E eles competirão com tigrinhos

Por Ana Rosa Soares
Coluna Perfil e Opinião

Moro em NY com minha família, e saí do meu país muito consciente da minha obrigação de manter a todo custo a lingua materna dos meus filhos, o português. Achei, no começo, que daríamos conta do recado sozinhos, rapidamente vi que estávamos muito enganados. Faltava-nos disciplina, tempo, paciência e competência. Contratamos uma tutora particular brasileira, dona de uma escola para brasileirinhos, e a encarregamos de ensinar as crianças.

Eu fui tremendamente abençoada com duas crianças muito inteligentes! Mas, esse ano fui surpreendida com um 72 e um 83 nas provinhas de português. Pensei, meu Deus, como farei pra voltar pra casa se os meninos não mantiverem o português, como passarão no vestibular, como conseguirão um emprego no Brasil?

A bronca foi firme, porque sinceramente esperava mais deles. Esperava mais atenção e apego à lingua deles, esperava mais respeito com minha preocupação e esforço de pagar pelas as aulas; e esperava principalmente mais dedicação da parte deles. Existisse algum problema cognitivo ou de aprendizem, buscaríamos ajuda, mas perguntei se precisavam de ajuda para estudar, e me responderam que já sabiam tudo aquilo, quando se quer pegaram num livro.

No dia seguinte, conversei com parentes no Brasil sobre o assunto e cheguei até a levar uma bronca pela minha atitude de “mãe tigre… que eu estaria acabando com a auto-estima dos meninos, porque a culpa deveria ser da professora que estaria usando um livro muito avançado para os pobrezinhos”.
O livro era o indicado pelo Ministério de Educação do Brasil, o MEC, da série anterior a que eles cursavam em NY. Ou seja, meus filhos estavam atrasados, estudando com livros usados em escolas públicas no Brasil que nivelam por baixo, e ainda estavam com um baixo rendimento.

Expliquei para as crianças que no futuro eles estariam competindo com tigrinhos, e precisavam afiar as garrinhas e aprender as artes da caça e da sobrevivência desde pequenos para garantirem e merecerem seu próprio lugar na savana. Mamãe tigre não estaria para sempre por perto.

Acredito que meus filhos precisam se preparar para competir, sei que não vão apenas competir com as crianças do ensino público, que utilizam o livro do MEC, mas com um exército asiático de professionais bem preparado e resilientes. Não que o modelo dos asiáticos seja o ideal, a taxa de suicídio entre estudantes asiáticos é altíssima, mas o MEC não será o suficiente para garantir-lhes a vida que eles, simplesmente, acham que ganharam ao nascer.

Existe um email muito interessante circulando na internet que fala exatamente da armadilha dessa geração; a mais preparada e a mais despreparada. A geração que acha que merece que tudo lhe seja entregue nas mãos; crianças facilmente levadas a acreditar que a vida é fácil e continuará a ser, porque nasceram em famílias de boas condições. Eu espero que sim, que eles tenham tudo que precisarem, mas entendo que é minha responsabilidade garantir que eles sejam capazes de conseguir por si próprios, e num ambiente muito mais competitivo, no qual eu dificilmente poderei ajudar o tanto que eles esperam.

Eu cresci em Brasília, no Plano Piloto, uma ilha do funcionalismo público com segurança de emprego, uma vez obtido. Mas em NY, e em outras partes do mundo já é possível compreender que estabilidade no emprego não será uma expectativa sustentável por muito tempo. A competição no mercado, e a crescente escassez de recursos obrigarão as gerações seguintes a se preparar cada vez melhor para conseguirem a mesma qualidade de vida de hoje. As crianças, adultos de amanhã, precisam estar muito mais bem preparados do que eu, ou do que foram meus pais.

Quero que meus filhos entendam o valor, não do dom, ou do crédito, ou do “jeitinho brasileiro”, mas o valor do esforço e do aprendizado que vem acompanhado deles. Para isso, acredito que essa geração tem que ser ensinada a ter resiliência. Acredito que ao pedir mais dedicação deles estou é contribuindo para a autoestima efetiva dos meus filhos ao acreditar que, com o devido esforço, eles poderão muito mais.

O português pode ser hoje um desafio para as crianças morando no exterior, mas acredito, sinceramente, que saber bem o português será o grande diferencial na vida deles. O Brasil desponta em diversos aspectos, e tudo indica que poderá vir a ser um país mundialmente bem posicionado no futuro. Ainda vai demorar um pouco para a qualidade da educação no Brasil se equiparar com a de alguns países mais desenvolvidos. Quem é educado no exterior, e ainda souber o português vai ter uma grande vantagem comparativa.

Mês passado as notas das provinhas de português melhoraram consideravelmente, mas a minha alegria maior foi ver a dedicação com que as crianças se aplicaram a estudar, depois da conversa. E levarão para vida o aprendizado de que: com esforço é mais é possível vencer, e aquilo que se consegue por conta própria, sem esperar dos outros, traz segurança e sucesso mais sustentável.

