Língua e identidade

Por Luciana Lessa, PhD
Coluna Falando

O que significa ser falante de uma língua? Ser falante de uma língua seria ser capaz de falar, compreender, ler e escrever nessa língua? Essa definição parece abrangente o bastante? E se você se mudasse de país? Será que aprender a língua desse outro país e aos poucos, no dia-a-dia, deixar de lado sua língua materna seria a melhor opção? Por que temos tanta dificuldade em desgrudarmos de nossa língua materna mesmo vivendo em outro país, se desenvolvemos proficiência na comunicação em outra língua?

passaportesNo blog Brasileirinhos, a importância cultural e pessoal do uso do português por brasileiros que imigram para outros países é enfatizada em quase todas as postagens. E essa valorização, dentre outros fatores, se deve ao fato de que “a inserção de qualquer falante na língua é sempre altamente pessoal, circunstancial, e isso faz da língua um fator de identificação muito eficaz; […] as pessoas se identificam com uma língua, ou se identificam entre si através de uma língua” (ILARI, 2004).

Nesse post, a insistência na questão de valorização do uso do português por brasileiros que vivem no exterior e de seu ensino como língua de herança para os brasileirinhos se deve ao fato de ainda encontrarmos muitos pais brasileiros que, por alguma razão, escolhem não ensinar aos seus filhos o português. Dentre essas razões podemos citar, por exemplo:
(a) a crença de que o aprendizado simultâneo de duas línguas prejudique o desenvolvimento linguístico de seu filho,
(b) o receio de preconceitos por parte de americanos, e,
(c) de modo mais interpretativo, uma percepção de que não seja considerado importante passar para os filhos a herança de ser brasileiro, ou melhor, de que talvez se queira deixar apenas na história a identificação com o português.

As duas primeiras razões podem ser respondidas pelos argumentos expostos no post Desmistificando o bilinguismo onde se podem encontrar informações de que o aprendizado simultâneo de duas línguas é extremamente benéfico para as crianças e não trazer qualquer prejuízo para seu desenvolvimento linguístico (muito pelo contrário). Assim, os pais não precisam se preocupar que os filhos não aprenderão o inglês e, com isso, sofram qualquer preconceito por conta disso.

A terceira razão – uma aparente negação em que os filhos aprendam a língua materna do(s) pai(s) – leva-nos a pensar na qualidade da interação do pai ou da mãe brasileiro(a) com seu(s) filho(s).

De acordo com Ilari (2004), “todo falante tem na sua língua materna uma primeira orientação para a percepção do mundo”.

Ou seja, ter o português como língua materna não significa apenas saber falar, ouvir, ler e escrever em português, mas, muito além disso, ter uma ligação pessoal muito forte com a cultura de onde se viveu por tanto tempo, com um modo de pensar e de interagir que fez parte de nossa formação pessoal. Poder passar isso adiante é um modo de manter viva, diariamente, uma parte importante de nossa história. E, talvez, podemos também dizer que seja um modo de aproximar e incentivar o afeto, de criar um vínculo mais íntimo entre pai, ou mãe brasileiro(a) e filho(s), um vínculo que resgata a história e a identidade do pai ou da mãe brasileiro(a).

Muitos podem se perguntar: porque é necessário manter uma interação em português, se em inglês a interação com meus filhos funciona do mesmo modo? Não sei se poderíamos dizer que é do mesmo modo apenas pelo fato de que, de qualquer jeito, existe comunicação. O fato é que os ensinamentos, os sentimentos, a educação que queremos transmitir não podem ser traduzidos sem distorções de uma língua para outra. Se pretendemos falar, em inglês, algo que aprendemos no português, muitas vezes sentimos dificuldades nessa tradução. Isso não se deve apenas a diferenças na estrutura linguística entre as línguas, mas muitas vezes, se deve ao fato de que traduzir de uma língua para outra é sempre uma interpretação possível; nem sempre se encontram em outras línguas palavras com o mesmo grau de complexidade, formadas pelo mesmo fenômeno linguístico.

Cito integralmente um trecho do texto de Ilari (2004):
“Já se disse que certas palavras apareceram em certas línguas porque o povo que as falava tinha um interesse singular pelas realidades que elas exprimem, e que por esse motivo elas não podem ser traduzidas. Um exemplo célebre é a palavra ‘saudade’ que teria sido inventada pelos portugueses e que não teria um equivalente adequado em outras línguas (“nostalgia”, “regret”, “homesick” seriam, invariavelmente, traduções falhadas). Acreditar que somente os portugueses são capazes de sentir saudade é uma grande bobagem, mas a ideia de que a palavra portuguesa “saudade” é mais densa em português do que o são suas traduções em línguas antigas e modernas não é de todo absurda.” (ILARI, 2004).

A língua, mais do que um instrumento de comunicação, é também o registro de um enorme trabalho coletivo já feito para descrever os mundos em que vivemos. Assim, cada língua carrega consigo as singularidades e a identidade de um povo. Transmitir essa herança para seu brasileirinho não é apenas um modo de beneficiá-lo com o aprendizado de duas línguas; é, também, e igualmente importante, um modo de beneficiar os pais brasileiros na manutenção e valorização de sua identidade.

Referências Bibliográficas
ILARI, R. Reflexões sobre língua e identidade. Anais do 6º Encontro Celsul – Círculo de Estudos Linguísticos do Sul. Florianópolis/SC, 2004.

Luciana Lessa é Doutora em Linguística, é parte do corpo docente da Georgia State University e participa de importantes grupos de discussão sobre a aquisição da linguagem falada e escrita. É autora da coluna Falando na Plataforma Brasileirinhos e diretora do grupo de discussão e formação de professores da Brasil em Mente.

3 comentários em “Língua e identidade

  1. Agradeço pelo artigo e por muitos outros que leio aqui no blog. Sou brasileiro, moro em Barcelona e tenho um filho de 2 anos de mãe espanhola. Me motivo cada vez mais a continuar transmitindo minha lingua materna e cultura ao meu filho cada vez que leio as publicações do Brasileirinhos. Um abraço

    1. Que legal ouvir isso, José Eduardo.
      Muita sorte e sabedoria na sua jornada com seu filho.
      Você colherá lindos frutos, com certeza.
      Um abraço

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