Uma Estrelinha guia no nosso movimento

Por Felicia Jennings-Winterle
Coluna Pelo Mundo

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Pelo Mundo deste mês, entrevista Andréa Menescal Heath, bacharel em Relações Internacionais, residente em Munique, Alemanha, que nos conta sobre a primeira escola regular de educação infantil brasileira, fora do Brasil. Andréa é membro da Kinderhaus Estrelinha e.V. e mãe de duas crianças que frequentam o jardim de infância da Estrelinha.

PB – Andréa, como foi que essa instituição maravilhosa começou?
Andréa Menescal – No encontro mensal do centro cultural brasileiro “Casa do Brasil”, em abril de 1998, foi apresentado o interesse por parte de alguns pais em fundar uma creche teuto-brasileira. O principal objetivo era: criar um ambiente, fora do círculo familiar, onde as crianças tivessem um maior contato com a língua e a cultura brasileira. A associação de pais “Estrelinha e.V.” foi fundada no dia 19 de maio de 1998.
O nome é dedicado à famosa autora infantil Gilda Figueiredo Padilha, que escreveu, entre outros livros, “Estrelinha”. O grupo comecou com apenas seis criancas. Hoje nossas professoras atendem mais de 50 crianças.

PB – Como funciona a escola e que tipo de apoio do departamento de Educação alemão vocês recebem?
AM – A escola bilíngue Estrelinha é composta por três grupos: o Maternal (crianças de 1 a 3 anos), a Educação Infantil (crianças de 3 a 6 anos) e o Acompanhamento Escolar (crianças de 6 a 11 anos). A Estrelinha funciona regularmente das 7:30 às 16:00 horas.
A Estrelinha recebe do Estado da Baviera o apoio em 80 % dos seus custos (professores e aluguel). O resto dos custos são cobertos pelas mensalidades dos pais.

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PB – E como funciona essa dinâmica bilíngue?
AM – A Estrelinha tem como objetivo ensinar paralelamente a língua e a cultura do Brasil e da Alemanha. No dia-a-dia, nossas professoras brasileiras falam apenas português. Na aula de música (uma vez por semana), no acompanhamento dos deveres de casa do grupo do Acompanhamento Escolar e na pré-escola (duas vezes por semana para as criancas que entrarão na escola no ano seguinte) a língua utilizada é o alemão. São comemoradas as datas festivas das duas culturas.

PB – Como mãe, por que você fala português com seus filhos no exterior?
AM – Frederick (5 anos) e Lydia Myrthes (4 anos), meus filhos, nasceram em Munique. Falam português e alemão sem sotaque algum, possuem um vasto vocabulário e dominam bem a gramática nas duas línguas. Eles conseguem de imediato traduzir palavras de uma língua para a outra e mudam subitamente de uma língua para a outra sem dificuldades. Como estão frequentemente também na Itália, eles entendem bem o italiano e já falam algumas frases. Se francês, inglês, italiano ou alemão (e para as que eles não conseguem identificar, eles nos perguntam, interessados).

Isso pode parecer algo extraordinário para crianças nessa idade mas não é. Esses são somente alguns resultados que os pais podem obter caso eles se dediquem, de maneira consequente, ao ensino bilíngue de seus filhos.

Como casal teuto-brasileiro (ele alemão, eu brasileira), uma das nossas preocupações ao ter filhos foi a de criá-los num ambiente também teuto-brasileiro. Mas tínhamos que ter claro para nós quais eram os nossos objetivos com isso. Nossos filhos, pensamos, deveriam se sentir à vontade e em casa tanto na Alemanha como no Brasil, não tendo dificuldades em se comunicar e conviver com os parentes e amigos alemães e brasileiros. Mais do que isso: Pensei também que, no futuro, eles poderiam ter não só na Alemanha ou na Europa, mas também no Brasil boas possibilidades de trabalho. Com esses objetivos bem claros, nossa próxima questão foi: O que precisaríamos fazer para dar essa oportunidade aos nossos filhos? A língua, sabíamos, deveria ser a base para isso e era claro para nós que iríamos falar com as crianças na nossa língua materna.

