e como mais valia para a vida adulta.

    Recentemente, uma mãe brasileira que vive em Estocolmo há mais de 8 anos escreveu um texto numa rede social falando da sua indignação pelo fato de a professora dos seus filhos que é brasileira trabalhar com material didático Português (Portugal). Ela não quer que seus filhos aprendam expressões que não são nossas.

    Esse texto gerou alguma discussão, na qual também me pronunciei. A maioria dos pais que vivem aqui comungam da mesma idéia, outros acham que o uso do material é indiferente na obtenção do resultado. Mas o debate alargou-se ainda a um espaço mais amplo: o da cultura, por atentar para o fato de que toda a pessoa quando aprende uma língua, consequentemente fica a conhecer a cultura daquele país.

    Algumas mães falam em reunirem-se para reivindicar formalmente ao Ministério da Educação que não basta ser professor brasileiro, é preciso também usar material brasileiro. Almeja-se com isto que as crianças aprendam sobre a cultura brasileira, o folclore, músicas, poesias e todo o universo que é riquíssimo, nossas histórias e cantigas e não algo que não venha gerar qualquer identificação.

    Isto posto: qual é o papel dos pais, avós, escola e comunidade? O papel que cabe a cada um deve ser discutido entre todos, mas fato é que todos precisam assumir a responsabilidade de fazê-lo, uma vez que é cientificamente comprovado que uma Educação Bilíngue só pode trazer benefícios às crianças, a curto ou a longo prazo.

  10. O papel da escola é de incentival o aprendizado, qualquer que seja. A recomendação desta escola foi absurda. Onde moro, em Abu Dhabi, todas as crianças vêem de outro país, então o bilingualismo é comum. No entanto, o inglês é passado na sala de aula com muita seriedade, já que eles tentam nivelar a turminha de 3 anos e fazer com que todos possam se comunicar entre si (há os que são bilíngues, e o que ainda não falam inglês, pois só falam a língua materna). Além disso, eles ensinam o Árabe qiue é mandatório em qualquer escola no Oriente Médio. Isso acaba fazendo a criança a utilizar o Inglês de modo mais frequente. Mas, ao mesmo tempo, a escola tenta manter o espírito do multiculturalismo através de sua biblioteca multilíngue, feiras internacionais, etc. Fico feliz de que, se não há uma aula para ajudar meu filho a praticar o Português, há pelo menos um ambiente que celebra e incentiva a diversidade, a diferença. Enfim, na minha opinião, queira a escola seja em Português, ou em outra língua, ela tem um papel fundamental no bilingualismo. Ela tem o poder de influenciar o aluno e de despertá-lo para o multiculturalismo, de desmistificar a diferença, de integrar os aspectos culturais de seus alunos ao seu ambiente. Mesmo dentro de seus limites, há um papel a ser cumprido pela escola.

  11. Como professora e grande defensora do bilinguismo, acredito que o papel da escola é com certeza incentivar e promover recursos para o desenvolvimento da língua de herança. Informar pais e familiares sobre a importância e benefícios de crescer falando duas línguas, ou mais; mesmo que pareça difícil em alguns momentos é essencial ter paciência e perceverança.

  12. O papel da escola é incentivar a manutençao e aprendizagem de quantas línguas forem possíveis. Até aqui, tudo bem. A questao é que, como professora, sou a primeira a defender que sem formaçao, a escola e por consequencia, os professores, nao têm condiçoes de orientar ninguem. O drama desta mae é comum, eu tenho acesso a ele por muitas famílias dos meus alunos. Até a idade escolar tudo é mais fácil, o principal meio social é a familia e se há uma política linguística organizada, a criança sera no mínimo uma excelente bilíngue passiva. Os problemas começam claro, na escolarizaçao. Dependendo do país, aqui em Barcelona, por exemplo, o sistema educativo é ministrado na língua catala, com o Espanhol como segunda língua e o Inglês como língua estrangeira. o Português, neste contexto, é a quarta língua em grau de importância na escola e isto quando é possível. Uma vez que somos seres sociais, que naturalmente desejamos integrarmos, o português aqui será no mínimo questionado por essas crianças.
    Penso que em primeiro lugar, a questao do bilinguismo e de multiculturas deveria ser abordada nos cursos de formaçao de professores. Isto porque com o atual fluxo de migraçoes que existe no mundo todo, nao há mais países monolíngues e sem imigrantes. Assim como as pessoas, as línguas e as culturas transitam por todos os lugares. E a escola nao deveria ficar para trás neste sentido. Se nao ha espaço para manter a língua e cultura de origem do aluno, que pelo menos estas sejam valorizadas dentro do projeto educativo. O ideal seria que os professores estivessem preparados para orientar os pais, em uma questao tao simples, como a que citou a mae, por exemplo, que alguns demoram um pouco mais a falar, que outros misturam as línguas por um determinado período e é normal, enfim, questoes básicas e também de apoio psicológico que ajudariam muitas famílias com dúvidas a manter e promover a sua língua, mesmo que somente no ambiente familiar. O mais importante a meu ver seria que a escola pudesse promover a vantagem e a riqueza que é pertencer a mais de uma cultura, conhecer e se apropriar de mais de um idioma, especialmente se este está vinculado à história e à identidade do aluno.

