A percepção dos sons das línguas e o bilinguismo

Por Luciana Lessa, PhD
Coluna Falando

Por que adultos educados em ambiente monolíngue, quando se propõem a aprender uma segunda língua, apresentam tanta dificuldade para compreender o sistema de sons dessa segunda língua? O que acontece que parece existir um bloqueio para brasileiros educados em ambiente monolíngue perceberem diferenças entre algumas consoantes e, especialmente, entre algumas vogais do inglês americano? O inverso também ocorre, quando um americano busca aprender o português brasileiro, tendo dificuldades em perceber as diferenças entre “fila” e “filha”, por exemplo.

Hoje vamos pensar como o bilinguismo pode favorecer as pessoas em sua capacidade de perceber os sons de duas línguas sem essas mesmas dificuldades. Antes de tudo, como o termo bilinguismo é muito amplo e complexo, é importante pontuarmos que, o que está sendo chamado de bilinguismo neste texto corresponde ao aprendizado simultâneo de duas línguas, ou seja, ao caso de pessoas que são expostas a duas línguas desde o nascimento.

No que se refere à percepção dos sons, ao nascimento, temos a habilidade de perceber todos os sons de qualquer língua (Bates, 2003). O que acontece com quem é exposto a um ambiente monolíngue? Ao longo do tempo, sua percepção auditiva relacionada aos sons das línguas vai se restringindo aos sons que fazem parte do repertório linguístico da língua que está exposto. Isso acontece porque durante o processo de aquisição de linguagem, aprendemos a reconhecer os sons que produzem diferenças nos significados das palavras, ou seja, os sons que são linguisticamente significativos para aquela língua, como a diferença entre “lh” e “l”, que distinguem, por exemplo, as palavras “filha” e “fila”.

Um americano que busca aprender o português pode ter maiores dificuldades com essa oposição (entre “lh” e “l”) uma vez que ela não é presente no sistema de sons do inglês americano, fazendo com que ele não reconheça a diferença entre esses sons. O mesmo acontece com brasileiros que buscam aprender o inglês como segunda língua no caso de distinções como “th” e “t”, como entre as palavras “three” e “tree”, por exemplo.

Quando buscamos aprender uma segunda língua, a influência de nossa língua materna é muito forte e direciona nossa percepção dos sons da segunda língua. Ao ouvirmos sons da segunda língua que não fazem parte do repertório de sons da língua materna, nossa tendência é aproximar esses sons desconhecidos daqueles mais próximos ao que já conhecemos. Por isso, confundimos o “th” ora com “t” (como em “three” ou “thief”), ora com “f” (como em “think” ou “with”); a nossa percepção auditiva categoriza o som desconhecido dentro de uma categoria estabilizada de nosso sistema de sons já adquirido. Assim, é preciso muito estudo e entendimento das diferenças entre os sistemas de sons das duas línguas para conseguirmos driblar essas dificuldades.

born to hear

Vamos agora retomar a afirmação de Bates (2003) de que, ao nascimento, temos a habilidade de perceber todos os sons de qualquer língua. O que acontece com quem é exposto a um ambiente bilíngue (lembrando que estamos nos referindo ao bilinguismo simultâneo)? Nesse caso, pode-se dizer que, ao serem expostos a duas línguas simultaneamente, indivíduos educados em um ambiente bilíngue preservam o sistema de sons das duas línguas em seu processo de aquisição de linguagem. Isso faz com que esses indivíduos consigam reconhecer os sons presentes nos sistemas de sons das duas línguas sem as dificuldades advindas de influências da língua materna que monolíngues aprendendo uma segunda língua apresentam.

É quase óbvio afirmarmos, assim, que, a nosso ver, uma educação bilíngue proporciona muitos benefícios para as crianças que têm a oportunidade de crescerem expostos a duas línguas simultaneamente; um desses benefícios é o desenvolvimento de uma percepção auditiva capaz de reconhecer praticamente com a mesma eficiência os sons de duas línguas.

As capacidades de percepção de sons são intrinsecamente ligadas às capacidades de produção de sons. No próximo post da coluna “Falando” vamos explicar como se dão as relações entre percepção e produção e como um ambiente bilíngue favorece também o desenvolvimento das capacidades de produção de sons de duas línguas.

Referências Bibliográficas
BATES, E. On the nature and nurture of language. In: LEVI-MONTALCINI, R, BALTIMORE, D., DULBECCO, R., JACOB, F., BIZZI, E., CALISSANO, P., VOLTERRA, V. (Eds.), Frontiers of biology: The brain of Homo sapiens. Rome: Istituto della Enciclopedia Italiana fondata da Giovanni Trecanni, pp. 241-265, 2003.

Luciana Lessa é Doutora em Linguística, é parte do corpo docente da Georgia State University e participa de importantes grupos de discussão sobre a aquisição da linguagem falada e escrita. É autora da coluna Falando na Plataforma Brasileirinhos e diretora do grupo de discussão e formação de professores da Brasil em Mente.

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