Brasilidade e Africanidade

Editorial
Por Felicia Jennings-Winterle
Plataforma Brasileirinhos, Editora

Em 20 de Novembro é comemorado o dia da Consciência Negra e por isso o blog Brasileirinhos dedicará todo o mês para discutir e apresentar as semelhanças, relações e heranças da cultura africana na cultura brasileira. Além das implicações óbvias, como o uso de palavras africanas no português (atabaque, abará e cafuné) e de alguns costumes (comer feijoada e jogar capoeira), o negro é o primeiro brasileiro, junto com o índio e o explorador branco.

A própria criação de tal feriado nacional, decorrente da lei 10.639 de 2003, é importante, pois serve como um momento de conscientização e reflexão sobre a importância da cultura e do povo africano na formação da cultura do Brasil. Começamos então explicando o que é brasilidade (uma de minhas palavras favoritas) e o que é africanidade.

bra.si.li.da.de (feminino): característica distinta do brasileiro e do Brasil, sentimento nacional dos brasileiros, brasileirismo.

Da mesma maneira,

a.fri.ca.ni.da.de (feminino): característica distinta do africano e da grande África, manifestada como essência de cada uma das diversas culturas que cada país deste grande continente contém.

Em um momento de “red carpet” que o Brasil vive, “o mundo todo nos observa com muita atenção e expectativa. Isto certamente acontece porque estamos apresentando índices de desenvolvimento invejáveis (…) Mas há algo mais. Algo que aumenta esta curiosidade sobre nós. Algo que nos torna diferente dos outros emergentes: o nosso jeito de ser. A cultura que construímos e que nos dá a argamassa de nação. É ela que marca a nossa diferença e define a nossa posição no mundo atual. É ela que amplia a nossa viabilidade entre todos aqueles que fazem parte do chamado grupo BRIC”. (Juca Ferreira, ministro da cultura na página Brasilidade)

Mas e nossas raízes?
O que importa nesta discussão são as implicações africanas enquanto etnia, e não enquanto raça. Com 54 países (e muito debate sobre este número), Africa é considerada pela maioria dos antropologistas e paleontologistas, o território mais antigo do planeta em termos de habitação. Cientistas acreditam que a origem humana deu-se nesse continente enorme, tendo descoberto fósseis que evidenciam espécies das quais seríamos descendentes há mais de 7 milhões de anos, e por isso é muitas vezes chamada de “berço da humanidade” (Wikipedia).

O português é falado em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Prince, além de algumas outras regiões isoladas, muitas vezes levando à aparição de crioulos de base portuguesa: Ano Bom, na Guiné Equatorial e Casamança, no Senegal. Mas foi através da escravidão que o Brasil realmente tomou contato com o africano, desde o período colonial até o fim do império, sendo abolida gradativamente com a Lei Áurea, em 1888.

Os negros escravos que vieram para o Brasil saíram de vários pontos do continente africano: da costa ocidental, entre o Cabo Verde e o da Boa Esperança; da costa oriental, de Moçambique; e mesmo de algumas regiões do interior. O grupo mais importante introduzido no Brasil foi o sudanês, que, dos mercados de Salvador, se espalhou por todo o Recôncavo. Desses negros, os mais notáveis foram os iorubas ou nagôs e os geges, seguindo-se os minas. Outros grupos de origem berbere-etiópia tinham influência muçulmana. Ainda vieram grupos da cultura chamada banto, os angolas, os congos ou cabindas, os benguelas e os moçambiques. Os bantos foram introduzidos em Pernambuco, de onde seguiram até Alagoas; no Rio de Janeiro, de onde se espalharam por Minas e São Paulo; e no Maranhão, atingindo daí o Grão-Pará. Ainda no Rio de Janeiro e em Santa Catarina foram introduzidos os camundás, camundongos e os quiçamãs.

Com tantas regiões e culturas envolvidas, fica fácil entender porque haviam tantos conflitos entre os escravos, e porque houve tanta influência na cultura brasileira, em termos de religião, hábitos alimentares, vestuário, música e dança.

Vale ainda ressaltar que a História do Brasil sempre valorizou personagens de cor branca. Como se tivesse sido construída somente por europeus e seus descendentes. Imperadores, navegadores, bandeirantes, líderes militares, todos brancos, todos hérois nacionais. Agora temos a chance de valorizar um líder negro em nossa história, e esperamos que em breve outros de origem africana sejam valorizados. Nas escolas brasileiras já é obrigatória a inclusão de disciplinas e conteúdos que visam estudar a história da África e a cultura afro-brasileira.

No decorrer deste mês, você conhecerá mais sobre está vastíssima cultura, que é um pouco nossa também.

 

Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.

 

© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s