  13. Polêmico o texto da entrevistada. Muitas mães hoje a criticariam, mas o contexto em que se coloca toda a história de vida permite dizer que ela foi, na verdade, uma batalhadora. A escola, por outro lado, como uma grande serpente sempre está correndo atrás do próprio rabo. Quando assume um modelo educacional, invariavelmente dependente de uma coordenação pedagógica sempre eficiente, não admite a diversidade de tratamentos para casos que se assemelham. Não há aquisições de língua que sejam categoricamente iguais. É preciso espírito conciliador com a realidade circundante da criança. É preciso considerar a família da criança também. O contexto de vida e o espírito individual da criança são fundamentais para se traçar um plano de inserção social, pois há o sentimento que pode ser motivador ou detonador de processos cognitivos.
    A escola precisa ser modulada, flexível e principalmente reflexiva. Todo processo deve verter-se sobre o andamento, para que os reflexos sejam positivos e inclusivos.
    Sendo assim, não se pode falar em escolas de modo genérico, mas em orientações pedagógicas. Com uma mudança de concepção, pode-se acolher o que verdadeiramente se apresenta como um problema e consolidar o processo como um processo de construção em busca de um espaço conjunto de atenção.

  14. Como professor, creio, certamente, que o papel da escola é incentivar, promover mostras da cultura do outro como algo a ser valorizado, cujo diferencial é algo positivo, nem que para isso precise contar com a ajuda de pais de alunos oriundos de países que falam outras línguas (ou falam a mesma língua de outras maneiras) para concretizar ações, afinal, uma escola é um caleidoscópio de multiculturalidade.

  15. É difícil delimitar qual seja o papel da escola regular no bilinguísmo, assim como neste caso, quando o idioma de língua estrangeira não faz parte da grade curricular. Por muito tempo acreditou-se que aprender uma segunda língua no período de aquisição de L1 era prejudicial. No entanto, estudos recentes mostram que não há nenhum problema e que a criança não ficará atrasada por aprender mais de uma língua ao mesmo tempo. E o mais interessante é que, nos últimos três anos, também surgiram pesquisas que investigaram aquisição de L2 em crianças com algum tipo de afasia, até mesmo autismo, e concluíram que a aprendizagem do segundo idioma, além de não ser prejudicial, é mais rápida e auxilia em diversos momentos essas crianças. Seria necessário que essas pesquisas fossem divulgadas a fim de que as escolas incentivassem essa iniciativa dos pais e não aconselhassem erroneamente as famílias. Assim, problemas semelhantes à este, não mais existirão.

  16. Concordo plenamente com Graziela.
    Moro na Holanda, sou professora primaria numa escola internacional em Amsterdam e conheco bem o sistema educacional daqui.
    Varios alunos de minha escola brasileira foram diagnosticados com dislexia por terem dificuldade na alfabeticao.
    A possivel troca de letras, pronuncias, eh um fato conhecido e comum na pesquisa sobre o bilinguismo. O tempo deles pode ser mais lento na memoricao dos sons. A escola tem q ter consciencia disso, ser flexivel e oferecer respaudo didatico e afetivo para a crianca superar esta fase.
    aos pais eu aconselho conversar com a escola e demostrar a importacia que a heranca cultural tem pra vc. Mostre sua disposicao em encarar as dificuldades de seu filho e auxiliara escola nesta superacao.
    Existem varias vantagens na crianca bilingue, leia sobre elas e reinforce estas vantagens tanto aos seus filhos quanto a escola.

  17. Achei lamentável que essa escola na Holanda tenha dado um conselho tão ultrapassado pedindo que a mãe parasse de falar em português com o filho. O papel da escola é o de incentivar e informar e infelizmente não foi isso que aconteceu. Entendo a aflição da mãe que querendo o melhor para o filho resolveu seguir as recomendações da diretoria.
    No meu caso, a experiência com a escola foi bem diferente e positiva. Quando nos mudamos para os EUA a preocupação era que as meninas aprendessem bem o inglês pois o plano era o de voltar para o Brasil em 3 anos . Quando fomos matricular minha filha de 4 anos, tivemos uma reunião com as professoras e coordenadoras da escolinha. Elas foram bem firmes em pedir que em casa só falássemos em português com ela. Conversaram muito sobre todos os benefícios da educação bilíngue e asseguraram que o inglês ela iria aprender rapidamente. Foi muito importante esse apoio da escola aprovando e incentivando a manutenção da língua materna. Confesso que foi a partir dessa conversa que o meu interesse pelo bilinguismo surgiu e comecei a estudar sobre o assunto

