Da cabeça ao coração

Por Keiko Thomas-Shikako, PhD

Hoje fui com as crianças ao teatro, e por conta disso tive que mudar o tema deste post. O teor é menos teórico, e mais reflexivo, mas veja bem que é pra isso também que serve a arte, e porque não também o brincar. Para nos fazer refletir, aplicar, expandir a caixola. A peça, “Head to Tête”, foi escrita durante a guerra fria, com o intuito de propor um diálogo sobre a paz e sobre como resolver diferenças, adivinhem como….sim, brincando. Mais que isso, pertinente como só para este blog, a peça falava de como resolver diferenças de língua e cultura, brincando. Achei fantástico.

No cenário proposto, um mundo que chegou ao fim, um barco, chamado Esperanto (adoro detalhes espertos) meio que naufragado ao lado de um carro meio que soterrado no centro do palco, de onde nasce uma última e remanescente árvore que dá frutos “ao vivo”, ao lado da qual, um personagem muito amedrontado que mora dentro de uma caixa, encontra o outro “espécime” de sua espécie.

O título, “Head to Tête”, remete ao fato de que em inglês, a expressão “Head-to-Head” remete a um conflito ou competição, enquanto que a mesma expressão, em francês “Tête-à-tête”, conota um encontro íntimo. Os personagens, “adultos mas que parecem crianças, mamãe! Porque eles só ficam brincando e brigando o tempo todo! Adulto não faz isso!” (de acordo com meu filho de 6 anos), falam línguas diferente, um inglês, outro francês.

Não só falam, mas “agem” em línguas diferentes, algo que meus filhos, brasileirinhos canadenses talvez não tenham captado. Eles passam a peça inteira sem entender um ao outro, em uma hilária torre de Babel. Em diálogos paralelos, cada um na sua língua, acabam disputando pelas últimas frutas da árvore, até que destroem a árvore inteira. Não satisfeitos e não em acordo, acabam por destruir também os únicos objetos de valor dos seus “oponentes”, um ursinho velho encardido que pertencia à “Please” , e um fone de ouvido que tocava música imaginária que pertencia a “Moitie” – nomes estes que foram “assumidos” pelo outro durante as tentativas de diálogo.

A destruição dos únicos objetos significativos (para o desespero da minha filha de 4 anos, que abraçou bem forte o seu Sansão de pelúcia, na hora que Moitie arrancou o braço do ursinho de Please), que não por coincidência eram brinquedos, que restavam no mundo de cada um, finalmente une os dois, que entram em acordo ao perceber que se entendem ao falar “okay”. “Okay, okay”, é o mote que abre as portas para o diálogo, quando um, pedindo perdão “je m’excuse” (me perdoe), acaba por perdoar ( “I’m excused?”) o outro.

brincandoaoarlivreA peça, além de super pertinente à realidade bilíngue de Montreal, e de tantos outros cantos por aí, é hilária, ao mesmo tempo que tocante para os filhotes trilíngues, e foi para mim uma perfeita tradução do poder do brincar para unir. Crianças não brigam de verdade, não por causa de língua, ou de diferenças culturais. Crianças, quando juntas e em qualquer língua, brincam. Não só brincam, mas brincando, aprendem sobre a cultura um do outro, aprendem a respeitar o que é importante para o outro, aprendem a compreender os valores, os espaços, os significados da língua e das ações. O brincar traz sentido à conceitos intangíveis como respeito, tradições, significado, limites.

É por esta, e tantas outras razões, que brincar, em português, em “brasileiro”, é tão importante para nossos brasileirinhos que moram “de fora”. Com oportunidade de brincar, eles poderão realmente entender e assimilar a nossa cultura, e ao mesmo tempo, terão a oportunidade única de enriquecer a cultura de onde eles estão criando pontes de “esperanto”, abrindo oportunidades de diálogo que irão certamente mudar, pra melhor, a cultura e as ideias de outros gringuinhos, que irão favorecer o diálogo da paz e da aceitação, que extrapolam do brincar para o dia-a-dia, da cabeça, ao coração.

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