Austrália: O ABCD dos brasileirinhos

Por Felicia Jennings-Winterle
Coluna Pelo Mundo

auPode parecer para algumas pessoas que é fácil criar um serviço de ensino e manutenção do português para crianças. Por isso, todo mundo acha que pode fazer. Porém, somente um trabalho com dedicação, de quem acredita no que faz, construído dia a dia, com espírito de formiguinha e sem desanimar, deixando de lado a preocupação empresarial, é que sobrevive.

Ao contrário do que uma das minhas músicas favoritas diz, ABC, is easy as 1, 2, 3, as simple as do, re, mi… O ABCD dos brasilieirinhos (assim como o 1, 2, 3 e o do, ré, mi) é super complexo.

Foi do desejo de duas mães brasileiras, Lia Timson e Karin Alfonso, que resolveram formar um “playgroup” brasileiro, que nasceu a ABCD (Association for Brazilian Bilingual Children’s Development). O principal objetivo da organização é auxiliar famílias australianas-brasileiras, e famílias que falam português, a vencer os desafios de uma educação bilíngue na Austrália. O trabalho da ABCD, fundada em Manly, NSW, é de caráter voluntário, e recebe o status de not-for-profit.

Página inicial do site da abcd.org.au

“O playgroup foi sucesso total! Mas, as crianças foram crescendo e surgiu a necessidade de montar aulas de português para as que estavam indo para a escola e consequentemente não iriam mais participar do playgroup (0 a 5 anos). A primeira turma foi formada com somente 4 alunos. Atualmente temos 53 alunos entre a idade de 5 a 12 anos de idade frequentando aulas de português”, conta Mônica Croll, tesoureira da organização.

“Tentamos buscar sempre novas alternativas de ensinar o português e incentivar a cultura brasileira para os nossos Braussies! A palavra “Braussie” foi criado pela ABCD e significa ‘Brasileiros e Aussies’. Just like our children”!

Brasileirinhos cantando o hino nacional.

Muita coisa mudou desde o trabalho que Timson e Alfonso criaram há 13 anos. A ABCD conta com um grupo de conselheiros que são profissionais das áreas de educação, psicologia e linguística, assim como representantes da comunidade brasileira na Austrália. Os alunos aprendem português de forma lúdica, através da leitura, música, teatro, dança, arte, jogos e outras atividades.

Hoje, a ABCD tem diversos programas. O Playescola (para crianças de 0 – 5 anos) com encontros quinzenais, a escola bilíngue (para crianças de 5 – 12 anos) com aulas semanais e as festividades. Também oferece aulas semanais de dança (samba, axé, frevo) e colônia de ferias (para crianças de 5 a 12 anos, 4 vezes por ano).

Monica Croll no centro com sua filha em uma apresentação de dança que os brasileirinhos da ABCD participaram.

Além destes programas, que são desenvolvidos em espaços de escolas públicas em 4 localidades diferentes, a ABCD tem a única biblioteca infantil brasileira da Austrália, que possui mais de 1000 ítens entre livros, videos, CD-Roms e jogos para crianças de 0 à adolescentes. O acervo foi obtido através de doações da comunidade e do consulado de Sydney, além de compras do comitê responsável.

Perguntamos à Croll, como a ABCD avalia o comprometimento dos pais, e da comunidade brasileira como um todo, em relação à escola e ao português como língua de herança.
“De uma forma geral, os pais incentivam o bilinguismo, falam o português dentro de casa e são comprometidos ao programa de ensino de sete anos que a ABCD oferece”.

“Há um tempo atrás, alguns pais ficavam satisfeitos se os filhos tivessem um nível de português suficiente para conversar com os avós, tios e primos no Brasil. Atualmente, com a ascensão da economia brasileira, os pais já começam a entender que o Brasil é um pais de futuro e ressalvam a importância que os seus filhos tenham uma boa fluência tanto na escrita como na oralidade da língua portuguesa”.

Mas o mais interessante foi saber qual é o envolvimento do governo brasileiro e do governo australiano nas iniciativas da ABCD. Croll nos conta algo surpreendente,

“O apoio do governo brasileiro é através do Consulado do Brasil em Sydney. Durante os 12 anos de existência da ABCD, o consulado ajudou umas três vezes através de verbas específicas para a promoção da cultura brasileira. A ABCD recebe uma verba do governo australiano anualmente, baseada no número de alunos matriculados no início do ano escolar. Esta verba é chamada “Per capita Grant” e é promovida/monitorada pelo DEC – Department of Education and Communities”.

Humm, 12 x 3, você deve estar pensando.
Mas o mais importante é que o número da esquerda é maior, graças ao esforto incansável de formiguinhas. Formiguinhas que por vezes precisam trabalhar em diferentes formigueiros, de longe, mas com o mesmo objetivo. Croll nos diz,

“Eu acredito que o maior desafio da ABCD é a descentralização. Por falta de recursos financeiros, a ABCD ainda não dispõe de um escritório, no qual as tarefas administrativas e financeiras possam ser executadas, além das 4 localidades de ensino.
Tentamos administrar este desafio, através de mães coordenadoras. Essas mães fazem a intermediação entre o comitê da ABCD, Pais/Alunos e professores. Através dos voluntários que fazem parte do Comitê da ABCD, nós vamos distribuindo as tarefas e vamos superando a dispersão dos materiais, pastas, documentos, etc. Graças à tecnologia,  fazemos o uso de ferramentas como o Google documents, Skype, emails, etc”.

ATUALIZAÇÃO (Maio, 2015): A ABCD foi premiada na categoria iniciativa pelo Prêmio PLH 2015, entregue durante a II Conferência sobre o Ensino, Promoção e Manutenção do Português como Língua de Herança, em NY.

 

Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.
© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

5 comentários em “Austrália: O ABCD dos brasileirinhos

  1. Boa noite, quero saber como faço para falar com Mônica Croll ou uma outra pessoa que possa dar mais informações sobre o programa Austrália: O abcd dos brasileirinhos

  2. Li sobre o Programa Austrália: O ABCD dos Brasileirinhos, e fiquei impressionada sobre a proposta do mesmo, de manter a Língua Materna Brasileira.

  3. Estou me programando para ir para Australia e os meus filhos de 7 e 11 anos nao conhecem a lingua inglesa. Gostaria de orientacoes quanto as escolas em Brisbane que possam fazer essse acolhimento com as adaptacoes necessarias

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