Cabo Verde

Por Felicia Jennings-Winterle
Coluna Pelo Mundo

camaroesHoje, Brasileirinhos no Mundo viaja à Cabo Verde – país independente composto por um arquipélago localizado à 270 km da costa oeste da África. É lá que se localiza o Centro Cultural Brasil-Cabo Verde, na Ilha de Santiago. O centro é o braço cultural da embaixada brasileira, representada pelo embaixador Oswald Padilha, e financiado pelo departamento cultural do Itamaraty.

Entrevistamos Marilene, diretora do centro sobre suas atividades e programas.

Plataforma Brasileirinhos -Em seu website é descrito que o objetivo do Centro Cultural Brasil-Cabo Verde é de promover a língua portuguesa e a cultura brasileira, e a de Cabo Verde. Como isso se dá na prática?

Sendo o ensino da língua portuguesa uma prioridade na política cultural dos centros, nós trabalhamos, aqui, com turmas de Português como Língua Estrangeira para adultos – imigrantes do continente africano, diplomatas e funcionários de empresas ou organizações internacionais – e para crianças. No caso das crianças, mais que a língua portuguesa, a aposta é feita no sentido de fazê-los conhecer e/ou não perder a história e a cultura brasileiras.

Paralelamente, e sendo a língua materna dos cabo-verdianos o crioulo, o sistema de ensino nacional (alargado e gratuito nos seis primeiros anos) tem detectado enormes dificuldades das crianças com a língua portuguesa. Não usam em casa e na sua vida cotidiana – apenas na escola – e por isso não dominam a língua. Assim, e com o objetivo de melhorar o desempenho das crianças nesta que é a língua oficial, temos uma programação anual com visitas às escolas do ensino primário todas as sexta-feiras. Nessas visitas fazemos contação de histórias e levamos uma mala literária para disponibilizar as crianças, durante um período do dia, leitura de livros infantis. Isso porque a grande maioria das escolas do ensino primário aqui não dispõem de bibliotecas.

Também temos programação para visitas de escolas ao centro, como forma de tirar as crianças de suas localidades, algumas delas bastante isoladas. Na visita ao centro disponibilizamos, gratuitamente, acesso a internet a jovens e adultos, sendo os jovens estudantes de escolas do ensino médio vizinhas o nosso maior público. Eles têm apoio de um técnico para utilização do computador e de professores para realização dos seus trabalhos de escola, sempre em português.

PB – Existe apoio do governo de Cabo Verde nessa iniciativa junto às escolas?
Diretamente não posso dizer que há apoio. Mas o próprio fato de termos facilitada a nossa ida às escolas, sem nenhuma questão burocrática, ou a vinda das escolas ao Centro, é uma forma de apoio, mesmo que indireto.

Realizamos também shows musicais, com músicos brasileiros, que integram o nosso programa anual e que paralelamente, oferecem oficinas com músicos locais – e com músicos cabo-verdianos.

PB – A maioria dos entrevistados no quadro Pelo Mundo, são de iniciativa privada, apoiados por iniciativas públicas institucionalmente e, ocasionalmente, financeiramente. Como você vê essa dinâmica entre as iniciativas privadas e públicas em Cabo Verde?

Em Cabo Verde isso é extremamente difícil. As empresas com capacidade para esse tipo de parceria são poucas , duas ou três, e ao invés de financiar iniciativas brasileiras, mesmo que em prol de cabo-verdianos, é justo que elas financiem iniciativas de cabo-verdianos.

Ao contrário, no Centro Cultural Português eles recebem apoio de muitas empresas portuguesas representadas em Cabo Verde que patrocinam suas atividades.

PB – Como funciona a questão do bilinguismo em Cabo Verde? A população que vocês atendem fala ou tem como parte de sua cultura quantas línguas?

Oficialmente Cabo Verde é bilingue, visto que a língua materna é o crioulo (que não é o mesmo que o falado no Haiti) e a língua oficial é o português. Relativamente ao crioulo, tirando a música e uma pouca poesia, a língua é sobretudo oral, não é ensinada nas escolas porque o ensino, desde os primeiros anos, é feito em português. Isto não significa, entretanto, que terminado o ensino obrigatório, de seis anos, as crianças tenham domínio mínimo do português. É um problema conhecido de todos, mas para o qual ainda não foi encontrada solução.

PB – Quer dizer que o ensino básico e obrigatório é só de 6 anos em Cabo Verde?
Na prática ainda está sendo. Mas há um projeto piloto de alargamento até o 8º ano, funcionando numa escola. Até agora tem funcionado assim porque o sistema de ensino de Cabo Verde está dividido em dois blocos: o básico, de seis anos, e o secundário, também de seis anos.

PB – No seu entender, qual seria uma possível solução para o problema de falta de proficiência no português?

Só posso te falar do meu olhar, de quem é também professora primária. Sendo o crioulo a língua dos cabo-verdianos, com a qual eles interagem, desenvolvem seus afetos e a sua música, conhecida no mundo todo, eu acho que a aposta seria valorizar essa língua formalmente, com o seu ensino exclusivo na escola – o que não acontece – nos dois primeiros anos do ensino básico. A partir daí, e tendo os alunos uma estrutura escrita do crioulo, avançar-se-ia, na escola, no terceiro ano, com o ensino do português como língua segunda. Isto seria, inclusive, uma forma de combater o insucesso escolar.

As crianças, que crescem falando português, chegam a escola primária, aos seis anos, e têm que passar a conviver, de maneira formal, com uma língua que não está nos seus afetos, com uma pedagogia de língua primeira. E como fora da escola não a usam, têm extrema dificuldade em aprender.

PB – Que benefícios você pode listar vindos de uma maior união e troca entre as organizações, escolas, grupos comunitários e centros culturais que ensinam e promovem o português ao redor do mundo?

No caso de países como Cabo Verde, Guiné-Bissau e Timor, que, para além de terem um bilinguismo mal resolvido têm problemas para investir no ensino e aprendizagem das suas línguas, a união de esforços podia fazer ultrapassar a falta de recursos financeiros para investir no setor. Nós temos visto no terreno que a nossa ação, limitada à ilha de Santiago, onde está o centro, tem dado os seus frutos. São os professores que já nos procuram para nos visitar, para fazermos atividades nas escolas. Paralelamente a isso, e ao lado do Centro Cultural, muito tem contribuido o Ministério da Educação do Brasil, que através de programas como o PEC-G (Graduação) e PEC-PG (pós-graduação) tem permitido a formação superior de milhares de cabo-verdianos (e quem diz cabo-verdianos diz são-tomenses, moçambicanos, angolanos, etc) e, com isso, multiplica os falantes da língua portuguesa.

PB -Vocês tem notícias de outras organizações e centros culturais, de iniciativa privada e pública que trabalhem com a comunidade brasileira em outros países da África?

Não, onde há brasileiros na África, as instituições que trabalham com brasileiros, mas não somente com brasileiros, são os centros culturais.

 

Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.
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