A culpa é nossa

Por Andreia Moroni

Fechando o mês do dia das mães, gostaria de abordar algo que parece estar no DNA das fêmeas reprodutoras do século XXI: a culpa. Hoje, aqui na sesmaria em que moro, quer dizer, num grande centro urbano do Brasil, tive que ouvir uma mãe que admiro espernear de frustração porque, apesar de ter curso superior, não consegue exercer a profissão e se vê obrigada a viver na corda bamba profissional, cuidando da casa e de três filhas que são uma graça, mas tendo que se conformar com fazer “um extra” no tempo que sobra livre – porque a mão de obra para serviço doméstico no Brasil está cada vez mais cara (e as condições de trabalho dessa classe profissional cada vez menos indignas, diga-se de passagem) e ela não tem como pagar quem faça todas essas tarefas domésticas que tanto tempo tomam dela.

Mas não é esse o ponto. O ponto é que o mundo mudou e ninguém lembrou de vir nos confirmar (porque todo mundo já suspeita disso há muito tempo) que, com todos esses papéis que as mulheres-profissionais-esposas-donas-de-casa-e-do-seu-nariz-e-seu-desejo-e-ainda-assim-mães podem exercer, não há dia que dê conta com esse número de horas que continua o mesmo.

Porque assim como essa mãe que admiro teve seus cinco minutos de irritação na minha frente, também nesta semana outra mãe que admiro me contou de sua rotina de muitas loucas horas de trabalho com olhos fundos e turvos bem cheinhos de culpa, pois deixa os filhos de seis e três anos na escola o dia inteiro, umas nove horas por dia ou mais, e quase sempre eles dormem no carro a caminho de casa – e adeus, até amanhã, mamãe, na nossa talvez uma hora de convivência entre o café da manhã e a chegada na escola. Mesmo arrastando todas essas trevas, ela ainda assim estava muito grata, porque a escola é bacana, se sensibilizou com o que estava no alcance e agora entrega as crianças jantadas – com o que ela se sente algo menos culpada, pois pelo menos se assegura de que os dois estão se alimentando direito.

A mulher número um é uma profissional frustrada, a mulher número dois é uma mãe frustrada (e o Brasil ainda é um país onde escola é uma coisa de quatro horas ao dia, onde educação em período integral está só começando a entrar nas agendas das esferas públicas e ainda não é o normal, a norma – tudo o que foge disso é de certo modo anormal, veja lá como o ser-mãe se sente).

Mas mãe é mãe em qualquer lugar. Mudam as realidades, os contextos, os países, as línguas e os horários escolares e ela, a culpa, tenho certeza que continua ali. Pelo menos se você é mulher e mora no Ocidente.

E mãe de brasileirinho, encasquetada de querer transmitir esse português inculto e belo, flor do Lácio ou do cerrado, tem uma tendenciazinha a ser ainda mais exigente consigo mesma e com a prole – ao menos nesses quesitos de proficiência linguística. E a prole é a prole, não é a mãe, cresce onde está e não no Brasil, vai virando sujeito de suas aspirações e não é simplesmente objeto do desejo do que a mãe quer – sem falar em contextos linguísticos muitas vezes pouco propícios, muito férteis para a… culpa.

Não precisa confessar, pode guardar para você, mas eu sei que você se culpa pelo seu filho não falar português – ou não falar aquele português do jeito que você gostaria. Aqui é quando eu levanto a mãozinha e espero a vez de falar. Só para dar um recadinho do time dos linguistas.

super mãe

Mãe brasileira provavelmente é um ser que cresceu monolíngue (e a gente não acha nada fácil fazer uma coisa que não sabe lá bem como se faz, no caso, educar crianças bi/multilíngues, algo que não vivenciamos na primeira pessoa lá naquela nossa infância já um tanto distante). E crianças bilíngues não usam cada uma de suas línguas como crianças monolíngues de cada língua usam. Ok, era um lembrete, não era um recado. Mas a gente tem que ter isso bem presente.

Da mesma forma que não dá pra acreditar que é possível ser super mulher, não se sinta enganada como se seu produto da promoção leve dois pelo preço de um tivesse vindo com defeito. Eu acho que essas coisas de “dois em um” só dão certo com coisas muito simples: xampu + condicionador (+anticaspa), e olhe lá que isso só apareceu uns vinte anos atrás.

Por todas as pequenas e grandes culpas que toda mãe enfrenta sozinha num quarto escuro, acho muito positivo estar em contato com outras mães. Para nos sentirmos tão menos loucas. E, no caso das mães de crianças bilíngues, para pensar e descobrir como faz na hora de educar. Se pensarmos que língua é algo que acontece numa comunidade, num grupo de falantes, tudo vai ficar um pouco mais fácil se for possível dizer, pelo menos, que a culpa é nossa.

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