  18. No meu caso, a escola foi que tornou os meus filhos bilingues. Quando nos mudamos pra cá, meu filho mais velho tinha 8 anos e minha filha tinha 5. Eles não falavam inglês, exceto alguns nomes de cores e animais. Ao matriculá-los na escola, logo foram incluídos em aulas de ESL. Como criança é uma esponja e eles passavam 6 horas e meia em imersão total na escola, logo dominaram a nova língua, o inglês. No ponto de vista da escola, eles não fizeram nada além de enquadrar as minhas crianças nos padrão linguístico monolíngue das escolas daqui. No ponto de vista dos meus filhos, foi um enriquecimento, também social e cultural, que eu não teria como oferecer.
    Além disso, tivemos a sorte de a escola promover um evento cultural chamado “Diversity night”, onde as famílias de origem diversas apresentam um pouco da sua cultura para a comunidade escolar. Isso gera nas crianças um orgulho da sua bagagem cultural que não tem preço!
    Com os meus dois filhos mais novos, nascidos aqui, está sendo bem diferente. O desenvolvimento da linguagem se deu em um ritmo diferente, apresentando algum atraso, mesmo em português. Depois de tentar entrar em contato com fonoaudiólogas brasileiras em NY, mas sem sucesso, procurei ajuda do distrito escolar local. Eles foram muito prestativos, oferecendo “speech therapy” para os meus meninos. Apesar de tudo ter sido feito em inglês, percebo a cada dia a evolução deles, inclusive ao falar português. Eles ainda estão na pré-escola e eu ainda aprendendo enquanto vivo cada “curva do caminho”.
    Por tudo isso, a meu ver, o papel da escola no bilinguismo é oferecer plenamente um idioma, sem detrimento do outro que a criança já conhecia; ainda que este seja um idioma desconhecido pela comunidade escolar. A escola deve ser sempre um meio enriquecedor, nunca inibidor.

  19. Apesar de estar no Sul da Flórida, dar aula de computação em uma escola para uma população estudantil bastante diversificada, demorou oito anos para que a administração aceitasse minha sugestão de implementação de um programa bilíngue. Bom, antes tarde do que nunca, não é mesmo? Porém, não dividimos o mesmo objetivo. A visão da escola tem ênfase no marketing, com alvo nas famílias brasileiras ricas que estão “comprando” o Sul da Flórida. Mas, de qualquer forma, não posso reclamar, pois oferecem todo o apoio necessário para que nosso programa de português seja um sucesso.
    O número de brasileirinhos tem crescido muito nos últimos três anos aqui na nossa escola. Porém, o programa foi lançado há quatro semanas e, por incrível que pareça, dos dez alunos matriculados, um é brasileiro… Eu também fiquei chocada! Vai ser bem interessante ver o que vai acontecer de agora em diante. Será que estas famílias vão tirar proveito desta oportunidade? Ou vão simplesmente deixar o inglês e cultura americana dominar?

  20. Da mesma forma como comentei no artigo “O papel da comunidade no bilinguismo”, acredito na ‘não-onipotência’ dos pais e das escolas, já que os primeiros confiam na escola o papel de educar seus filhos, o que pressupõe mais do que apenas ensinar determinada matéria, mas de orientar, de estimular, passar valores ou auxiliar a criança a construir valores, mas não impor valores e sabres sem promover a reflexão. Como psicóloga, acredito na formação própria de cada indivíduo, isto é, cada qual tem suas habilidades, capacidades, e estas – e outras (habilidades ou capacidades) – podem e devem ser estimuladas. Não importa que um aluno tenha dislexia, ou que aprenda de modo mais lento em relação a seu coleguinha. É esperado que a escola, ou seja, o professor e demais profissionais aí envolvidos na orientação escolar, atue efetivamente em seu papel de educar e de identificar possíveis nuances entre as crianças, seja de concentração, inclinação para uma ou outra área do conhecimento, como leitura, desenho, números, para citar alguns exemplos. No caso do aluno bilingue, pode ocorrer que ele tenha um ritmo mais lento para desenvover-se em uma língua em detrimento de outra, ou em ambas, mas esse ‘atraso’ logo será recuperado, e a vantagem de ser já alfabetizado em dois idiomas só lhe trará benefícios, seja no aprendizado de outros idiomas, no contato com outras culturas, no seu futuro profissional, e até para viajar, conhecer ou mesmo viver em países ou culturas distintas, como é o caso de seus pais e de muitos de nós. Sendo assim, a escola deve estar preparada para receber qualquer ‘tipo de’ aluno, com toda a sua bagagem cultural, genética, sua herança mais valiosa que é a cultura de sua família, que é tão rica quanto a cultura de onde vive. E se a escola existe com a função de formar saberes, ou conhecimentos, nenhum saber deve ser sufocado ou desestimulado, e muito menos proibido. Nem a escola deve ter a onipotência de tudo saber e decidir o que a criança irá aprender ou desenvolver como habilidade, nem os pais devem escutar cegamente opiniões ou aceitar decisões capazes de cercear o desenvolvimento de seus filhos. Da mesma forma que a escola, os pais devem estar atentos e permitir, estimular, promover e facilitar o crescimento de seus filhos, os quais apontarão, eles próprios, as suas diferentes habilidades, nada devendo ser forçado, mas preferencialmente incentivado.

