Alfabetização: MITOS e VERDADES

Por Felicia Jennings-Winterle, MA e Adriana Corrias

1) Não se deve alfabetizar em duas línguas ao mesmo tempo.
MITO

Os estímulos são fundamentais para os bebês e para as crianças. É através deles que inicia-se a construção da linguagem falada. Na infância, a velocidade de desenvolvimento é maior, o cérebro trabalha com mais intensidade do que em qualquer outra fase da vida. Por isso nesse período é muito mais fácil aprender um outro idioma. Os indivíduos que foram expostos a um segundo idioma, de forma adequada, conseguem mudar rapidamente de foco, apresentam uma capacidade de atenção maior e a fluência verbal é mais desenvolvida, inclusive na língua materna.

Não existe evidência científica de que alfabetizar uma criança em duas línguas ao mesmo tempo não seja benéfico. A capacidade de se compreender e produzir uma língua, de forma falada e escrita, é universal. Quer dizer, crianças na China, no Brasil ou no Zaire nascem com um aparato fisiológico e cognitivo pronto para a aquisição da linguagem, que na verdade se inicia no ventre da mãe. Se houverem alterações nesses aparatos, daí sim, o processo de aquisição de linguagem pode ser um desafio. Assim como é universal a capacidade de aquisição de uma língua, assim o é de duas, três, ou mais. Além disso, essa universalidade prevê que não exista uma língua mais fácil ou mais difícil, se ambas forem aprendidas dentro de um período crítico (de 0 – 7 anos).

2) Alfabetizar em duas línguas confunde e atrasa as crianças.
MITO

Assim como existe um período crítico para a aquisição de uma língua, existe um período crítico para a alfabetização simultânea. Isso não quer dizer que a criança (ou adulto) não possa nunca mais ser alfabetizado em outra língua. Pelo contrário, cada idade e fase de desenvolvimento cognitivo apresenta características diferentes. A idade de alfabetização varia de país para país, mesmo assim, o período de alfabetização de duas línguas (em nosso caso, português e inglês) tem melhores chances de sucesso e de total fluência no processo se forem feitos ao mesmo tempo.Mas a exposição as duas línguas pode ser feita desde o início da aquisição da linguagem oral. A criança mais nova apresenta uma maior facilidade de perceber os sons com mais clareza e maior flexibilidade para articular as palavras.

3) Existe transferência entre as duas línguas.
VERDADE.

Os processos de transferência podem ser incrivelmente positivos nos vários processos de aprendizagem, não só os linguísticos. Em nossa discussão sobre aquisição de linguagem de forma bilíngue, precisamos destacar que transferências podem ser positivas e negativas. Por isso é extremamente importante que cada língua seja falada e escrita de forma pura. Quer dizer, sempre dizer: Filho, pegue sua mochila. Está na hora de ir embora. E não, filho, pegue sua backpack, está na hora de go home.
As transferências positivas podem inclusive reforçar os sistemas de cada língua. Por exemplo, saber que o x em português tem diferentes sons (de s, dez, de ch, e de sc) pode facilitar a compreensão de que em inglês o x também tem diferentes sons (de z e de cs). A compreensão de conceitos básicos da língua materna permitirão uma transposição para outros idiomas.

4) É necessário ter vocabulário em português para ser alfabetizado.
VERDADE

Língua é cultura. Essa deveria ser a maior premissa da educação bilíngue, tanto para pais, quanto para professores. Aprender a falar e a ler/escrever uma língua tem que fazer sentido. Por isso é necessário que se tenha um vocabulário apropriado à idade, e semelhante ao da outra língua em questão, para que o processo de alfabetização seja bem sucedido.

