A importância do grupo no desenvolvimento da linguagem

Luciana Lessa, PhD
Coluna Falando

Qual a importância de grupos sociais no desenvolvimento da linguagem?
Esse tema é particularmente interessante para os brasileirinhos, que no seu convívio diário, não necessariamente interajem sempre com seus pares (outros filhos de brasileiros que vivem nos EUA). Assim, nosso objetivo é mostrar a importância de buscar envolver os brasileirinhos em atividades de grupo que envolvam o uso da língua portuguesa.

Começamos partindo do exemplo de como atividades em grupo em contextos terapêuticos, com crianças que precisam do apoio de um profissional para o sucesso de seu processo de desenvolvimento de linguagem.

Na Fonoaudiologia, a prática de atendimentos em grupo se iniciou no final da década de 1980, com a finalidade de diminuir as listas de espera dos pacientes que aguardavam por vaga nos atendimentos em serviços públicos. Essa prática foi sendo repensada ao longo dos anos, uma vez que as atividades em grupo se mostraram extremamente benéficas para o desenvolvimento da linguagem e, consequentemente, novos saberes começaram a ser produzidos nessa temática.

As atividades em grupo passaram a ser pensadas por uma perspectiva que entende que mudanças individuais relacionadas ao desenvolvimento da linguagem tem sua raiz na sociedade, na cultura.

“Todas as funções no desenvolvimento da criança aparecem duas vezes: primeiro, no nível social, e, depois, no nível individual” (Vygotsky, 1998, p. 75). Assim, podemos dizer que o desenvolvimento de linguagem origina-se das relações reais entre indivíduos humanos.

Para Bagno (2002) a língua não é uma abstração, ela é tão real quanto os seres humanos que fazem uso dela. Para esse autor, a língua pode ser considerada como uma atividade social, ou seja, “um trabalho empreendido conjuntamente pelos falantes toda vez que se põem a interagir verbalmente, seja por meio da fala, seja por meio da escrita” (p.24).

Se o desenvolvimento da linguagem é intrínseco às relações sociais, não é à toa que um grupo possa ser tão positivo nesse processo, afinal, se trata de uma estrutura fundamentalmente interacional, ou seja, que promove a interação social entre seus membros. É importante destacar que quando falamos em grupo, não estamos apenas nos referindo a um agrupamento de pessoas.

Um grupo não é apenas uma somatória de pessoas e existem algumas condições para que possamos dizer que um agrupamento de pessoas está funcionando como um grupo, tais como:

– interação social;
– algum tipo de vínculo;
– construção de interesses em comum.

Portanto, para se ter um grupo, é necessário que os integrantes estejam reunidos em torno de um projeto comum. Assim, um grupo se forma pelas relações entre seus membros, pela articulação em torno de objetivos comuns e pela criação de um contexto específico para suas necessidades.

Desse modo, um grupo passa a possuir características que auxiliam seus membros a se reconhecer como pertencentes de um objetivo que integra várias pessoas, a perceber que suas dificuldades podem ser beneficiadas pela facilidade de outro membro do grupo (e vice-versa), ou então a identificar dificuldades em comum com outros participantes, o que faz com que cada um possa avaliar que muitas dificuldades são bastante comuns e, consequentemente, faz com que consigam lidar melhor com o processo de aprendizado.

No caso do processo de aquisição de linguagem, tais características produzem efeitos muito positivos no desenvolvimento das crianças. Fatores como o sentimento de pertencimento a um grupo, ou o sentimento de reconhecer suas facilidades e dificuldades em outros indivíduos têm particular importância em grupos sociais como os brasileirinhos.

Uma criança que está aprendendo a língua portuguesa em um país que não fala essa língua pode se sentir desmotivada se não encontrar pares, parceiros sociais com quem possa partilhar e vivenciar esse aprendizado.

...

Nossa sugestão aos pais de brasileirinhos é que busquem encontrar espaços que promovam a realização de atividades em grupo envolvendo o uso da língua portuguesa e que tentem manter tal atividade sempre presente na vida dos brasileirinhos.

A oportunidade de ver seu filho fazendo parte de grupos em duas diferentes línguas pode ser duplamente gratificante!

Referências Bibliográficas
BAGNO, M, STUBBS, M., GAGNÉ, G. Lingua materna: letramento, variação e ensino. São Paulo: Parábola Editorial, 2002.
VYGOTSKY, L.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984

Luciana Lessa é Doutora em Linguística, é parte do corpo docente da Georgia State University e participa de importantes grupos de discussão sobre a aquisição da linguagem falada e escrita. É autora da coluna Falando na Plataforma Brasileirinhos e diretora do grupo de discussão e formação de professores da Brasil em Mente.

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