Growing up global

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Por Felicia Jennings-Winterle
Coluna LIP/ Editorial

Growing up global: raising children to feel at home in the world é o tipo de livro que a gente deixa na cabeceira e lê um pouquinho por dia, nem que seja de novo e de novo, só porque as palavras são tão aconchegantes.

Homa Savet Tavangar, executiva de sucesso e escritora do livro, inicia contando suas experiências morando três meses no Gâmbia com suas duas filhas americanas. Ela é Iraniana e sua família inclui diversas descendências. Exatamente por isso decidiu prover uma experiência positiva com a cultura do mundo para suas filhas; experiência esta que nenhuma escola particular, ou pública, poderia oferecer nos EUA.

Tavangar nos leva ao redor do mundo através da noção de que para conhecer o outro, é preciso que sejamos amigos – amigos verdadeiros. Assim, ela ensina como ser um amigo, como saudar um amigo, como brincar, ir à escola, cozinhar e experimentar outras cozinhas, acreditar no que outros acreditam, celebrar festividades internacionais, assistir filmes e como manter tal amizade por um longo, longo tempo.

O livro faz diversas críticas à sociedade americana, especialmente às escolas, que parecem não estar acompanhando o processo de globalização, enquanto filosofia, e enquanto possibilidade de amizade. Ela diz em sua introdução:

“Eu acredito que haja outra razão muito importante, mesmo que menos idealística para ler esse livro e pô-lo em uso. Nós vivemos em um mundo que muda rapidamente, no qual sabemos que a globalização determina nossas vidas e que é um grande determinador em nosso sucesso financeiro e em nossas carreiras. Ao mesmo tempo, nossas fronteiras parecem mais fechadas do que nunca. O medo de terrorismo, de empregos serem enviados para outros países e de imigrantes – legais ou ilegais – se juntam a menos diversidade cultural e racial na maioria das escolas americanas, o que acaba determinando políticas públicas e nossa exposição no mundo”.

É o que ela chama de dicotomia mundo aberto/mundo fechado. Em uma de suas viagens a negócios na China, ela percebeu que a sociedade de lá tinha em mente que suas crianças tinham um destino marcado com a economia mundial. Ela ficou impressionada como os pais chineses sabiam que precisavam oferecer a seus filhos ferramentas que os ajudassem a navegar em um mundo em constante mudança.

“Se crianças aprendessem mais sobre histórias, jogos e canções de crianças árabes (por exemplo), talvez as imagens de palestinos ou iraquianos não parecessem tão ameaçadoras e confusas à elas. Senso comum, assim como dados científicos, demonstram que uma consciência internacional em crianças leva à formação de adultos mais efetivos num meio-ambiente global”.

Em outras palavras, “não sabemos o bastante sobre outros países”.

“Pais deveriam incorporar o conceito de consciência internacional e de cidadania mundial como um de seus valores familiares (…)Educar crianças com uma mentalidade mais global poderá ser o maior passo que você e sua família tomarão em direção a um mundo mais pacífico – e começa em casa (…) se nós lembrarmos que crescer com uma perspectiva global é realmente um processo para a vida toda e não um destino final – você não só chega lá – qualidades como humildade, curiosidade e compaixão são nutridas. E essas são as virtudes de um verdadeira amigo, de um cidadão do mundo”.

Capítulo 1 – Seja um amigo
O livro começa então explicando que ser um amigo é o primeiro passo para se desenvolver uma perspectiva realmente global, o que Tavangar baseia na frase de Abdul-Baha, “Ser um amigo de toda a raça humana”. Para tal, deve-se nutrir virtudes universais que formem uma fundação para uma comunicação genuína em qualquer situação cultural – honestidade, respeito, paciência, generosidade e empatia. Essas virtudes fazem parte da “Regra de Ouro”, mensagem que diversas religiões e filosofias mundiais incorporam.

“A ‘Regra de Ouro’, se carregada ao coração, cria uma ponte entre o saber sobre diferenças, de práticas culturais, linguagens e sistemas religiosos, e a internalização de uma profunda empatia e harmonia com o resto da humanidade”.

Assim, Tavanagar oferece cinco dicas que facilmente podem começar a produzir mudanças que continuarão efetivas ao longo dos anos.

1) Mantenha o mundo na ponta das suas mãos: compre um globo e mantenha-o num lugar central em sua casa. Subscreva-se à uma revista para crianças que traga o mundo até elas, como a National Geographic for kids.
2) Surfe pela internet: Procure por diversos sites que ofereçam perspectivas globais às crianças. Alguns exemplos: http://www.wonderfulworld.org e websites sugeridos pela American Library Association.
3) Encontre livros bonitos: livros que falem sobre as belezas das diferenças culturais, como por exemplo, A life like mine: how children live around the world, organizado pela Unicef.
4) Enriqueça sua playlist e coleção musical: Revolucione a forma como você ouve música. Utilize-se das vantagens do Itunes e crie playlists com músicas do mundo todo para dançar, chorar, inspirar-se, etc.
5) Faça seu passaporte: Você sabia que 65% dos americanos não tem passaporte? Mesmo que você não tenha planos de viajar internacionalmente, com o passaporte na mão, você vai estar pronto para embarcar, assim que se planejar.