5) Meu filho não precisa ler e escrever para ser bilíngue. Só falar já é bastante.
MITO e VERDADE

O termo bilinguismo tem (de alguma forma) definidas nuances de performance. A idade em que as duas ou três línguas foram aprendidas e em que domínios tais línguas são manifestadas são alguns dos elementos que definem tais nuances. Um indivíduo bilíngue equilibrado, por exemplo, aprendeu as duas ou três línguas na infância, em equilíbrio, como diz o nome, apresenta um vocabulário quantitativamente semelhante e pode ler e escrever. Este indivíduo terá diferenças funcionais significastes dos que só entendem ou/e falam, mas o objetivo da educação bilíngue estabelecida por cada família é o que realmente importa. Se o objetivo da família for relacionado ao mercado de trabalho, por exemplo, só falar português não é o bastante. Se o objetivo da família for mais informal, falar outra língua será sempre uma vantagem.

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Perguntas de nossos fãs no Facebook:
Lea Patricia Mangalpady: Nossos filhos estão crescendo em ambiente trilíngue – português,ingles e kannada. Gostaria de saber se devemos apresentar os alfabetos nas 3 línguas ao mesmo tempo. Se não, em que ordem devemos apresentá-los?

Blog Brasileirinhos: Lea, e demais pais de criancas bilíngues e trilíngues, como mencionado acima, para que a aprendizagem seja equilibrada, as três línguas devem ser apresentadas simultâneamente. Entretanto, os melhores modelos de cada um desses idiomas devem fazê-lo. Você, mãe, brasileira apresenta em português, ao brincar e cultivar a cultura brasileira em casa. Seu marido, ou a escola, apresentam as demais. Lembre-se que por não estar no Brasil, o português sempre estará em desvantagem. A leitura, os filmes, música e televisão em português são sempre grandes ferramentas.Conversar, contar histórias e brincar em português ajudarão na construção da linguagem falada. Se seu filho ainda não está em idade escolar, não apresse-o. Deixe o português prevalecer. Se ele já estiver em idade escolar, daí sim, faça em casa o que ele faz na escola em ingles e kannada, em português. É preciso despertar na criança o desejo de aprender e a melhor maneira de fazer isso é tratar a aprendizagem como se fosse uma brincadeira, sem pressão e cobranças.

Quando erros sao cometidos confundindo as linguas qual é a melhor maneira de fazer a correção? Comparando o portugues a outra lingua ou apenas mostrando a maneira correta em portugues?

Blog Brasileirinhos: Quando esse tipo de situação acontece o melhor é não fixar o erro. De maneira natural, diga a palavra certa em português. Mas seja coerente e constante. Não misture os idiomas.

Camila Novais: uma vez que minha filha será alfabetizada em francês, qual o melhor momento para alfabetizá-la em português?

Blog Brasileirinhos: Como mencionado no artigo, o melhor momento é ao mesmo tempo. Se você quiser mais informações e acesso a um material especialmente preparado para crianças bilíngues, veja aqui um método que você pode usar em casa.

Minha filha também está exposta a 3 idiomas (português pelos pais, inglês e francês) e fico sem saber se ler historinhas nesses 3 idiomas confundirá sua cabeça. Aliás, devo fazer a tradução para o português quando for ler livros nos outros dois idiomas ou devo ler no idioma original do livro?

Blog Brasileirinhos: Somente leia o livro em sua versão original. Se você tiver acesso a livros em português, será mais rico e interessante ler em português. Se você não tiver, traduza o livro em inglês ou francês, mas não logo após ler no idioma original. Cada noite, leia em uma língua, ou leia um livro em cada língua, não o mesmo livro nas três línguas. Melhor ainda, leia em português, e seu marido em sua língua materna. Os fatores mais importante em um lar bilíngue ou trilígue são a coerência, a frequência e a consistência.

Assista Max, um brasileirinho de 5 anos, que está sendo alfabetizado em inglês e português:

ESTE CONTEÚDO É PROTEGIDO POR DIREITOS AUTORAIS. AO COMPARTILHÁ-LO, LEMBRE-SE DE CITAR A FONTE: PLATAFORMA BRASILEIRINHOS, BRASIL EM MENTE.

