Escócia – sem medo de errar

Por Felicia Jennings-Winterle
Coluna Pelo Mundo

Tem sido impressionante notar quantas semelhanças existem entre os trabalhos das organizações que estamos destacando na coluna Pelo Mundo. Os desejos, os anseios, as dificuldades, e claro, as realizações, são muito semelhantes.

Hoje você vai conhecer a organização Brasil-Caledônia, que realiza trabalhos com a comunidade brasileira de Edimburgo, Escócia. Criada em 2008, a organização sem fins lucrativos tem como objetivo desenvolver atividades que resgatem nossa cultura no dia a dia, principalmente das crianças.

As reuniões começaram como bate papos informais que tinham como tema o bilinguismo e como os pais poderiam incentivar seus filhos a falar português. Do outro lado da sala, as crianças brincavam em inglês. Foi aí que os organizadores decidiram que a comemoração de festividades nacionais engajariam mais os brasileirinhos e, desde então, diversas são realizadas anualmente, inclusive no final da semana passada, a comemoração do Dia das crianças.

Tulio Buldrini, um dos criadores da organização, nos conta que em 2010, Edimburgo recebeu uma estudante brasileira para fazer mestrado na área do bilinguismo. Carla Xavier propôs contribuir com a organização dando aulas gratuitas para crianças. Mas, o que você acha que aconteceu?

“Colocamos essa proposta no nosso blog. Recebemos diversos comentários. Um deles dizia que isso não serveria para nada, porque aquilo que estávamos fazendo não iria para frente. Foi possível realizar 3 encontros mensais produtivos e estimulantes para a criançada. Várias foram as opiniões e desejos em relação à criar um sistema para ensinar português, mas estes foram sempre interrompidos por motivos de recursos, de tempo, e principalmente de um consenso e interesse dos pais”, Túlio nos conta.

Humm… você deve estar coçando a cabeça.

Carla sempre se interessou pelo bilinguismo e os benefícios psicolinguísticos e sóciolinguísticos que o aprendizado de mais de uma língua pode trazer. Hoje cursando doutorado na Itália, ela conheceu o projeto através de um de seus professores da Edinburgh University, enquanto fazia mestrado na área do bilinguismo. Ela nos conta,

“Comecei pelo mais fácil: os adultos. Estava ansiosa em conhecê-los melhor, e saber mais sobre o que eles faziam para manter suas raízes culturais. Aos poucos, fui conhecendo a realidade ali vivida, e percebi que faltavam atividades focadas para as crianças. Assim, propus fazê-las como voluntária. Em São Paulo, já tinha tido oportunidade de lecionar inglês para crianças de todas as idades, o que foi essencial para que eu soubesse elaborar aulas interessantes. Criei atividades lúdicas que abrangiam quase toda as idades. Trabalhei muito com brincadeiras, historinhas e situações que instigavam as crianças a falar o português”.

Os encontros tinham temas que variavam mês a mês, no qual Carla construía com as crianças um laço cultural de cada vez. Contudo, ela comenta, “percebi que para haver um resultado mais eficaz, eu teria que  conscientizar os pais sobre a importância de sua participação no ensino de seus filhos.

Ainda hoje, aprender duas línguas simultaneamente, parece ser um ‘bicho de sete cabeças’.

Nas conversas mensais que tinha com os pais, eu tentava explicar os benefícios de ser bilíngue, bem como tirava suas dúvidas. Sempre frizei a importância de oferecer às crianças materiais de leitura, brinquedos, músicas e vídeos em português. Porque ao criar um ambiente onde as duas culturas fossem vistas em comunhão, as crianças poderiam enxergar duas línguas como algo natural”.
Tanto Tulio quanto Carla revelam que algumas crianças do grupo acabam não falando o português porque têm medo errar. Tulio ouviu isso de seu próprio filho, inclusive.

“No momento, a Brasil Caledônia nao tem condições de oferecer nenhum programa educativo consistente relacionado ao ensino da língua portuguesa para crianças, mas sim de divulgar e apoiar iniciativas relacionadas. Pelo relato das famílias que conheço, continua-se falando português em casa. Algumas famílias tem mais acesso à vídeos e televisões brasileiras via internet. Por exemplo, meus filhos gêmeos nasceram aqui, são filhos de brasileiros, falamos português direto em casa, mas a primeira palavra deles foi em inglês. Voltamos ao Brasil com eles quando estavam com 1 ano e depois aos 6 anos. Minha menina fala mais português (é capaz de ter uma conversa longa), mas o menino não arrisca. Ele diz que tem medo de errar. Hoje eles têm 7 anos. É por isso que acredito na importância de se falar sobre o Brasil, como são os costumes, como foi a nossa infância. Talvez assim aumente o interesse deles em usar a língua portuguesa para conversarem, pelo menos com os pais, ou ao telefone com avós e tios”, diz Tulio.

Perguntamos a ele o que a Brasil Caledonia precisa para ser capaz de realmente promover a cultura brasileira e a língua portuguesa entre as crianças. Segundo ele,

“estabilidade no quadro de voluntários e um lugar fixo para a realização de nossas atividades. Eu poderia dizer também que precisamos de dinheiro, mas este não teria sentido sozinho. Dependemos da disponibilidade de algumas salas do community center, o que nem sempre é possivel. Mas a gente vai levando. Um outro problema é que Edimburgo não tem um grande número de brasileiros fixos, o que dificulta a divulgação e a aceitação da Brasil Caledonia com uma entidade séria para a comunidade brasileira. O consulado do Brasil é em Londres. A mídia e empresas brasileiras estão é por lá”.

 

Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.
© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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3 comentários em “Escócia – sem medo de errar

  1. Parabens Felicia e Equipe , pela series Brasileirinhos no Mundo – Educacao Bilingue. Obrigado por nos convidar a fazer parte delas. Abracos. Tulio – Associacao Brasil Caledonia

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