  21. Parabéns, excelente texto!!! Retrata verdadeiramente a nossa vida cotidiana!!!! No meu caso, a escola é um dos fatores primordiais no desenvolvimento da língua como herança, porque esse contato direto com outras crianças, com a cultura, com as pessoas que falam português, facilita muito mais a aprendizagem. Aprendi e aprendo no dia-a-dia que não podemos “forçar a barra”, a criança sabe identificar qual e quando é o melhor momento para abrir caminho ao bilinguismo.

    O relato da Karen, é algo semelhante ao que aconteceu na minha família.

    Meu marido costarriquenho, por circunstancias do trabalho,foi transferido ano passado para o Brasil. Meu filho costarriquenho, entendia o português, mas não queria falar, hoje tem 5 anos e meio, foi para o Brasil com 4 anos e chegando lá, ele não queria falar português, dizia: “Mãe as pessoas tem que aprender a falar espanhol, não quero falar português”. Isso foi um banho de agua fria para mim, porque as pessoas tentavam se aproximar dele e o mesmo recusava e com isso começamos a observar mudanças no seu comportamento.

    Foi ai que matriculei meu filho numa escolinha e pedi ajuda as professoras. Seria algo novo pra ele, na primeira semana, começou a “soltar a língua”, pelo menos em espanhol, os coleguinhas começaram a conhecer um pouquinho da cultura daqui, palavras em espanhol, etc. foi na verdade, um intercambio cultural e já na segunda semana ele chegou falando pequenas frases em português com sotaque carioca. Meu esposo, ao escutá-lo quase chorou! Não podíamos acreditar! Ele tinha descoberto o barato que é falar português, o barato que é ser bilíngue!

    Agora de volta pra Costa Rica, quando fazemos algumas reuniões com amigos costarriquenhos ou brasileiros, ele mesmo questiona: “Mãe aqui temos que falar
    em português ou espanhol?” Agora ele troca imediatamente o “chip”.

  22. Nos dias de hoje, principalmente fora do Brasil, o multiculturalismo permanece e aumenta a cada dia. Acho que a questão principal não é somente com relação ao bilinguismo, mas ao multilinguismo. O papel da escola e do educador no sentido de passar informações aos pais e á própria sociedade é essencial, e mas do que fundamental é o crescimento de propostas e incentivos á diversidade cultural que é claramente exposta em cada sociedade, e de consequência dentro de cada escola.

    Eu falo pela Europa pois moro na Itália, mas com certeza isso vale para toda nação. A globalização está mostrando que é possível crescer e viver na diversidade, mas o ponto é que falta preparação nos institutos escolásticos.
    Pela minha experiência, vejo dentros das escolas daqui cada profissional com as suas dificuldades e sensibilidades pessoais, ou seja, se ele é sensato e procura se informar a respeito do bilinguismo e diversidade, ele consegue passar estas informações aos pais, demonstrando apoio á manutenção de suas origens, língua e cultura. Mas se este profissional não tem a mínima sensibilidade ou instrução e conhecimento a respeito, ele simplesmente ignora.
    Sou muito grata pelas escolas que meu filho passou, primeiro no berçario até os 3 anos, onde os educadores me apoiavam a continuar falando em português com ele, falando também que o atraso era normal, enquanto todos já falavam frases a 2 anos, meu filho ainda estava nas palavras e alguns verbos, nas duas línguas.

    Hoje na materna, ele tem 3 anos e meio, ele já elabora bem um discurso em italiano, e no português com um pouco de atraso, pois a única que fala com ele sou eu. Ma é muito entusiasmante ver, que as vezes ele esquece e faz perguntas em português aos avós italianos, isto me alegra o coração.
    O papel da escola continua então sendo essencial na informação e na formação de uma sociedade multicultural. Felizmente, a globalização está nos trazendo riquezas, como informação multimedial e web, que faz sim com que os pais também tenham o papel fundamental na construção de valores, na celebração da diversidade e na contribuição em passar informações á sociedade. Onde muitas vezes a escola não consegue chegar, passando informaçãoes precisosas, os pais e sua comunidade podem colaborar e contribuir ao crescimento geral desta instituição.