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8 comentários em “Alfabetização: MITOS e VERDADES

  1. Meu filho de 6 anos nao tem interesse em portugues mesmo eu falando somente portugues com ele. Ele sempre me diz Mae nao gosto que vc fala em portugues (entende perfeitamente mesmo que eu use vocabulario mais dificil, ele responde em ingles.
    Como posso desperta-lo aprender portugues?

    1. Querida Neusa,
      Como mencionado acima, língua é cultura. Mostre a ele coisas que ele goste, em Português. Quem sabe fale sobre futebol, capoeira, conte histórias em português. Procure mostrar filmes de seus personagens favoritos somente em português… Assim como uma plantinha, cultura se cultiva, de pouquinho em pouquinho. Lembre-se que se for importante para você, também será para ele. Mas lembre-se, coerência e frequência são palavras chave nesse processo. Minha maior dica: aos poucos, SÓ FALE PORTUGUÊS COM ELE.

  2. Boa noite.

    Meu nome é Lucilene e moro em Brasília.
    Em dezembro irei com o meu marido (também brasileiro) e com minha filha de 4 anos e meio passar uma temporada de 7 meses em NYC.
    Eu e o meu marido vamos para estudar e depois desse período voltaremos para o Brasil em julho do ano que vem.
    Estou com muita dúvida de como devo proceder com a minha filha.
    Ela ainda não sabe ler e escrever. Está na escola começando a aprender algumas letrinhas, sabe as vogais e escrever o seu nome.
    Ela completará 5 anos em janeiro.
    Eu estava pensando em colocá-la em uma pré-escola americana no período que estivermos em NYC. Mas fico com medo que isso possa atrapalhar a aprendizagem dela em Português e também que fique perdida na escola americana sem saber se comunicar porque não sabe falar inglês. Mas ao mesmo tempo, acho que esse tempo nos EUA poderia ser bom para começar a aprender uma segunda língua.
    O que vocês acham? Devo colocá-la em uma escola americana? Ou devo colocá-la em uma escola brasileira? Ou nas duas?
    Ficaria muito feliz se pudessem me ajudar.
    Obrigada.
    Lucilene Castro

  3. Olá, gostei muito deste artigo pois minha filha tem quatro anos e é bilingue, fala árabe e português, pois nasceu e mora na Palestina, gostaria de iniciar a alfabetizaçao dela em português um pouco antes do árabe, pois o português, como dito no artigo, sempre estará em desvantagem. Pretendo começar sos cinco anos, já que ela iniciará o contato com o alfabeto árabe nesta idade. Você falou sobre material em uma das respostas. Estou interessada em adquiri-lo. Como faço? É gratuito ou pago? Desde já agradeço.

  4. Queridas, perfeita a materia sobre alfabetizacao de criancas bilingues. Moro em Dubai e somos brasileiros. Faco exatamente o que esta descrito e minha filha de 5 anos, le e escreve em ingles e portugues. A parte esta aprendendo Frances e Arabe na escola. Nada de errado e nenhuma confusao na sua cabecinha.

  5. Que bom encontrar espaços em que esses temas são discutidos de forma consistente e responsável! Acho importante apenas alertar para a qualidade da intervenção nesse processo de alfabetização bilíngue. Alfabetizar é muito mais que ensinar o domínio de um código. Se ficarmos nisso, o risco de a leitura não ser fluente é muito grande. Ler com os pais em português, muito e sempre, ditar textos em português para os pais escreverem (recados, bilhetes, narrativas, receitas…), enfim, participar de situações sociais que envolvam leitura e escrita em português, tudo isso é alfabetizar. Envolve o domínio do código, mas vai muito além disso.

  6. Meu marido irá fazer pós-doutorado durante 1 ano na Inglaterra no II semestre de 2016 e minha filha terá 6 anos e meio e ela ainda não foi alfabetizada. Pelo que li, não teria problema ela alfabetizar nas duas línguas, mas seria interessante ela ir com uma pré-alfabetizada em português? Iria facilitar?

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