6 comentários em “E eles competirão com tigrinhos

  1. Muito interessante a opinião dessa mãe. Os meus filhos falam perfeitamente o português, eu sou brasileira e o meu marido americano. A maneira como eles aprenderam a língua foi viajando duas vezes por anos durante as ferias ao Brasil e também pelo fato que eu só falo com eles em Português. A escrita ainda não esta presente no currículo deles. Ainda não tenho essa preocupação forte com eles, pois já que estou vivendo por aqui a 14 anos e acho essencial que eles desenvolvam primeiro o inglês pois já tenho um filho no 4th grade e ele esta em uma escola privada muito puxada em Chicago se ele nao se sentir confiante no inglês isso com certeza trará muitos problemas de autoestima para ela.
    Parabéns pelo esforço e resultado que você esta obtendo com os seus filhos.
    Eliane

    1. Eliane, obrigada por seu comentário. Meus filhos estudam na escola das nações unidas, é puxado até pra mim, os pais fazem aula pra saber ajudar as crianças a fazer dever de casa (matemática de Singapura…pessoalmente já acho um absurdo, nunca gostei de dever de casa, não vou começar agora : ) Mas acho que falar o português não é suficiente, é preciso saber escrever e se articular bem, com um vocabulário adequado para o mundo profissional e quanto mais cedo começar mais fácil será. As crianças da escola que frequentamos falam várias linguas ao mesmo tempo e a ciência explica que realmente é mais fácil aprender quando pequeno.
      Até mesmo para quem não pretende voltar pro Brasil eu realmente recomendo que coloquem os filhos para estudar a sério o português por que a competição por lá também não é pouca e o futuro realmente vai ser de quem falar o português e mandarim. E a nossa lingua é bem complicadinha, mas o mandarim é impossível. Boa sorte mas não deixe pra depois porque quanto mais velhos eles ficarem mais difícil vai ser para quererem se dedicar. Abraços,
      Ana

  2. Excelente texto, parabéns. Tenho ensinado estudantes asiáticos nesses últimos 10 anos na universidade e a minha opinião é que o modelo educacional deles é muito limitado. Não valoriza a dimensão não-cognitiva (como auto-estima, motivação, persistência, etc), tão importante para o aprendizado. Mais do que isso, não se preocupa com uma formação humanista dos indivíduos, que é fundamental também para competir. Existem muitos tipos de inteligência importante para ser bem sucedido na vida, mas os asiáticos tem um modelo educacional de ensino primario e secundario prioritariamente unidimensional. No entanto, quando eles passam grandes temporadas no exterior em cursos de pós-graduação, muitas vezes nas melhores universidades do mundo, eles adquirem um savoir-faire e um traquejo não-cognitivo que é fundamental para eles na volta.

    O ensino bilingue por si só é um grande estímulo aos pequenos, parabéns pela persistência e por uma visão de longo prazo. Disso se trata a educação: de trabalharmos planos de vida para sermos felizes. Muito estimulante o texto.

    1. Pois é, meu amigo Flávio, Tomara que a gente saiba combinar bem a disciplina com o carinho. Felícia é a quem eu confio parte dessa tarefa com toda a criatividade, competência técnica e talento artístico que ela tem. Eu me dedico só a mimar um bocado, ler os livrinhos toda noite e cobrar que se esforcem mas que sejam felizes acima de tudo. Beijos.

  3. Rose Soares, Sou m~ae de Ana Rosa. Minha filha fez opcao por estudar nos Estados Unidos quando era pre-adolescente. Naquele tempo eu era mais en’ergica e ainda que tenha permitido a sua permanencia por um ano no Texas, ela j’a foi com um principio bom de ingl^es, e o conhecimento necess’ario de portugues para na volta enfrentar o finalzinho do segundo grau e um vestibular na UNB. (Entrou no primeiro exame que fez e se inicou na carreira que a mamae j’a fazia). Exigi (juro que naquele tempo eu sabia exigir) que fizesse a graduacao no Brasil para conhecer bem a realidade nacional antes de partir para analisar outras realidades. Um ponto de referencia me parece importantissimo para forma’cao do proprio carater de quem pretende uma carreira, seja qual for, em especial se for uma que tenha conte’udo humanistico. Foi esse princ’ipio que permitiu que ela subisse muitos degraus e ainda subir’a outros, a partir do degrau onde a mamae parou. Acho que essa ‘e fun’cao dos pais, preparar os filhos para as varias opcoes que possam vir a fazer na vida, sabendo, como temos que saber que esamos em um mundo globalizado e, diferentes, somos todos humanos. Sabemos sim, que essas opcoes s~ao muitas e variadas, e h’a mil oportunidades mesmos quando a concorrencia ‘e grande. Os tigres est~ao por toda parte, mas o mais importante ‘e saber enfrenta-los com armas diferenciadas, pode ser um idioma a mais, uma especializaacao a mais, mas h’a que haver um referencial forte, algo em que a crianca, jovem, pessoa, saiba que ‘e forte. Se houver um ponto referencial firme todo o resto do aprendizado ser’a de acrescimos. Deixemos que escolham, mas que esta escolha seja profunda, seria e digna de dedicacao como foi a minha( mamae pantera, e a da Ana Rosa, mamae tigre, e ainda bem que tem um papai dos tigrinhos na retaguarda para garantir que em volta nada os detenha.

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