Desmistificando o bilingismo (Parte 2)

Por Luciana Lessa, PhD
Coluna Falando

No post anterior começamos a discutir o bilinguismo, trazendo alguns resultados de pesquisas que investigaram diferentes efeitos do bilinguismo no desenvolvimento de crianças. Continuamos aquela discussão quanto à percepção e produção de sons, quanto aos aspectos cognitivos, quanto a valores culturais e quanto a afetividade, e claro, quanto ao futuro.

Quanto à percepção e à produção de sons

Segundo Bates (2003), as crianças nascem com habilidade para ouvir e produzir todos os sons da fala usados em qualquer língua. Isso vai mudando progressivamente no sentido de que a criança vai perdendo a habilidade de perceber e produzir sons considerados irrelevantes para o sistema de sons de sua língua nativa.

Para ficar mais claro, basta lembrar a dificuldade que temos, enquanto adultos falantes do Português Brasileiro, em perceber como se dá a produção de muitos sons do Inglês Americano. Como nos baseamos em nossa língua materna para aprender uma segunda língua, ao ouvirmos uma palavra como “thank you”, percebemos o som “th” (som que não existe no Português Brasileiro) ou como “f” (“fank you”) ou como “t” (“tank you”), sendo que “th” na verdade não é nem “f” nem “t”, mas um som que fica “no meio do caminho” entre o “f” e o “t” (sons que existem no Português Brasileiro). Por isso, algumas pessoas falam “fank you” enquanto outras falam “tank you”.

Existem muitos exemplos desse tipo de confusão na percepção de sons de uma língua estrangeira, ou até mesmo de nossa dificuldade de produzir sons que não fazem parte do sistema de nossa língua nativa, como é o caso de muitas vogais do Inglês. Essas nossas restrições, enquanto adultos monolíngues aprendendo uma língua estrangeira, é que nos confere, no caso, um sotaque “brasileiro” ao falarmos inglês.

Mais uma vez, destacamos a importância de oferecer um ambiente bilíngue às crianças o mais cedo possível. Bosch e Sebastian-Galles (1997) afirmam que a facilidade da criança em adquirir com maior ou menor eficiência o sistema de sons de duas línguas diferentes é relacionada à precocidade em que ela é exposta a cada uma dessas línguas. As crianças em processo de aquisição da linguagem têm uma capacidade de percepção e produção de sons mais aberta, já que elas ainda não têm a influência de um único sistema de sons já formado, como nós adultos educados em ambiente monolíngue.

Quanto a aspectos cognitivos

As pesquisas de Bialystok vêm mostrando vários resultados de como crianças bilíngues apresentam maior facilidade em algumas habilidades cognitivas, tais como:

* executar tarefas simultâneas;

* solucionar problemas que requerem controle da atenção a aspectos específicos da formulação e, ao mesmo tempo, inibição da atenção a aspectos enganadores;

* formação de categorias conceituais;

* visualização de imagens alternativas em figuras ambíguas;

* compreensão de diferenças entre a aparência e a realidade de um objeto enganoso. (BIALYSTOK, 2011)

Recentemente, Bialystok descobriu que pessoas bilíngues podem estar mais protegidas contra o declínio cognitivo e contra demências, como o Mal de Alzheimer. Segundo a pesquisadora, a experiência na gestão de duas línguas garante um melhor desempenho cognitivo ao longo da vida.

Quanto a valores culturais

Quando uma criança aprende duas línguas, ela não aprende apenas seu funcionamento linguístico, mas também, todo um conjunto de regras sociais e culturais que está atrelado às línguas em aquisição.

Esse frequente contato com modos diferentes de agir, pensar, se comunicar, etc, possibilita que a criança bilíngue tenha um conhecimento de mundo mais ampliado, o que contribui para o desenvolvimento de um indivíduo mais tolerante, flexível, e que valoriza a diversidade de povos, ideias e comportamentos.

Quanto à independência e afetividade

Uma criança educada num ambiente bilíngue será mais independente numa possível viagem ao Brasil, como é o caso dos Brasileirinhos. Essa independência favorece, por meio de situações de interação e comunicação, que a criança crie laços afetivos importantes com seus avós, tios e primos brasileiros, por exemplo.

De modo geral, ela conseguirá se comunicar de modo mais independente, seja para escolher o que quer comer em restaurantes, seja para brincar com outras crianças, ou tantas outras atividades que envolvem o uso da língua, fazendo com que a criança aprecie e aproveite muito mais sua visita ao Brasil.

Quanto ao futuro

É cada vez mais notável que o domínio de mais de uma língua abre portas no mercado de trabalho. De acordo com Moura (2009), a globalização econômica, que inclui a expansão da tecnologia da comunicação, o aumento dos fluxos migratórios, a circulação de mercadorias, a transformação das relações de trabalho, dentre outros fatores, tem forte impacto sobre as questões de uso das línguas.

Para finalizar

Após um longo período em que o bilinguismo foi considerado negativo, muitas pesquisas começaram a surgir com o intuito de levantar a bandeira a favor do bilinguismo. Atualmente, as pesquisas têm sido mais equilibradas, levantando aspectos nos quais crianças bilíngues são superiores e aspectos nos quais o bilinguismo não tem efeitos sobre o desenvolvimento (BIALYSTOK, 2011).

De todo modo, é importante destacar que mesmo que não se comprovem grandes vantagens do bilinguismo, o simples fato de os resultados das pesquisas mostrarem que não há desvantagem para os bilíngues já é motivo mais que suficiente para derrubar argumentos usados anteriormente, baseados na crença de que o bilinguismo poderia confundir as crianças e ser prejudicial para seu desenvolvimento.

Acreditamos que pais e mães de Brasileirinhos, quer possuam diferentes línguas nativas (pai americano e mãe brasileira, ou vice-versa), quer possuam a mesma língua nativa, mas que moram em um país que fala outra língua (pais brasileiros morando nos EUA), têm um grande potencial em mãos e devem colocá-lo em uso. As vantagens para seus Brasileirinhos são inúmeras!

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Luciana Lessa é Doutora em Linguística, é parte do corpo docente da Georgia State University e participa de importantes grupos de discussão sobre a aquisição da linguagem falada e escrita. É autora da coluna Falando na Plataforma Brasileirinhos e diretora do grupo de discussão e formação de professores da Brasil em Mente.

ESTE CONTEÚDO É PROTEGIDO POR DIREITOS AUTORAIS. AO COMPARTILHÁ-LO, LEMBRE-SE DE CITAR A FONTE: PLATAFORMA BRASILEIRINHOS, BRASIL EM MENTE.

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2 comentários em “Desmistificando o bilingismo (Parte 2)

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