Me dê motivo…

Por Keiko Thomas-Shikako, PhD

A gente já falou aqui sobre como brincar é coisa séria, classificada e atestada como componente crucial à saúde , sobre como usar os sentidos para brincar e sobre como resgatar jogos e brincadeiras da terrinha com nossos brasileirinhos. Hoje vamos falar sobre os motivos que levam uma criança a brincar, ou melhor, sobre qual é o tipo de motivação que crianças precisam para brincar mais e melhor. Porque se brincar é importante para a saúde e desenvolvimento, há de se dar bons motivos para que cada criança brinque com seu pleno potencial e tire o melhor de cada oportunidade lúdica.

Começamos pensando em nós, adultos. A definição do brincar em qualquer idade da vida, é aquela atividade que você faz por prazer, por escolha, na qual você encontra o “flow”, aquele momento em que você realmente se desconecta das tensões, das regras, do pensamento “que faz sentido” e se “joga” na fluidez do momento, submerge na atividade. Motivação é o motor por trás de qualquer ação (Ryan & Deci, 2000).Há quem faça exercício para emagrecer, para manter a saúde e encontre nisto um prazer indispensável (não é meu caso! Mas eu já ouvi falar!). Há quem toque um instrumento e fazendo isso se perca completamente na música e quem adore cozinhar e consiga relaxar de toda e qualquer tensão com um pote, farinha e ovos na mão.

Independentemente da atividade que te leve à este momento, que pode então ser chamado de “brincar”, todas elas são iniciadas por uma motivação. Adultos são seres que precisam de motivação, crianças, ao contrário, são seres que a priori, não precisam de motivação para brincar. Quem já andou pela rua de mão dada com alguém de 3-5 anos através de um parque, pode atestar para a facilidade e a completa ausência de motivos que aparentemente iniciam uma brincadeira.

No entanto,nem sempre nossas crianças têm a oportunidade de brincar sem motivo, o que por si só já representa um probleminha estrutural da nossa sociedade pós-moderna.

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Entre carros com DVD embutido que não dão a chance de olhar o mundo passando pela janela,  caminhadas quase sempre apressadas entre a saída da escola e a aula de música, de ginástica, de ballet, de natação e “play-dates” temáticos, há poucas oportunidades para que as nossas crianças encontrem tempo para se auto-motivarem. Com tanta motivação “externa”, sobra pouco espaço para motivação interna.

Some a isso (e talvez até mesmo por causa disso) o aumento exponencial de diagnósticos de autismo (ou transtornos globais do desenvolvimento) e déficit de atenção e/ou hiperatividade, outras deficiências do desenvolvimento e da coordenação e nós estamos frente a um cenário onde a motivação para o brincar precisa ser resgatada, se quisermos resgatar o brincar em si, e seus muitos benefícios.

A motivação, de acordo com a ciência, tem alguns fatores importantes: os instrumentais (persistência frente à desafios), os emocionais (reações negativas e positivas) e os ligados à capacidade física, cognitiva e social (Morgan et al., 2000).

Por exemplo, crianças que apresentam mais problemas de comportamento, ou reações claramente negativas ao fracasso, tendem a brincar mais de coisas passivas, solitárias e sem estrutura pré-definida (sabe aquele menininho que se frustra muito por não conseguir encaixar um bloco no outro e joga o bloco no amigo “só de raiva”?, diferente daquele outro que quando não consegue encaixar o mesmo bloco depois de tentar 20 vezes deixa o bloco pra lá e vai brincar de outra coisa?). Enquanto que aquelas que são mais persistentes tendem a brincarem mais de atividades físicas, jogos de equipe e participam mais em atividades de lazer em geral (Majnemer et al., in press). Parece óbvio, mas quem já parou pra pensar no porquê do seu filho/aluno/vizinho/filho da amiga bater tanto nos coleguinhas da creche? Ou no porquê a outra fulaninha (é sempre mais fácil ver no filho dos outros do que nos nossos) não quer saber de jogar vôlei, futebol ou outro esporte qualquer? – Talvez, lhes faltem a motivação certa.

A motivação “certa” no caso do brincar, tem a ver com entender qual atividade a criança prefere (e não qual está sendo proposta pela professora, pelos pais, pelo “curso”), e qual é o tipo de atividade que pode trazer: AUTONOMIA, COMPETÊNCIA e PERTINÊNCIA, ou seja, aquela atividade onde a criança pode dizer: “eu me identifico”, “ eu consigo”, “eu pertenço”.

 
Como este espaço aqui é de brasileirinhos, não posso deixar de pensar no que os motiva a participarem de atividades e espaços que também contribuam para este senso de pertinência não só à atividade, mas também à uma outra cultura. A motivação de se “embrasileirar” dependerá sim da nossa capacidade de “emprestar” a motivação, de criar espaços “seguros”, oportunidades “altamente motivadoras”  com o grupo de amigos que favoreçam a identificação. Estas oportunidades deverão estar permeadas de cultura, língua,  jogos e tradições que poderão assim favorecer uma automotivação dentro deste repertório brasileiro (se eu lí um gibi da Turma da Mônica, eu me identifico e me motivo a brincar de “Mônica e Cebolinha” com meu irmão, e fazer de conta que estou passeando no bairro do Limoeiro, enquanto a neve cai do lado de fora da janela).

Enfim, toda criança explicita ou implicitamente pede: “me dê motivos…” e não é pra ir embora. É pra brincar livremente, de um jeito que os transporte para um lugar bom, um lugar para crescer e ser feliz. Dê o motivo certo, ajude-as a encontrarem o motivo certo, e elas ficarão com a cultura verde e amarela e com a alegria que vem de brincar.

Referências bibliográficas:
Ryan RM, Deci EL. (2000) Self-determination theory and the facilitation of intrinsic motivation, social development and well-being. American Psychologist, 55: 68-78.

Morgan GA, Leech NL, Barrett KC, Busch-Rossnagel NA, Harmon RJ. The Dimensions of Mastery Questionnaire (manual). Colorado State University, 2000.

Annette Majnemer1,2, Keiko Shikako-Thomas1,2, Lucy Lach2, Michael Shevell2, Mary Law4, Norbert Schmitz3 and the QUALA group. Mastery motivation in adolescents with cerebral palsy (in press).

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