Espanha: multilíngue naturalmente

Por Felicia Jennings-Winterle
Coluna Pelo Mundo

O mês de Outubro de 2012 dá início à coluna Pelo no Mundo. Um espaço dedicado a apresentar o trabalho de diversas organizações ao redor do mundo, que desenvolvem, incentivam e mantém a língua e cultura do Brasil entre os filhos de brasileiros. Dos vizinhos canadenses, até o outro lado do mundo, na Austrália, você verá que existem organizações preocupadas que essa e as próximas gerações de brasileirinhos e brasileirinhas tenham acesso à língua e cultura do Brasil.
Iniciamos essa viagem ao mundo pela Espanha.

spain_640Como já sabemos, na Espanha se fala o espanhol. Mas na Catalunha, (comunidade autônoma no nordeste do país) a língua oficial é o catalão – uma língua românica, assim como o português, o francês ou o espanhol, derivada do latim vulgar. É lá que a APBC (Associação de Pais de Brasileirinhos da Catalunha) promove não só o português, mas o multilinguismo. É, porque na Catalunha já se é bilíngue por natureza.

A associação, criada em 2010, é uma iniciativa pioneira na Espanha, fruto do esforço voluntário de pais e mães associados. Atua em duas frentes: com aulas semanais de português para crianças de 2 a 12 anos, e da promoção de atividades de lazer e cultura. Entrevistamos Andreia Moroni e Anna Ly, duas incentivadoras da língua portuguesa para crianças, e descobrimos que Barcelona é uma cidade que borbulha em cultura, e que, por esse motivo, o bilinguismo é uma questão bem natural.

A tônica geral em Barcelona é de multiculturalismo, de diferentes referências culturais que convivem paralelamente – e aqui, a cultura brasileira é só uma entre muitas”, diz Andreia Moroni, uma das fundadoras da APBC. Pesquisadora da área de linguística aplicada, ela estuda atualmente no Brasil sobre a aprendizagem do português como língua de herança.

Barcelona já é bilíngue por natureza, e nesse contexto, falar uma língua diferente da do seu interlocutor é algo muito natural, situação que acredito ser diferente dos Estados Unidos, por exemplo.

Andreia nos ensina que para os catalães, o idioma é um pilar de identidade fundamental e que para eles é importatíssimo preservar e transmitir o seu idioma e origem. As aulas na Catalunha, idealizadas por Andreia Moroni e outros pais, são centradas no calendário de festas brasileiras, apresentando também noções sobre a história do país, oportunizando o contato com livros e com manifestações da cultura popular. Tem um custo bem reduzido para os pais, e seus grupos se encontram uma vez por semana, às sextas-feiras e aos sábados. No ano passado, o Ministério das Relações Exteriores apoiou financeiramente o projeto e as aulas se tornaram gratuitas, só restando aos pais a taxa de material.

Anna Ly, professora de música que estudou na UFMG, é autora do livro “Desenrolando a língua – origens e histórias da língua portuguesa falada no Brasil”, publicado pela Autêntica Editora e finalista do Prêmio Jabuti 2012 na categoria didáticos e paradidáticos. Ela desenvolve um outro projeto. Semanalmente dá aulas de musicalização num espaço já cheio de cultura por si próprio, La Biblio Musicineteca, e cedido por seu dono, um incentivador cultural.

Desenrolando a língua, finalista do prêmio Jabuti de 2012.

Anna Ly nos conta que atua como facilitadora das descobertas de crianças de 3 – 5 anos, visando seu desenvolvimento integral.

Conto histórias, utilizo parlendas, trava-línguas, apresento brincadeiras e personagens da cultura brasileira e outras culturas. Toco, canto e brinco descontraidamente com elas, sempre tentando enfocar a música e a língua portuguesa como fios condutores. Ao mesmo tempo dialogamos e interagimos com todas as artes audiovisuais: artes plásticas, teatro, dança, literatura. Na cabeça da criança não há divisão entre as linguagens e expressões artísticas”.

Quando perguntada sobre o nível de compreensão linguística das crianças, Anna Ly conta que “todas compreendem o português, mas quanto à fala, cada uma desenvolve no seu ritmo, o que depende também da facilidade ou dificuldade fonética, dos estímulos recebidos em casa ou em outros lugares e do contato mais direto com o Brasil”.

Em sua metodologia, Anna Ly não exige um ambiente só em português. “Quando as crianças dizem algo errado em português ou falam em castelhano ou catalão, eu repito o que disseram em um português bem articulado. Tive outros alunos que não eram filhos de brasileiros nem de portugueses e assim não entendiam nem falavam português, mas gostavam do ambiente da aula “brasileira”. Há um gestual brasileiro, uma corporeidade na nossa maneira de ser”.

Com tantas semelhanças ao trabalho que desenvolvemos nos Estados Unidos, foi curioso entender a questão do interesse e comprometimento dos pais. Andreia Moroni nos conta que:

Os cônjuges catalães parecem achar bastante natural que o cônjuge brasileiro preserve e transmita seu idioma ao filho e muitos têm uma atitude bastante positiva em relação ao Brasil e à nossa cultura. Acho que o fato de o português ser uma língua próxima do catalão e do espanhol ajuda, pois meio que sempre dá para acompanhar a conversa (opinião de mãe e de pesquisadora).

Encontros da APBC com os brasileirinhos

Como pesquisadora, eu achava que num ambiente multilíngue era mais difícil você preservar uma língua minoritária, pois ela teria que disputar espaço com as demais. Hoje, pelo que tenho observado, penso diferente: acho que um ambiente multilíngue favorece a existência e uso de várias línguas muito mais que um ambiente monolíngue. Um ambiente monolíngue é mais opressor, acaba impelindo todo o entorno a só usar a dominante, e o valor das não-dominantes nesse contexto é menor que em um ambiente de pluralidade linguística. Mas ainda não comprovei isso cientificamente, é só uma hipótese!”

Em nossa viagem ao mundo dos brasileirinhos veremos que na maioria dos casos, as organizações realizam trabalhos com uma característica informal, na forma de um encontro semanal ou em festividades brasileiras.

Mas será que isso é o bastante?

Andreia responde, “o importante é que estes espaços de convivência sejam criados e estejam sempre abertos a receber simpatizantes em quaisquer circunstâncias. E há interesse. Os encontros sempre têm bastante gente e as aulas, que começaram com 1 turma, agora têm 3.

Você não pode perder nossa próxima parada – México!

 

Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.
© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

Um comentário em “Espanha: multilíngue naturalmente

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s