Desmistificando o bilinguismo

Por Luciana Lessa, PhD
Coluna Falando

Hoje discutiremos, com base em pesquisas recentes sobre o bilinguismo, como a aquisição simultânea de duas línguas pode ser benéfica. Acredito ser interessante iniciarmos essa discussão partindo de um breve comentário presente no vídeo intitulado “Language and Learning”.

Ao longo do vídeo, a entrevistadora questiona se o bilinguismo torna as crianças mais inteligentes. Ellen Bialystok, professora da York University e uma das principais referências nas pesquisas atuais sobre bilinguismo, destaca a importância desse questionamento, dizendo que, 10 anos atrás, a pergunta que seria feita seria:

“O bilinguismo torna as crianças mais burras?”

O comentário de Ellen no vídeo mostra como não é por acaso que muitos pais ainda se sentem inseguros e têm muitas dúvidas sobre expor ou não os seus filhos ao bilinguismo. Durante muito tempo, o bilinguismo foi alvo de críticas negativas e, apenas recentemente, esse cenário vem mudando, com base em resultados positivos de pesquisas com crianças bilíngues.

Tais críticas negativas eram/são geralmente baseadas em:

* preconceito: por exemplo, cidadãos americanos que não querem aceitar a língua falada por imigrantes;

* falta de pesquisas científicas sobre esse tema: resulta no desconhecimento sobre o que de fato ocorre no desenvolvimento de crianças expostas ao bilinguismo;

* dificuldade de adultos monolíngues em aprender uma segunda língua: uma vez que temos dificuldades no aprendizado de uma segunda língua, acabamos por adquirir uma insegurança sobre o que pode acontecer com nossos filhos se forem educados num ambiente bilíngue. Acreditamos, com base em nossas duras experiências de aprendizado de uma segunda língua, que as crianças ficarão confusas em adquirir duas línguas ao mesmo tempo.

É muito importante que consigamos compreender que o processo de aquisição de línguas pelo qual passam as crianças expostas ao bilinguismo é muito distinto do processo de aprendizado pelo qual passam os adultos monolíngues aprendendo uma segunda língua.

 

Quando adultos têm que aprender uma segunda língua, é inevitável que eles se baseiem em sua língua materna ao longo desse aprendizado. Esse não é um processo fácil, uma vez que as transferências que fazemos da língua materna para a língua em aprendizado muitas vezes não são adequadas.As crianças que adquirem duas línguas simultaneamente não apresentam tais dificuldades.

O processo pelo qual elas passam é muito diferente de nós, adultos, aprendendo uma segunda língua.

Crianças em processo de aquisição bilíngue nem sequer sabem, em um primeiro momento, que estão em contato com duas línguas. Para elas, é como se ouvissem e falassem determinadas palavras em um contexto de comunicação, e, em outro contexto de comunicação, são outras palavras que são ouvidas e faladas. Elas não têm a consciência de que se trata de duas línguas distintas, por isso, no caso dos brasileirinhos que vivem nos EUA, algumas vezes elas podem usar palavras do português em momentos que estão falando inglês ou vice-versa.

Deve-se ter em mente, no entanto, de que essas eventuais “trocas” são normais pelo fato de a criança não separar as duas línguas conscientemente. Nesses momentos, o adulto pode retomar a fala da criança, usando as palavras apenas no idioma adequado àquela situação de comunicação. Aos poucos, a criança vai conseguindo diferenciar com maior clareza as duas línguas e a escolher qual língua deve ser falada dependendo do contexto social de comunicação.

A seguir, trazemos alguns resultados de pesquisas que investigaram diferentes efeitos do bilinguismo no desenvolvimento de crianças:

Quanto ao vocabulário
Pesquisas apontam que crianças bilíngues tendem a ter um vocabulário menor em cada um dos idiomas do que crianças monolíngues em seu próprio idioma. Entretanto, esse não deve ser um fator preocupante, sendo essa uma pequena desvantagem facilmente superada, uma vez que sua compreensão da estrutura linguística, chamada de consciência metalinguística, é tão boa e muitas vezes melhor do que a de crianças monolíngues (BIALYSTOK, 2011).

Além disso, crianças bilíngues desenvolvem o vocabulário das duas línguas de modo adequado às situações de comunicação, o que, em termos qualitativos do uso de cada uma das línguas, é um imenso ganho.
Crianças bilíngues não apresentam dificuldades quanto a regras como essa, uma vez que a aquisição de seu vocabulário, nas duas línguas, sempre foi baseada em situações de comunicação reais e contextualizadas, ou seja, o processo de aquisição de duas línguas, diferentemente do aprendizado de uma segunda língua, faz com que as crianças saibam “naturalmente” usar as palavras adequadas ao contexto comunicativo.

No próximo post discutiremos o desenvolvimento bilíngue em relação à percepção e à produção de sons, aspectos cognitivos e culturais e quanto à afetividade.

 

Luciana Lessa é Doutora em Linguística, é parte do corpo docente da Georgia State University e participa de importantes grupos de discussão sobre a aquisição da linguagem falada e escrita. É autora da coluna Falando na Plataforma Brasileirinhos e diretora do grupo de discussão e formação de professores da Brasil em Mente.
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5 comentários em “Desmistificando o bilinguismo

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