A cor da cultura

Por Felicia Jennings-Winterle
Coluna Educação Bilíngue

Por que é tão importante que reescrevamos nossos livros incluindo as heranças africanas em nossa cultura? Por que criar um novo currículo com o título cultura afro-brasileira? Por que celebrar um mês de conscientização à esse respeito?

Porque nunca é tarde demais para se corrigir uma desigualdade histórica. Desigualdade que recai ao negro brasileiro em tantas esferas. A ideia da lei 10.639/03 é que por meio da educação o Brasil possa se distanciar de uma posição neutra em termos dos efeitos do racismo e tomar o lugar de um estado democrático, que reconhece as diferenças étnico-raciais e o quão positivas tais diferenças são para o imaginário pedagógico e a política educacional brasileira (Nilma Limo Gomes).

Nessa conversa, é muito importante diferenciarmos raça e etnia, e ressaltar que essa, e outras discussões sobre uma cultura afro-brasileira, não se alicerçam em superioridade e inferioridade. Enquanto pesquisava para esse artigo, me deparei com um lindo parágrafo, com algo que nossa geração não aprendeu na escola.

“Nesse sentido (de associação da herança africana em nossa cultura), rejeita-se o sentido biológico de raça, já que todos sabem e concordam com os avanços da ciência de que não existem raças humanas. O conceito de raça é adotado, nessa perspectiva, com um significado político e identitário construído com base na análise do tipo de racismo que existe no contexto brasileiro, as suas formas de superação e considerando as dimensões histórica e cultural a que esse processo complexo nos remete” (Nilma Limo Gomes).

É importante que nós, pais, avós, educadores e defensores da cultura brasileira, dentro e fora do Brasil, entendamos e destaquemos que o conceito de raça é uma construção nossa, enquanto sociedade, produzido ao longo de toda uma história. Nós aprendemos (e ensinamos) a enxergar raças, e assim, a classificar, a diferenciar, a ver pessoas brancas, negras, amarelas, vermelhas, e a dicotomizar, usando as palavras perfeições e imperfeições, beleza e feiúra, inferiores e superiores. E o que é pior, aprendemos (e ensinamos) a hierarquizar tais diferenças.

Biologicamente somos todos iguais, e esse deveria ser o maior motivador dessa re-educação. O que somos por fora, a cor e forma que temos, deveria ser somente um indicador do quão único cada um de nós é, caraterística mais incrível da raça humana.

Já etnia, diz respeito a um grupo que possui algum grau de coerência e solidariedade, composto de pessoas conscientes de terem origens e interesses comuns. Um grupo étnico é um agregado de pessoas unidas ou proximamente relacionadas por experiências compartilhadas (CASHMORE, 2000). Etnia refere-se a um grupo social cuja identidade se define pela comunidade de língua, cultura, tradições, monumentos históricos e territórios (BOBBIO, 1992).

Por tudo isso é que se diz que as diferenças, mais do que dados da natureza, são construções sociais, culturais e políticas. Esse olhar precisa ser mudado, e cabe a nós mudá-lo enquanto educamos esta geração. Temos como interferir pedagogicamente construindo um currículo de diversidade, ou como o grande Gilberto Gil diz, de semiodiversidade (que assim como biodiversidade se refere a variedade das coisas vivas, semiodiversidade se refere a cultura).

Uma das formas de interferir na construção de uma pedagogia da diversidade, é garantir o direito à educação de todos e o de saber mais sobre a história e a cultura africanas e afro-brasileiras. Esse entendimento poderá nos ajudar a superar opiniões preconceituosas sobre os negros, a África, a diáspora, e quem sabe assim não vejamos nossa cultura com outros olhos e a defendamos mais fortemente enquanto vivendo no exterior.

Referências Bibliográficas:
http://www.acordacultura.org.br/artigo-25-08-2011 de Nilma Limo Gomes
http://www.acordacultura.org.br/artigo-01-10-2010 de Jairo Santiago

 

Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.

 

© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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