Os desafios da alfabetização no português brasileiro

Por Luciana Lessa, PhD
Coluna Falando

Como podemos auxiliar as crianças em seu árduo processo de alfabetização? O que motiva tantos erros que muitas crianças cometem em produções escritas? O que fazer diante desses erros? O principal destaque de nossa discussão de hoje é de que analisar os erros presentes na escrita de crianças para compreender quais são os aspectos são mais ou menos complexos da alfabetização.

A relação entre letras e sons no sistema ortográfico do português brasileiro (PB) é complexa, uma vez que fala e escrita, apesar de se intercruzarem, possuem, cada uma, regras próprias de organização: “escrever ortograficamente significa escolher uma única forma para as palavras de uma língua, independente da pronúncia” (Massini-Cagliari, 1999).

Essa é uma das razões que torna o processo de alfabetização um grande desafio para as crianças e, Quando a criança erra, ela nos deixa pistas de aspectos da escrita que ainda precisam ser desvendados por ela.

Enquanto adultos alfabetizados, temos a tendência de “esquecer” como a relação entre sons e letras é obscura. Por exemplo: não tem nada na letra {a} que remeta ao som [a]. Essa é uma das relações que aprendemos no nosso processo de alfabetização; nesse caso, uma relação relativamente fácil de estabelecer.

Se considerarmos a letra {c} temos uma maior complexidade na relação som/letra, uma vez que {c} pode remeter ao som [k], como em “casa” ou ao som [s], como em “cidade” ou “cebola”, ou seja, o som que a letra {c} representa varia de acordo com a vogal que acompanha tal letra.

Já na letra {s}, temos novamente uma maior complexidade, uma vez que tal letra pode remeter ao som [s], como em “sino”, ou ao som [z], como em “mesa”; nesse caso, a variação na correspondência som/letra é decorrente da posição da letra na palavra: em início de palavras, a letra {s} corresponde ao som [s] (“sino”) e, dentro de palavras, a letra {s} corresponde ao som [z] (“mesa”).

Esses são apenas dois exemplos da complexidade envolvida no processo de alfabetização. Assim, é de se esperar que as crianças apresentem muitas dúvidas nesse processo, o que deve ser abordado com compreensão por parte dos pais e educadores.

Muitos estudos sobre aquisição da escrita, no Brasil, buscam categorizar os “erros” que as crianças costumam cometer no processo de alfabetização. Alguns exemplos muito comuns são:

Erros motivados foneticamente: são aqueles em que se observa o estabelecimento de relações diretas entre sons e letras (ex: pirigu, para perigo; istrela, para estrela). No caso de estrela, a criança escolhe a letra que tem uma correspondência mais “direta” com o som [i]. Muitos adultos, na tentativa de corrigir a criança, costumam dizer: “não é ‘istrela’, é ‘estrela’”.

Esse é um exemplo de como apagamos de nossa memória a obscuridade da relação som/letra. Acredito que ao fazermos essa afirmação (“não é ‘istrela’, é ‘estrela’”) provavelmente geramos uma confusão na cabeça da criança. Afinal, em nenhum momento anterior a esse a criança um dia ouviu alguém pronunciar “estrela”, com o som [e] no início. Já presenciei crianças contra-argumentando correções como essa, dizendo que “não, a gente não fala estrela, a gente fala istrela”.

Como podemos resolver isso?
Algumas pessoas acreditam que o correto seria então falarmos estrela, do modo como escrevemos. Entretanto, não é esse o caso. Na fala, o padrão convencional da palavra é mesmo com o som [i]: istrela. Não tem nada de errado com isso; como afirmamos inicialmente, a fala e a escrita têm, cada uma, modos próprios de organização.

Assim, o que podemos tentar explicar à criança é que a escrita não é um espelho da fala. Muitas vezes, escrevemos palavras de um jeito, mas nossa pronúncia não é determinada pela escrita. Nesse caso, poderíamos explicar que: “sim, a gente fala a palavra ‘estrela’ com o som [i], mas na hora de escrever, usamos a letra {e}. E isso acontece com outras palavras, como escada e espelho, escrita, e muitas outras”. Desse modo, a criança pode compreender que o seu “erro” não é algo tão abstrato, mas tem uma explicação.

Erros de supergeneralização: generalização de uma regra para um contexto que ela não se aplica. Seriam erros que mostram que a criança já aprendeu determinada regra ortográfica, mas ainda não aprendeu suas sub-especificações (ex: flaota, para flauta ou guato, para gato).

Assim como a letra {e} pode ser usada para representar os sons [e] (“medo”) e [i] (“escada”), a letra {o} pode ser usada para representar os sons [o] (“comer”) e [u] (“coelho” ou “pão”). Quando uma criança escreve “flaota” para “flauta”, podemos observar que ela está aplicando a regra de que “a letra {o} pode representar o som [u]” em contextos que essa regra não se aplica. No caso de flauta, o som [u] é grafado pela letra {u}.