  23. Como uma professora de português numa escola pública nos E.U.A., eu absolutamente concordo com o fato que a escola tem um papel enorme na aprendizagem das crianças de qualquer maneira, e consequentamente com os pais, não somente nas lições mas na educação da comunidade. Eu até fiquei triste para a mãe, sem apoio, nem literatura para consultar…mas eu também fiquei feliz que hoje em dia há ambos de pesquisas, recursos, e literatura para educar-nos neste assunto tão importante. Eu fui criada numa casa monolingue (inglês) mas sempre amando línguas estrangeiras. Agora eu sou mãe de três filhos bilingues e entendo bem as dificuldades em educar filhos bilingues. A maiorias das pessoas ainda pensam que vem naturalmente, ou sem pensar, mas quem já aprendeu uma língua estrangeira sabe que aprender exige muita força. A pessoa pode morar numa terra estrangeira por muitos anos e nunca aprender comunicar, se quiser. É uma ação ativa, não passiva. Então, é um grande desafio para educar seus filhos sozinho, sem o apoio de uma família, comunidade, escola, ou política que entendem e apoiam na educação bilingue. Aqui em nossa comunidade em M.A., já tentamos oferecer a língua portuguesa como uma opção no High School, mas o programa não sobreviveu mesmo com uma comunidade brasileira crecente. Eu sinceramente creio que mesmo se as escolas apoiam com a educação da língua portuguesa, não é bastante para sobreviver. Sem a contribuição dos pais ou famílias, não é autentica. Porem, como crianças gastam a maioria do dia e semana nas escolas, claro que faz uma grande diferença se puder dedicar uma parte na aprendizagem de português. O fato que a escola oferece a língua portuguesa já confirma a importância na comunidade e na escola. Esta confirmação é essencial e uma enorme benção para imigrantes ou crianças da segunda-geração porque as adolescentes quem são meus alunos, vão receber não somente o reconhecimento de ter capaz de falar a língua portuguesa, mas vão receber o crédito escolar para oficialmente confirmar esse fato. Então eu creio que a escola tem uma grande parte na sobrevivência da língua materna dos meus alunos, mas a escola também tem limites e sem a influência, e paticipação da maior comunidade, perde o significado e o poder de educar.

  24. Eu acho que a escolar tem um papel fundamental em fazer com que a crianca nao se sinta isolada ou a parte no ambiente escolas. A crèche do meu filho teve um papel fundamental neste ultimo ano. Eu moro atualmente em Nova Brunswick, Canada. Esta e a unica provincia bilingue do Canada e acredito por esta razao a mentalidade de ter uma segunda, Terceira lingua e importante para eles, nao para todos mas para a grande maioria desta regiao.
    Meu marido e Belga e eu sou brasileira, tanto eu falo bem frances como ele fala bem portugues, sempre foi muito importante para ambos conhecer a cultura um do outro. Em casa eu so falo portugues e ele so fala frances, mesmo se estamos conversando entre nos, entao nosso filho ja sabe que mamae fala portugues e papa frances. No topo de tudo isso ele vai atualmente em uma crèche em ingles. Em meados de maio do ano passado, ele comecou a ter muitos problemas na escolas, mordia, batia, cuspia, etc. Toda a semana ele estava na sala da diretora devido a mal comportamente, imagina, ele nao tinha nem 3 anos de idade e ja estava assim. Entao meu marido e eu decidimos conversar com a diretora para buscar formas solucoes para evitar este tipo de situacao.
    Ela foi simplesmente barbara, nos apoio em continuarmos a falar nossas linguas maternais em casa nos disse que nosso filho ficava frustado de nao poder se expressas e por isso reagia desta forma, este seria um trabalho em equipe entre nos e a escolar e que deveriamos ser pacientes. Ela nos deu varias dicar de como poderiamos ajudar-lo, por exemplo dar frases para ele como: “Mamae, eu nao gusto disto.” “Mamae, eu prefiro este..” “Mamae, como fala ,… em portugues”.. entre outras dicas, nos disse que ler seria uma excelente ferramenta, lemos a noite para ele, mas comecamos a ler tudo e todo o tempo, assim ele poderia aumentar o seu vocabulario.
    Hoje quase um ano mais depois, ele esta bem melhor e gera melhor suas emocoes, o trabalho da crèche mais o nosso trabalho esta sendo a chave para que ele entenda todas as linguas em volta.
    Mesmo que na regiao aonde moramos nao tenha muitos brasileiros (creio que somos uns 20 no total) a escola entenndeu o quanto e importante para mim e para a vida de uma criancas ter a lingua, a cultura dos pais. ja que nen eu nem meu marido somos daqui. Muito ainda pensam que falamos espanhol no Brasil, por esta e por muitas outras razoes para mim e muito importante que tanto a escola tanto a comunidade, conhecam e vejam o Brasil com outros olhos.