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PB –Por aqui vemos vários casos de mães e pais brasileiros que não sabem o que fazer. Outros, nem aceitam o desafio. Não deve ser diferente na Alemanha. O que você diz sobre isso?
AM – Como brasileira, eu sabia que o trabalho maior seria meu pois, morando na Alemanha, as crianças aprenderiam a língua alemã quase que automaticamente. Assim, já mesmo antes deles nascerem, eu estava falando português com eles. Logo veio a época em que começamos a interagir com outras pessoas, a frequentar os parquinhos e grupinhos e, mesmo nessas situações, sempre me dirigia a eles em português. Falo alemão com outras pessoas, mães e crianças, mas com Frederick e Lydia Myrthes, só português. Canto músicas brasileiras (infantis ou não) para eles, leio livros em português (ou faço tradução simultânea ou espontânea dos livros em alemão), mostro-lhes filmes e músicas em português no computador, e estou sempre procurando novas oportunidades para falar de algo novo para eles. Aflige-me de uma maneira significante que outros brasileiros, também pais e mães de crianças bilingues, falem português de maneira errada ou misturando muitas palavras da língua alemã, por exemplo. Parece-me como se eles estivessem deixando de oferecer uma oportunidade incrível aos seus filhos de aprenderem as duas línguas perfeitamente. Talvez eles tenham outros objetivos com a educação bilingue de seus filhos.

Os meus objetivos na educação bilingue dos nossos levam à exigência que imponho a mim mesma: Falar português corretamente (com riqueza de vocabulário e gramática correta), de maneira consequente e consciente.

Isso é trabalhoso, como muitos outros pais na mesma situação bem sabem; requer paciência, dedicação e um olhar constante no dicionário (que deve estar sempre à mão), um controle pessoal para não misturar as línguas, nem mesmo uma só palavra, ou falar outra que não o português, e uma busca constante de novas fontes de vocabulário. É a esse trabalho que eu tenho me proposto, com todo zelo e carinho, nos últimos cinco anos e alegro-me de já poder ver bons resultados.
Importo-me, e muito, com o fato de que eles não falem um português errado e ruim. Mas isso não significa que eu os imponha a falarem corretamente ou os corrija constantemente. Busco, primeiramente, falar bem e corretamente”.

PB – Mas e só falar português já basta?
AM –“Por que vocês se sentem brasileiros?”, perguntei para meus filhos um dia. Responderam-me: “Porque você só fala ‘brasileiro’ com a gente!” O “sentir-se brasileiros” e o sentimento de afinidade deles pelo Brasil, sua brasilidade, tem, assim, na língua, o primeiro referencial e essa baseada no que digo, leio, converso e comento com eles.

Mas a língua não é tudo. Tem um “algo mais” para que eles se sintam brasileiros. A cultura brasileira faz parte da vida deles. Eles aprendem não só músicas infantis mas também as músicas que canto e ouço. E todo texto é motivo para perguntas, muitas perguntas, e com isso vou ensinando a eles sobre as cidades, as situações e as realidades brasileiras. O Brasil faz parte das brincadeiras deles e não é só por pura imaginação. Todas as informações que eles recebem sobre o país são assimiladas e utilizadas.

PB – E esse processo de contextualização da língua não pode ficar só a cargo dos pais, não é mesmo?
AM – Com a família, parceiros primordiais, as crianças observam que elas aprendem português não só para falar comigo. Existe o estímulo a mais do aprendizado quando eles constatam que podem se comunicar, sem dificuldades, com parentes, amigos e outras crianças e pessoas no Brasil. Esforço-me em manter um contato constante das crianças com a minha família e alguns amigos que eles já conhecem, seja por meio de estadias longas no Brasil ou de visitas de familiares e amigos em nossa casa. Isso não só os estimula a falar mas a aprender cada vez mais sobre o Brasil. Cada uma dessas pessoas apresenta informações diferenciadas e variadas sobre o nosso país e suas realidades para as crianças. Assim, a fonte de informação delas não se limita a mim, que já moro fora do Brasil há quase 10 anos, mas se expande a todos familiares e amigos no Brasil. Eu os animo, por exemplo, a falar sempre com a família pelo Skype, um meio barato de manter contato constante, e existem pessoas de referência para eles no Brasil (por exemplo, a tia Duda):
– Por que vocês gostam do Brasil?
– Porque a gente gosta da Duda. Se não existisse o Brasil, não existia a Duda.”
Por fim, nosso parceiro, aliado, mais importante: a “Estrelinha”. Temos a sorte de ter nossas crianças numa instituição como a “Estrelinha”; é um privilégio elas poderem frequentar, já antes dos dois anos, uma creche e um jardim de infância teuto-brasileiros em Munique. Por que? A “Estrelinha” significa muito mais do que o contato social com outras pessoas falando português. Ela proporciona às crianças um conhecimento abrangente da cultura brasileira.

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Para mais informações sobre esse belíssimo trabalho, visite http://www.estrelinha-kinderhaus.de

ATUALIZAÇÃO (maio, 2016): A e.V. Estrelinha foi premiada na categoria Escolas/Iniciativas do Prêmio PLH 2016 durante a III Conferência sobre o Ensino, Promoção e Manutenção do Português como Língua de Herança, em NY.

 

Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.
© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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