Sociedades bilíngues

Por Luciana Lessa, PhD
Coluna Falando

Aproveitando que nosso tema atual tem girado em torno da série Brasileirinhos no Mundo, vamos falar sobre a ampla existência de sociedades bilíngues e sobre como tais grupos sociais são benéficos para o desenvolvimento de crianças, no sentido de que, na base de suas práticas, encontra-se a valorização da diversidade sociocultural.

Muitas pessoas, geralmente aquelas provenientes de culturas monolíngues, vêem o bilinguismo como algo incomum; entretanto, quase metade da população mundial fala mais de uma língua (GROSJEAN, 1982). Segundo Cenoz e Genesee (2001), pode-se inferir que existam tantas ou mais crianças sendo educadas em ambientes bilíngues do que monolíngues.

Para exemplificar como aquilo que acreditamos ser o “normal” ou o “comum” sempre depende de nossas histórias particulares, lembro-me do estranhamento de uma criança de 6 anos de idade, trilíngue (a família mora no Brasil, sendo a mãe falante de espanhol e português, e o pai falante de russo e português) ao saber que, na minha família, todas as pessoas falavam português. Ele queria saber que língua meu pai e minha mãe falavam e, quando respondi que ambos falavam português, ele achou esquisito e demorou um tempo para acreditar em mim. Para ele, o comum era a diversidade com que ele estava habituado.

A crença de que o monolinguismo seja o “natural” no processo de aquisição de linguagem vem sendo cada vez mais repensada, tanto pela quantidade de sociedades bilíngues existentes atualmente quanto pelos benefícios que o bilinguismo traz para a vida de indivíduos bilíngues. Tais benefícios foram abordados anteriormente em nosso post Desmistificando o Bilinguismo. Hoje, gostaríamos de dar destaque às vantagens do bilinguismo no desenvolvimento de uma maior consciência a respeito de variedades socioculturais.

Nossa opinião se baseia na ideia de que ser bilíngue não é apenas saber se comunicar em mais de uma língua; ser bilíngue implica em conhecer, desde criança, diferentes modos de pensar, de agir, de se comportar, de interagir com outras pessoas. A aquisição simultânea de duas línguas traz junto todo um conjunto de valores e regras sociais que estão enraizados nas línguas em aquisição. Uma criança que se desenvolve em um ambiente em que a diversidade é a norma é muito favorecida, pois aprende a se interessar, a respeitar, ou, melhor ainda, a apreciar diferentes variedades socioculturais.

Algumas pessoas defendem que o bilinguismo não seja adequado, pois os indivíduos de uma nação devem falar a mesma língua. Elas se baseiam no argumento de que o uso de apenas uma língua une as pessoas e que o uso de mais línguas seria uma ameaça à ideia de “unidade/identidade nacional”. Entretanto, devemos questionar se tal “unidade/identidade nacional” é de fato possível mesmo entre falantes da mesma língua, afinal, diversidade de opiniões e pontos de vista sempre existirá independente da língua que as pessoas usam.

Se a intenção é unir as pessoas, parece ser um equívoco pensar que o caminho seja a homogeneização. Por essa via, sempre haverá um lado opressor e um (provavelmente mais de um) oprimido(s); afinal, qual seria o normal que deve ser exaltado para se chegar a uma “unidade nacional”? Pode-se dizer que já sabemos que isso não combina com a ideia de união. Ao contrário, pensamos que o caminho para unir pessoas esteja no reconhecimento e valorização da diversidade, sem discriminação de ideias, atitudes ou línguas. Desse modo, é possível que pessoas de diferentes origens consigam se comunicar e se respeitar. É justamente esse ideal que está na base do bilinguismo (ou multilinguismo), afinal, falar mais de uma língua traz o potencial de agregar diferentes línguas e culturas.

Gostaríamos, assim, de reforçar como o bilinguismo pode ser encarado como uma das normas do processo de aquisição de linguagem, ao contrário de pensarmos apenas no monolinguismo como a norma, e, consequentemente, no bilinguismo ou multilinguismo como incomuns. Já sabemos que a aquisição simultânea de duas ou mais línguas é muito benéfica para o desenvolvimento das crianças em variados aspectos. Agora, estamos descobrindo como ela vem se tornando cada vez mais comum em muitas sociedades, sendo considerada como o processo “normal” de aquisição de linguagem de suas crianças. Ficamos felizes em ver como os pais dos brasileirinhos tem todo esse potencial facilmente disponível para seus filhos, e esperançosos de que esse potencial seja carinhosamente considerado e aproveitado!

Referências Bibliográficas

Cenoz, J.; Genesee, F (eds.). Trends In Bilingual Acquisition Research. International Association for the Study of Child Language, 2001.

Grosjean, F. Life with two languages: An introduction to bilingualism, Cambridge, Mass: Harvard Univ. Press, 1982.

Luciana Lessa é Doutora em Linguística, é parte do corpo docente da Georgia State University e participa de importantes grupos de discussão sobre a aquisição da linguagem falada e escrita. É autora da coluna Falando na Plataforma Brasileirinhos e diretora do grupo de discussão e formação de professores da Brasil em Mente.

NOSSO CONTEÚDO É PROTEGIDO POR DIREITOS AUTORAIS. AO COMPARTILHÁ-LO, LEMBRE-SE DE CITAR A FONTE: PLATAFORMA BRASILEIRINHOS, BRASIL EM MENTE.

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