Tavanagar lembra também que sempre deve existir distinção entre pessoas e políticas.

“Será difícil ser um amigo da raça humana se nós deixarmos que políticas de governos ou de minorias determinem nossa visão de um povo, de um país ou de uma religião”.

O capítulo é finalizado com o que fazer e o que não fazer ao conhecer amigos com backgrounds diferentes.
-Espere para conhecer bem alguém antes de perguntar sobre suas experiências pessoais, como sobre o porquê eles mudaram-se para seu país.

-NÃO comece com religião, política ou mesmo negócios.

-Convide pais e filhos para brincarem em sua casa ou em um local neutro, como um parquinho para um contato inicial.

-Tente incluir  crianças de diversos backgrounds para festinhas de aniversários e convide seus pais para ficarem também.

-NÃO comece uma conversa com comentários como, Eu amo fazer amigos de backgrounds diferentes

-Seja sensível à restrições dietárias. Procure saber o que é permitido ou não na dieta de seus novos amigos, incluindo bebidas alcoólicas.

-Certifique-se  de que seus filhos tenham brinquedos e livros multiculturais e que assistam programas de tv e filmes que apresentem diversidade cultural e racial.

-Seja atencioso a assuntos que possam provocar esteriótipos raciais negativos.

Capítulo 2 – Saúde um amigo
Saudar um amigo quebra o gelo e traz alegria.

Para começar, seja você mesmo, seja sincero, mostre respeito e preste atenção as dicas que a outra pessoa está indicando.

Savantar dá dicas sobre como saudar pessoas de várias partes do mundo. Por exemplo, com europeus um aperto de mãos é seguramente o que se vê ao redor do continente. Com latinos, saudações começam com um rápido beijinho no ar. O número de beijos depende do país, e no caso do Brasil, como nós sabemos, depende do estado.

Com pessoas do Oriente-Médio, dois ou três beijos na bochecha entre pessoas do mesmo sexo. Evite, porém, oferecer coisas com sua mão esquerda. Árabes consideram isso falta de higiene.

Para asiáticos, as práticas culturais variam muito. Alguns reverenciam, como os japoneses, chineses e coreanos, mas já os mulçulmanos saudam como no Oriente Médio.

Na África, a maioria das pessoas dá as mãos e frequentemente coloca sua mão esquerda no topo da mão direito para mostrar sinceridade.

Neste mesmo capítulo, Tavangar fala sobre a importância da aprendizagem de uma língua internacional, especialmente a língua de herança. Ela conta a história de seu primo ’Alim, que é fluente em 4 línguas, e como a experiência dele pode ensinar lições à outros pais.

Os pais de ’Alim fizeram da linguagem uma prioridade em sua casa e falavam com ele em duas línguas de maneira constante. Além disso, instituindo múltiplas línguas em seu filho, os pais de ’Alim possibilitaram que o cérebro dele se tornasse mais receptivo à aquisição da linguagem, que o ouvido se tornasse sintonizado a sons distíntos de outrs línguas e mesmo os sotaques, passaram longe do desenvolvimento da fala dele.

Capítulo 3 – Brincar
Depois de saudar o amigo, é hora de brincar! A maioria das crianças, Savantar diz, entende perfeitamente a frase de Platão: “Você pode descobrir mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira, do que em uma hora de conversa”.

“Através da brincadeira, pais podem alcançar imediatamente 3 objetivos de se educar uma criança globalmente: primeiro, o brincar junto promove um momento interessante, de qualidade e interatividade com nossos filhos (sem mencionar que os tira da frente da TV e do computador); segundo, pode ajudar a mostrar quantos traços são semelhantes entre culturas diferentes; e terceiro – o outro lado da moeda – pode demonstrar algumas das qualidades que fazem muitas culturas se sobressaírem das outras”.

Ela destaca o futebol como um aliado na educação global, sem deixar de lembrar que é muito interessante assistir aos jogos da Copa do Mundo e as Olimpíadas. Através dessa prática pode-se conhecer nomes de países, suas localidades e bandeiras.

Tavantar diz que o futebol funciona como uma linguagem universal. Ela dá dez dicas sobre como esse esporte pode ser adicionado ao processo de educação global. Visite o site da FIFA (www.fifa.com): através desse portal, que é uma grande janela para o mundo, as crianças e adolescentes podem descobrir o que fãs do mundo todo pensam, fazem a respeito do futebol, e sobre seus países. Comece a seguir alguns times internacionais. Você pode fazer sua escolha baseado em seus países favoritos, ou do qual você é descendente. No mesmo site da FIFA você pode conhecer muito sobre esses times.

