Sentindo pra brincar, brincando pra sentir

Por Keiko Shikako-Thomas, PhD

Outro dia falamos sobre brincadeiras e o desenvolvimento em geral. Hoje vamos falar sobre o sentido no brincar. O sentido no sentido de sentir… hmmm, como você está se sentindo?

Trocadilhos à parte, vamos falar sobre como colocar os sentidos a favor do desenvolvimento no brincar com nossos brasileirinhos. Que mãe ou pai nunca se maravilhou ao ver o mundo com “os olhos de primeira vez” de uma criança que “precisa” parar no meio do caminho (normalmente quando estamos atrasados) para ver a formiguinha que atravessa a rua, para pegar um pauzinho “muito especial” ou uma pedrinha, ou para soprar um dente de leão. Ou não se assustou quando a filhota de 3 anos parou no meio de um lugar movimentado e maravilhada falou sobre o “cheiro de boneca”, que com atenção, você também sentiu.

Fato é que as crianças, principalmente dos zero aos três anos, aprendem muito através de sistemas.

Sistemas são unidades complexas e multifuncionais do nosso corpo, do nosso sistema neurológico e que contribuem para a concretização de uma experiência.

Por exemplo, o sistema motor, que nos faz mexer, “aprende a mexer” quando o bebê estica a perna involuntariamente, e encosta na mão da mamãe, ou estica o braço por um reflexo e oops, sente uma coisa macia e por isso tenta esticar de novo. Ou suga, também por reflexo, e de repente um líquido quentinho e gostoso enche a boca e satisfaz a fome. É sentindo o mundo que a criança aprende e se desenvolve.

...

No brincar, isso se aplica assim: não adianta colocar para assistir aquele “super vídeo educativo com música clássica, cores, letras, numeros”, e esperar que os filhotes virem gênios, ou aprendam a brincar.

Criança aprende mesmo é tendo experiências que envolvam sistemas.

Experiências que façam sentir, que permitam explorar, que permitam mexer, tocar, sentir, ouvir, degustar, cheirar. Afinal, o que é o mundo se não um caldeirão de sensações a serem descobertas.

Crianças nascem com isso, e nós, adutos, temos uma habilidade imensa de bloquear esse instinto. Que lance a primeira pedra quem nunca falou: “menino tira a mão disso!”, “mas tem que encostar em tudo?”, “não pode colocar na boca, é sujo!” ou “não pode, faz bagunça”. Se por um lado não há dúvidas de que nem tudo deve ser encostado, por outro lado nós precisamos, como pais, estar um pouco mais atentos às oportunidades de sentir o mundo e aprender através dele.

Dos zero aos sete anos a quantidade de sinapses, as conexões que ocorrem no cérebro de cada um, aumenta exponencialmente. Cada vez que uma criança tem a chance de associar uma sensação à um movimento (por exemplo, ao invés de jogar uma bola normal, que tal tentar uma bola macia, uma bola àspera, uma bola com guizos?) ou uma sensação à uma experiência (vamos brincar de fazer bolo “de verdade”, e colocar a mão na farinha, mexer o ovo, sentir a consistência da massa quando misturamos os dois, sentir o cheiro da essência de baunilha), uma nova rede, um novo circuito se forma dentro da caixola. E este circuito, mais do que qualquer Baby Einstein, se torna uma nova ponte para muitas outras aprendizagens.

Verdade seja dita, Einstein não descobriu a teoria da relatividade sentado na frente da TV. Newton nunca ia saber da gravidade se não tivesse ido até aquela árvore.

Para nossos brasileirinhos, se nossa intenção no brincar é também trazê-los um pouco mais perto da Terrinha, uma boa ideia é incluir sentidos nas brincadeiras. Brincar de beber àgua de coco quando “passeando pela praia” (mesmo que a pria seja a caixa de areia do parquinho no Central Park) ouvindo Garota de Ipanema.

Dar suco de maracujá para a boneca, fazer pão de queijo e bolo de cenoura juntos, sentir cheiro de goiaba no caminho de um “apple picking” e falar sobre as diferenças da goiaba e da maçã, brincar de esconde-esconde atrás do Cristo Redentor (que pode ser o papai de braços abertos no quintal), passear de plasma car pela avenida Paulista (desenhada, também juntos, nas caixas do IKEA).

Onde houver imaginação (e coragem para vencer a preguiça), existe espaço para acrescentar sentido à brincadeira e transformar um jogo em uma experiência sensorial e, portanto, mais rica (cá pra nós, bem mais divertida!).
E o resultado? Você vai sentir na pele.

Sinta muito. Brinque mais e até mês que vem!

NOSSO CONTEÚDO É PROTEGIDO POR DIREITOS AUTORAIS. AO COMPARTILHÁ-LO, LEMBRE-SE DE CITAR A FONTE: PLATAFORMA BRASILEIRINHOS, BRASIL EM MENTE.

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