  25. As escolas que possuem crianças de famílias bilíngues devem tirar proveito deste enriquecimento cultural promovendo e dando valores à comunidade que à cerca. A minha filha está na pré-escola e é a única que tem o Português como a língua de herança. Porém a escola possui várias outras famílias que tem como herança outras línguas como o Espanhol, Chinês, Russo e outras. Este estabelecimento diz que valoriza o multilingüismo e manda cartas para os pais pedindo para que os mesmos participem e pede para que divulguem suas experiências com a escola. Ainda não vi nenhuma atividade multi-cultural.
    Ao ler esta iniciativa falei com a direção que eu gostaria muito de preparar uma atividade cultural interativa na classe da minha filha mostrando para os seus coleguinhas em forma de brincadeira um pouquinho da cultura brasileira. A diretora gostou muito, portanto cabe a mim a tomar esta iniciativa de participação e preparação da atividade. Além da minha filha se sentir valorizada com esta divulgação, os seus coleguinhas vão também despertar interesses em outras culturas e línguas. Irei sugerir a criação de um workshop internacional aonde os pais possam expor um pouco mais sobre a sua cultura, como atividades, músicas, comidas, típicas, danças e mais.
    Eu sugiro que escolas como esta e até mesmo escolas monolíngues tenham um departamento voltado exclusivamente para a promoção de culturas e línguas. Esta promoção irá beneficiar todos os indivíduos, até mesmo os que vem de uma única cultura. Assim criamos cidadãos que valorizam e respeitam outras culturas e línguas ampliando seus horizontes, oportunidades e criando um mundo que valoriza e tira proveito das diferenças multi-culturais.

  26. O relato do texto e as ricas contribuições deixadas pelas mães e professoras de diversas partes deste planeta são muito enriquecedoras !

    Sabe-se que depois da casa a escola é o local onde a criança passa grande parte de seu dia e durante grande parte de sua vida .
    Assim me questiono se as escolas estão preparadas para receber alunos estrangeiros e suas famílias?

    Lendo as colocações das colegas e através dessas fica claro que a cultura do país , a maneira que recebem e tratam as comunidades estrangeiras também contribui para a postura das instituições escolares .
    Porém cada escola e principalmente cada professor terá uma postura única e para isto a família tem que realizar o papel de “auxiliar” destes profissionais, mas sabe-se que para isto a família tem que estar engajada , informada e segura que deseja educar seus filhos bilíngues , o que muitas vezes não ocorre.

    Moro no Japão, seria injusto dizer que o governo não apoia as famílias estrangeiras e isto se estende não somente ao âmbito escolar mas as iniciativas voltadas as línguas minoritárias ainda são ações isoladas .

    Sou exemplo disto , leciono aulas de Língua Portuguesa em instituições públicas japonesas No ensino Médio ensino como Língua Estrangeira, meus alunos em grande maioria são jovens japoneses mas o curso foi criado visando os alunos brasileiros que estudam neste colégio.
    No ensino fundamental auxilio famílias estrangeiras ,traduzindo e orientando os pais em relação ao sistema educacional japonês ,inicialmente este era meu trabalho, mas criei o Projeto de Língua materna na escola ,iniciando pelo Português,recebi o apoio da Prefeitura da cidade de Yokohama e tenho lecionado Língua Portuguesa como língua de herança para cerca de 30 das 70 crianças brasileiras deste colégio, cerca de 40 famílias optaram por não ter estas aulas, o que me fez questionar quais seriam os motivos , são vários e me estenderia em descrevê-los mas o principal é a insegurança em relação a educação bilíngue.
    Estas escolas se encontram em uma região onde se concentra um grande número de estrangeiros ,porem em regiões onde a concentração e pequena vive-se outra realidade…

    Para minha infelicidade moro numa região dessas ,geograficamente falando são 6 quilômetros, mas são mundos bem diferentes!
    Seria prático me mudar mas tomei como “missão” internacionalizar minha região e isto se enquadra a escola dos meus filhos!
    Tenho o objetivo que as aulas de Língua Materna,aqui assim chamadas, cheguem até a escola dos meus filhos e de toda criança estrangeira na cidade de Yokohama como um direito ,mesmo que estes sejam minoria .
    Porém noto que é muito difícil quando somos minoria , não somente na manutenção da língua mas principalmente na identidade cultural e estímulo em estudar e viver experiências multiculturais .

    Mas não desanimo por isto estou aqui estudando e aprendendo com vocês !

  27. Por incrível que pareça, ainda existe muita informação errada sobre bilinguismo entre educadores nas escolas de ensino tradicional. O ideal é que as escolas estejam atualizadas em relação aos estudos sobre bilinguismo e às formas de lidar com os alunos bilíngues e, assim, tratem o bilinguismo como uma característica cognitiva (que aliás, pode ser muito positiva para o aprendizado geral). Mas, como a realidade é real e não ideal, o papel da escola é, no mínimo, o de não atrapalhar dando informações erradas ou incompletas. Pode ser, sim, que a “segunda” língua esteja causando algum impacto negativo no desenvolvimento da criança. Mas isso é um sintoma e não um problema, e o tratamento não é necessariamente parar de falar a língua minoritária. Por isso, o papel da comunidade acaba sendo tão importante para as famílias que precisam de suporte informações precisas.