No caso de guato para gato, podemos compreender que a criança está supergeneralizando a regra que diz que “o dígrafo {gu} representa o som [g] quando seguido das vogais {e} e {i}”, ou seja, a criança aplica essa regra para um contexto em que ela não se aplica.

Erros que alteram o fonema: são aqueles que alteram o significado da palavra (ex: faca, para vaca). Esses erros podem ser explicados com base na pronúncia das palavras em questão, em que a criança deve compreender que o uso da letra {f} ou {v} acarreta mudança de significado da palavra, pois cada uma dessas letras representa sons diferentes.

Explicitar esse contraste para a criança, sempre explorando a implicação de diferentes sentidos (faca X vaca), pode ajudá-la a perceber a diferença entre os sons que algumas crianças têm mais dificuldades para estabelecer. Cabe destacar que a escrita pode ser usada como auxílio visual para que a criança perceba tais diferenças, caso ela tenha dificuldade em perceber a diferença apenas com base na percepção auditiva.

Erros que não alteram o fonema: são aqueles decorrentes de representações gráficas múltiplas para um mesmo fonema (ex: letras {z}, {s}, {x} podem representar um único som [z]: fazenda, casa, exame), ou seja, diferentes letras que podem ser utilizadas para registrar um mesmo som, preservando o significado da palavra (exemplo de erro comum: meza, para mesa).

Nós somos capazes de explicar muitas regras ortográficas para as crianças com base nos contextos em que elas se aplicam (ex: {c} remete ao som [k] quando as vogais seguintes são {a} – casa, {o} – cômoda ou {u} – cuia, mas remete ao som [s] quando as vogais seguintes são {e} – cebola e {i} – cidade); enquanto outras questões ortográficas são aprendidas por meio do contato da criança com atividades de leitura e escrita (ex: “mesa” se escreve com {s} ou {z}?).

O conhecimento de tipos comuns de erros ortográficos por parte dos pais e dos profissionais da educação e da saúde é fundamental para que dificuldades normais encontradas no processo de aquisição da escrita não sejam equivocadamente interpretadas como um problema (distúrbio) da criança. É comum que crianças que passam por processos diagnósticos, mesmo sem apresentar uma real dificuldade, comecem a se sentir desmotivadas e a encarar a leitura e a escrita como um lugar de fracasso, acreditando não saberem ler e escrever e perdendo o prazer na realização de tais atividades.

No caso dos brasileirinhos que vivem fora do Brasil, devemos ainda ficar atentos quanto à interferência do inglês no processo de alfabetização em português. Por exemplo, a mesma letra {a} que, em português remete ao som [a] (“mala”), em inglês, remete ao som [] (“bag”) ou ao ditongo [ei] (“late”). Como a criança ainda se encontra no processo de aprendizado de tais relações som/letra, é tarefa do adulto desvendar caminhos que possam auxiliá-la em suas dúvidas. A boa notícia é que resultados de pesquisas já mostraram que crianças bilíngues têm mais facilidade no processo de alfabetização, uma vez que, por estarem sempre lidando com duas línguas em competição, essas crianças têm uma melhor compreensão das estruturas das línguas, permitindo que tenham habilidades mais desenvolvidas no que se refere a focar a atenção em informações necessárias para o aprendizado e “inibir” aspectos distratores.

O incentivo a leitura e à produção escrita no ambiente familiar são de extrema importância para que a criança tenha sucesso em seu processo de alfabetização, especialmente porque esses contextos favorecem imensamente que a criança perceba a função social da leitura e da escrita, atribuindo sentido para tais atividades, tendo prazer em poder ler uma história intrigante, ou engraçada, ou assustadora; ou em poder escrever um bilhete para seus pais, ou manter um diário, ou recontar histórias por meio da escrita. Enfim, existem muitas possibilidades que podem favorecer o contato e o interesse da criança por atividades que envolvem a leitura e a escrita.

Pensando nos brasileirinhos, devemos lembrar ainda que atividades de leitura e escrita ampliem as possibilidades de inserção social e cultural de indivíduos numa língua. A inserção das crianças no mundo da leitura e da escrita na língua portuguesa permite que a criança tenha acesso à rica literatura brasileira, às criativas e intrigantes histórias de nosso folclore, a receitas de deliciosos pratos da cultura brasileira, às poesias presentes em músicas infantis brasileiras, às cartas dos familiares brasileiros, etc.

Assim, ler e escrever em português não é apenas conhecer o seu sistema ortográfico, mas é ser um sujeito participante, é pertencer e poder se reconhecer nas palavras escritas em português, sabendo que essa língua é parte importante da história e da cultura que te constitui.

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Luciana Lessa é Doutora em Linguística, é parte do corpo docente da Georgia State University e participa de importantes grupos de discussão sobre a aquisição da linguagem falada e escrita. É autora da coluna Falando na Plataforma Brasileirinhos e diretora do grupo de discussão e formação de professores da Brasil em Mente.

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