Bilinguismo, o dilema diário

Por Andrea Abrahamson
Coluna Perfil e Opinião

– Max, por favor apaga a televisão meu amor? Já chega por hoje.
– Nooooo. But moooom it just started a new show and I didn’t watch enough TV today.
– O que? Não entendi.  Diz em português por favor?
– Mamãe posso ver TV… just mais um pouquinho, só um pouquinho pleasseee?

Cada vez que eu falo português com os meus filhos (e eu tento só falar português) e eles respondem em ingles, sinto uma tristezinha lá no fundo peito. Aí me pergunto: digo que não entendi e peço para repetir em português ou deixo passar em inglês mesmo para seguir o papo?

Eis o meu dilema diário do bilinguismo.

Parte minha acha que eu deveria insistir mais e outra sente que a insistência está interferindo na minha comunicação com os meus filhos de 3 e 6 anos, agora que já são capazes de se expressar em frases completas (em inglês). As interrupções não permitem que as nossas conversas fluam, impedem que a gente compartilhe informações e até mesmo grandes emoções. Entre pedir para repetir, traduzir e corrigir vai o entusiasmo da criança de contar algo que naquele momento era muito importante para ela. E eu perco a oportunidade de receber e ensinar algo, de dar um elogio ou uma boa gargalhada com eles.

Oliver (3) participando da turma Ararinhas

Meus filhos nasceram em NYC e agora moramos em Miami. Eu sempre tive babá brasileira e os dois estudaram português na Ciranda Cirandinhas. O meu filho de 6 anos foi alfabetizado enquanto estava no pré-primário. Porém meu marido é sul-africano e o inglês predomina na minha casa. Minha atual estratégia é dar prêmios para que falem somente português quando estivermos sozinhos ou em casa e ter um horário semanal para estudar – estou explorando opções de materiais para dar as aulas em casa. Fora isso me resta dar oportunidades para que pratiquem através da leitura, desenhos animados no You Tube, convívio com familiares e amigos, etc.

Max (6) e Andrea participando do programa de alfabetização Canarinhos.

Enfim, o bilinguismo é uma batalha constante. E a persistência é a chave do potencial sucesso. Tem épocas que me dou por vencida e falida. Mas de repente eles vem com umas tiradas (Mamãe veja este cachorrinho, ele não é muito fofinho?) e aí me dou conta que eles estão absorvendo algo o que me dá incentivo para continuar. Estou ciente de que eventualmente poderão optar 100%  pelo inglês. Porém se eu não seguir tentando sei que me arrependerei, pois não tá morto quem peleia.

Isso é maternidade. Nós damos asas aos filhos e, hoje em dia, até aulas particulares de vôo. Cabe a eles voarem em busca dos seus destinos – seja bilingue ou não. E cabe a nós aceitar e respeitar as suas eventuais escolhas.

NOSSO CONTEÚDO É PROTEGIDO POR DIREITOS AUTORAIS. AO COMPARTILHÁ-LO, LEMBRE-SE DE CITAR A FONTE: PLATAFORMA BRASILEIRINHOS, BRASIL EM MENTE.

5 comentários em “Bilinguismo, o dilema diário

  1. Vou deixar minha experiência. Moro no Canadá há 12 anos, meus filhos de 6 e 2 anos nasceram aqui. Meu marido não é canandense, fala com as crianças no idioma dele (servo-croata). Eu sempre, sempre, só falo com eles em português. Na frente do pai, dos amigos, de quem for. Se eu tiver que me dirigir à outra pessoa na conversa, aí eu falo em inglês. O pai tem a mesma estratégia e, como ele não fala português nem eu falo servo-croata, falamos um com o outro em inglês. E as crianças falam conosco assim também.

    Meu filho mais velho nunca frequentou aulas em português. TEmos livros em português (muitos), videos e CDs, para ampliar o vocabulário. Quando vamos ao Brasil, ele frequenta colônia de férias e nem mesmo os adultos reparam que ele não é nascido e criado no Brasil.

    Acho que um erro muito comum (e que só vejo entre imigrantes brasileiros e chineses) é preocupar-se em falar em inglês na frente de estranhos. Nunca fiz isso. Na escola do meu filho, no meio das outras crianças, ele se dirige a mim em português e aos amigos em inglês.

    A língua materna é muito mais que uma forma de comunicação. Uma vez que se estabelece a língua do relacionamento, fica difícil de mudar. A criança fica sem parâmetro se a mãe dá uma bronca em inglês para que os amigos do parquinho compreendam (a bronca é pra quem?). E um hábito bem ruim e bem comum é o de misturar os idiomas “Fulaninho, você quer chicken? Está yummy”.

    Eu sei que meus filhos não vão optar 100% pelo inglês, porque o mais velho tem muito orgulho de falar português e já estabelecemos que nossa comunicação dá-se neste idioma. E só nele. E ele fala português com a irmãzinha.

    Não desista. Persista. Insista. Não pergunte “como se diz isso em português?”, mas repita a frase toda em português. Filhote diz “meu sorvete está dripping” e eu pergunto “seu sorvete está PINGANDO”?”, ele repete automaticamente, “sim, meu sorvete está pingando”. Se a gente pergunta, fica parecendo um teste. Eles podem misturar os idiomas se o vocabulário falta no momento. Os adultos não devem fazer isso.

    1. Flávia,
      Obrigada por dividir sua experiência no blog. Tenho certeza que muitos pais poderão lembrar-se dela em momentos desafiantes.
      Um abraço

    2. meu marido e americano. na nossa casa sempre se fala o portugues e o ingles. meu filho de 5 anos fala os 2 idiomas fluentemente pq eu sempre so falei com ele em portugues. meus pais mandam todos os filmes, desenhos do brasil pra gente assistir em portugues. as vezes durante as visitas a meus sogros meu marido ficava bravo e dizia que nao eram boas manners ficar falando com meu filho em portugues. eu sempre fui muito clara quanto a isso: ele esta aprendendo e ele tem que entender que a minha lingua e cultura sao importantes e que se eu nao for consistente ele nao vai falar em potugues comigo. uma vez eu vi uma mae brasileira no parque com seu filho e ele entendia o que ela dizia em portugues mas so respondia em ingles…triste. ingles aqui nos eua ele fala o tempo todo, pois entao eu so falo em portugues. viva o portugues!

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