  28. A questão da educação bilíngue pode gerar muitas dúvidas quanto aos seus benefícios. Aprender duas línguas simultaneamente é diferente de aprender mais de um idioma.
    A decisão de uma família pela escolha ou não do bilinguismo na educação de seus filhos envolve várias considerações e exige apoio.
    Por isso, o papel da escola é de grande importância.

    A escola deve disponibilizar informações abrangendo os inúmeros aspectos relacionados ao tema (inclusive necessidades especiais na educação), favorecendo a compreensão da dimensão do ensino bilíngue.

    Mais do que divulgar a importância e as inúmeras vantagens do bilinguismo é essencial abordar e destacar aspectos emocionais, culturais e sociais aí também envolvidos.
    No caso específico da adoção do bilinguismo na educação de crianças integrantes de famílias expatriadas e/ou multiculturais, o papel da escola vai muito além. É preciso enfatizar os impactos sociais e psicológicos causados devido a escolha dos pais na transmissão ou não de uma identidade familiar e cultural através de um idioma. E, aqui, vale explorar as dinâmicas destes grupos de famílias, salientando o papel de pais e parentes próximos para sucesso do bilinguismo.

    A escola que adotar o bilinguismo deverá extrapolar as barreiras da sala de aula e do ensino convencional de idiomas – principalmente no caso do ensino de “línguas de herança”.
    Aprender bem uma língua está muito relacionado ao interesse do aluno por determinadas raízes culturais, à naturalidade como uma língua é ensinada e à percepção e identificação das possibilidades práticas do uso da língua.
    Com isso, promover o ensino de um idioma através da música, culinária, folclore, celebrações típicas, brincadeiras e memórias familiares torna-se fundamental.
    A aquisição, alfabetização e manutenção de um segundo idioma por esse caminho torna-se uma atividade espontânea, prazerosa e, por fim, efetiva.

  29. Muito interessantes os pontos-de-vista citados acima e as experiencias tao diversificadas. Gostei muito da colocacao do Everaldo e do depoimento da Erika e queria acrescentar somente que, na minha opiniao, além da disseminacao do respeito pelo “diferente”, a escola dever ter a delicadeza de incentivar o fortalecimento da relacao entre pais e filhos e isso só pode acontecer, se eles tiverem uma língua afetiva em comum. Sabemos que há muitas maes que nao falam fluentemente a língua do país onde vivem, podendo perder, inclusive, o “acesso” aos filhos, se estes nao se comunicarem em sua língua.

  30. O papel de escola tem que ser o de respeitar e incentivar. Respeitar a diversidade, a cultura e a decisao dos pais e incentivar os mesmos.

    Eu trabalho em uma creche aqui nos Estados Unidos e mais da metade das criancas na nossa sala sao bilingues ou estao no processo de bilinguismo. Temos muitos casos de criancas que nao entendem nem uma palavra de Ingles e nao falam uma palavra em Ingles. No ponto de vista da mae, isso poderia ser uma alegria imensa de ver seu filho falando sua lingua, mas, do ponto de vista da escola e instituicao em si, seria um fato negativo no aprendizado e ate mesmo socialismo da crianca, ja que mais de 90% da sala fala o idioma em questao.

    Ha vezes em que eu e a professora que trabalha comigo ficamos muito nervosas, porque a crianca bilingue tem sim um pouco de dificuldade em aprender o Ingles e parece que ser bilingue prejudica o ensino do mesmo. Ele/a nao entende instrucoes basicas dadas pela professora, nao nos entende e nao consegue se expressar.

    Por outro lado, temos criancas que falam uma segunda lingua e o Ingles sem problemas nenhum e o biliguismo nao interfere de forma alguma na sua formacao como pessoa, como cidadao ou como aluno. Pelo contrario, a crianca fica mais desinibida e sente-se muito confiante ao falar, desenvolve sua postura como falante e como pessoa.

    Sera que o problema esta na crianca? Que por sua vez nao consegue fazer a separacao de ambas linguas? Ou nos pais, que por sua vez querem tanto que seu filho aprenda a lingua de herenca e nao dao chance para a crianca explorar mais a lingua do pais em que vive? Ou sera que a crianca simplesmente nao esta preparada para o bilinguismo ainda?

    Seja qual for o motivo, o papel da escola sempre sera respeitar a decisao dos pais de continuar com o bilinguismo. Muitas vezes a crianca nao esta pronta para tanta informacao e seu cerebro acaba se focando em apenas um. Mas, isso nao significa que falar ou aprender outra lingua esteja prejudicando o ensino da crianca. Se houver mais apoio e incentivo da escola para aprender ambas linguas talvez a cabeca da crianca bilingue nao cresca tao perdida.