Torça pelo USA: Savantar nos lembra que não existe problema nenhum em ser patriota enquanto se cresce globalmente. Fique de olho nos times americanos, junte-se aos fãs. Como vão as mulheres e garotas? Procure saber que países tem times profissionais femininos. Vista a camisa de um time feminino e vá aos jogos. Os ingressos são geralmente mais baratos que os dos jogos masculinos. Monte um grupo e vá celebrar um aniversário, por exemplo.

E não só o futebol. Jogos de tabuleiro são outro exemplo de diversidade cultural. Procure saber a história do jogo favorito de vocês. Jogue jogos tradicionais de outros países. Você nem precisa saber a língua deles para jogar. Visite o mundo jogando amarelinha e contando em diversos idiomas. Brinque também com jogos que requeiram uma olhada no globo ou em um mapa, ou que requeiram conhecimentos sobre história e geografia mundiais.

Capítulo 4 – Vá para a escola
Talvez meu capítulo favorito. Dá uma puxada de orelha naqueles que pensam que o jeito americano é ideal em tudo, e sem falhas. Em se tratando de educação, os Estados Unidos chegam por último em todos os testes mundiais, ela nos conta.

“Nosso sistema de educação americano precisa oferecer um curriculo e formar uma comunidade que permitam que crianças vindas de todos os backgrounds econômicos se especializem como cidadãos globais”.

Savantar explica então como o sistema americano tem falhado em educar cidadãos globais. Por exemplo:

“Nos Estados Unidos, matérias de estudos sociais do primeiro ao décimo segundo ano (ensino fundamental e médio) focam quase que exclusivamente nos EUA, com pelo menos dois anos no ensino fundamental devotados ao seu próprio estado. No nono ano, uma classe de Cultura Mundial pode ser introduzida, e no décimo, história europeia, mas de volta à história americana nos últimos dois anos. Desta forma, a mensagem que as escolas estão enviando as crianças é a de que nosso foco intelectual deva ser primeiro em nós mesmos. A maior parte da aprendizagem sobre outros países, culturas, crenças, até a idade de 18 anos, vem na forma de guerras que foram guerreadas pelos EUA ou por um dia de diversão multicultural que a escola venha a oferecer, por ano”.

Savantar nos lembra, porém, que as mudanças no ensino devem partir de um maior respeito e prestígio ao professor. É preciso atrair pessoas inteligentes, e não somente educadas. É preciso investir em formação de professores. Noções sobre a importância de uma educação global poderiam ser passadas em treinamentos, e estes conhecimentos com certeza não interromperiam o currículo normal.

Savantar dá instruções aos pais e professores interessados em uma educação global para que estes possam enriquecer seus ensinamentos em casa e na escola, e finaliza positivamente:

“Enquanto as crianças dos EUA estão entre os mais baixos números entre as nações ricas e as manchetes deveriam preocupar os leitores em relação ao futuro, esta nação ainda produz as maiores invenções, tem a maior economia e continua quebrando recordes todo ano pelo número de novos imigrantes que querem construir seus sonhos aqui. Mesmo que exista grande motivo para preocupação, reforma e interação da sociedade, tal mudança não deve ser motivada por pânico e crise. Esta é uma grande possibilidade para se construir”.

Tavantar cita escolas que já adotaram o modelo internacional, no estado de Seattle e Chicago, por exemplo. Estas escolas conseguiram ultrapassar a preocupação com testes e pontos nacionais e apresentam uma visão muito maior. Crianças podem se formar trilíngues em inglês, espanhol e chinês nesses estados. Estas escolas são inovadoras. O resultado de iniciativas como essas é uma amizade maior e mais forte entre os membros da comunidade local, e da comunidade mundial, educando cidadãos globais.

Nos capítulos 5 – 9, Savantar dá dicas sobre como integrar a cozinha, as crenças, as celebrações do mundo todo. Dicas simples sobre como ir a restaurantes étnicos e perguntar se eles tem um menu infantil. Ou como visitar igrejas e conversar com as crianças sobre as ligações com a sua própria religião. As informações e recursos oferecidos nesses capítulos são valiosíssimas e é por causa delas que este livro deveria ficar em sua cabeceira.

Uma última citação:

“Escolher entre nosso país e o resto do mundo não deveria entrar em questão. Somos locais e globais e nunca somos jovens demais ou velhos demais para começar. Sem ter na bagagem tantas experiências que possam fazê-las preconceituosas, nossas crianças podem, com frequência, guiar-nos. Pense em três atividades globais que você queira experimentar com a família neste próximo mês. Escreva-as e coloque num cartaz num lugar visível em sua casa. Em seguida, faça-as. Toda família pode se expressar globalmente de maneiras diferentes de acordo com suas dinâmicas, interesses e circunstâncias. Faça o que funciona para vocês. Todas as pessoas com as quais conversei para esse livro concordaram de um jeito ou de outro que se tornar um cidadão global é um processo para a vida inteira, e não um produto final. Todas as diferentes ideias e abordagens espalhadas por essas páginas ajudam a abastecer a viagem e torná-la real. É uma longa estrada, então vamos tratar de aproveitar a viagem”.

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Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.
© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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