  31. Sou professora em uma creche nos EUA e temos muitos casos de bilinguismo na minha sala. De 20 alunos matriculados na minha sala 40% sao filhos de pais bilingues, e 20% sao bilingues ou estao no processo de bilinguismo.

    A escola tem como papel respeitar, auxiliar e incentivar o bilinguismo. Respeitar a decisao dos pais em criar um filho bilingue e auxilar na transicao do processo bilingue. Muitas vezes os professores e a instituicao em si nao estao de acordo com alunos que sabem outra lingua, por que acreditam que o aprendizado de duas linguas para uma crianca pode atrapalhar a mesma no mundo social e educacional, atrasando o aprendizado da crianca.

    O bilinguismo nao esta ligado ao atraso da crianca em aprender a lingua nativa ou a lingua de herenca. Eu mesma confesso que por varias vezes fiquei nervosa com criancas bilingues que nao falam nem uma palavra em ingles e a cada momento que damos instrucoes para eles, os mesmos nao correspondem de maneira alguma. Quando nos deparamos com uma sala cheia de criancas que necessitam ser instruidos acabamos nao tendo muito tempo para instruir passo a passo uma ou duas criancas que por ser saberem outra lingua tem um atraso na lingua materna ( no caso, criancas que tem como lingua materna o ingles e lingua de herenca o portugues ou qualquer outra lingua).

    Mas, sera mesmo que o fato de uma crianca saber outra lingua atrasa ou atrapalha no aprendizado? Não existe até o momento, evidências científicas de que o Bilinguismo pode ocasionar atraso no desenvolvimento da linguagem. Muitas crianças são bilíngues e o desenvolvimento da fala aparece no período em que é esperado mesmo, sem atrasos. Algumas criancas nao tem problemas em falar duas linguas ao mesmo tempo e outras tem. Isso, nao se agrega ao fato da crianca ser bilingue e ao fato do bilinguismo atrasar ou atrapalhar no desenvolvimento da crianca mas sim, no tempo de cada crianca. O pior erro de uma instituicao sera o de aconselhar pais a parar com o ensino da segunda lingua na vida da crianca. A instituicao de ensino tem como papel principal e fundamental respeitar a decisao dos pais e incentivar os mesmo a nao parar. Em algum momento a crianca vai deixar de ter dificuldades e vao se entregar e interagir em ambos mundos. A escola precisa seguir mais o papel de auxiliadora da crianca e manejar o ensino da lingua de perto.

  32. Pingback: Mais PLH em 2017
  33. Comentando a sua citação de Baker, ” de maneira geral, as escolas forçam um monolinguismo a quem tinha tudo para ser bilíngue e celebram o bilinguismo de quem tinha tudo para ser monolíngue”, percebemos como o bilinguismo em determinadas línguas incomoda. Se a criança falasse duas línguas socio e economicamente dominantes, o discurso da escola seria de total apoio, afinal são as línguas que as escolas oferecem. Mas quando se trata de uma língua que não está no repertório da escola, causa estranhamento e distanciamento, o que leva a críticas aos pais. É muito bom ver o relato dessa mãe que não desistiu e conseguiu manter a quarta filha falando a sua língua.

  34. Aqui a nossa opção foi sempre enviar para opções de escolinha bilingue. Atualmente meus filhos tem 2 e 4 anos.
    A creche do meu filho é bilingue (alemão – inglês), mas é frequentada basicamente por alemães. Acredito que a proposta deles é realmente só gerar um primeiro contato com o inglês, sem realmente ser o foco de tornar a criança bilíngue. Já a minha filha, atualmente frequenta a international preschool da região, também alemão-inglês, mas a grande vantagem é que o ambiente é verdadeiramente internacional, inglês como idioma prioritário e com crianças de mais de 12 nacionalidades diferentes – e essa multiculturalidade sempre foi o fator mais importante quando optamos por escolas bilingues (moramos hoje na Alemanha e meus filhos nasceram aqui, são alemães, assim como meu marido). Óbvio que é importante pra gente que eles aprendam o inglês desde cedo, já que é o idioma de comunicação minha com meu marido (apesar de eu também falar alemão e ele, português), mas o fator decisivo é definitivamente o fato de ser multicultural. Em nenhum dos casos eles informam sobre o bilinguismo em si, mas em nenhum momento falariam para gente deixar de falar um idioma ou outro dentro de casa, muito pelo contrário.

    Achei importantíssima a dica da Karen na entrevista: colônia de ferias e das férias longas no Brasil é realmente um grande diferencial e enriquece MUITO! Sempre que nós vamos ao Brasil eu matriculo as crianças em cursos de férias, exatamente para eles terem contato com outras crianças que brincam e cantam em português. E, no futuro, quando as férias no Brasil forem limitadas pelas férias escolares daqui, pretendo continuar fazendo o mesmo, buscando alternativas inclusive em escolas por um tempo. Minha mais velha volta do Brasil sempre com um português mais enriquecido e com pouquíssimo sotaque.

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