A produção dos sons das línguas e o bilinguismo

Por Luciana Lessa, PhD
Coluna Falando

No último post da coluna Falando, discutimos como o bilinguismo simultâneo mantém a capacidade de percepção dos sons de duas línguas distintas. Hoje vamos falar sobre os benefícios do bilinguismo para nossas capacidades de produção dos sons de línguas distintas.

Retomando rapidamente o que foi dito na coluna anterior: vimos que todos nascemos com a capacidade para perceber todos os sons de qualquer língua. Ao longo do processo de aquisição de linguagem, a capacidade de percepção dos sons das línguas vai ficando restrita à língua em aquisição. Os indivíduos que crescem em ambientes bilíngues mantêm, dessa forma, a capacidade de perceber de modo eficaz os sons que fazem parte das duas línguas a que foram expostos.

O que acontece quando se trata das capacidades de produção dos sons da língua é bastante semelhante, uma vez que, assim como na percepção, nossas habilidades de coordenação de gestos articulatórios na produção dos sons vão se restringindo para aqueles necessários para produzir sons da língua em aquisição; percepção e produção vão se desenvolvendo, desse modo, numa relação de interinfluência.

Para pensarmos nos benefícios que o bilinguismo possibilita é sempre interessante pensarmos na oposição: monolíngues aprendendo segunda língua X bilíngues (simultâneos). No caso do estabelecimento de nossas capacidades de produção dos sons da língua pode-se dizer que monolíngues que buscam aprender uma segunda língua sempre se deparam com dificuldades para coordenar gestos articulatórios ou uma sequência de gestos articulatórios necessária para atingir determinado alvo de produção na segunda língua.

As dificuldades de produção podem ser relacionadas ao menos a dois fatores: (a) dificuldade de percepção dos sons da segunda língua; e (b) defasagem de gestos articulatórios necessários para uma realização eficiente da produção alvo. Esses dois fatores serão apresentados separadamente a seguir, embora atuem de modo conjunto no processo de produção de sons.

Para o fator (a), acredito que o exemplo que melhor permite explicar a influência das dificuldades de percepção na produção dos sons são as tentativas de brasileiros monolíngues em acertar o alvo de algumas vogais do inglês americano. As dificuldades em ajustar o alvo articulatório em distinções de vogais como as das palavras beat e bit começam no fato de que brasileiros monolíngues apresentam dificuldades na percepção da diferença entre essas duas vogais.

No português brasileiro, essas duas vogais fazem parte do inventário de sons da língua, alternando-se de acordo com a acentuação da sílaba. Em sílabas tônicas, como na palavra “saci”, a vogal /i/ é realizada como a vogal da palavra “beat”; em sílabas átonas, como na palavra “júri”, a vogal /i/ é realizada como a vogal da palavra “bit”.

microfone

Assim, não podemos dizer que os monolíngues não possuem capacidades articulatórias para realizar as duas vogais, mas sim dificuldades perceptuais, pois, mesmo as duas vogais ocorrendo no português, elas não possuem potencial de diferenciar significados entre palavras, como acontece no Inglês (ex: “beat” X “bit”). Isso faz com que os falantes monolíngues do português não se atentem para as diferenças articulatórias entre essas vogais, reduzindo a capacidade de percepção da distinção entre elas, o que afeta a capacidade de produzi-las adequadamente em palavras do Inglês Americano, idioma em que essas mesmas vogais diferenciam palavras ( “beat” X “bit”).

Para o fator (b) – defasagem de gestos articulatórios necessários para uma realização eficiente da produção alvo – acredito que um exemplo que permite explicar como tal defasagem dificulta as produções de sons do inglês americano por parte de brasileiros monolíngues seja as tentativas de realização do encontro consonantal “thr”, como nas palavras “three”, “through”, “throw”, etc.

Assumindo-se que o brasileiro em questão já tenha superado algumas dificuldades de percepção quanto ao modo de produção do som “th” (que é percebido frequentemente como “f” em palavras como “think” ou como “t” em palavras como “thousand”), ainda resta o desafio de coordenar os gestos articulatórios na produção desse som, especialmente no caso citado, em que tal som ocorre em contexto de encontro consonantal: “thr”. Nas tentativas de brasileiros monolíngues em realizar tal encontro consonantal surgem diferentes modos de produção, mas o alvo de “thr” muito frequentemente não é tarefa fácil de atingir.

Em oposição às dificuldades encontradas pelos monolíngues na produção de sons de uma segunda língua estão os bilíngues simultâneos. Para eles, a tarefa de produzir os sons das duas línguas a que foram expostos é similar em termos de complexidade (ou facilidade), uma vez que sua capacidade de percepção e produção dos sons das duas línguas se manteve ao longo do processo de aquisição de linguagem.

Para os bilíngues, os links entre percepção e produção dos sons das duas línguas estão estabelecidos de modo mais “natural”, pois os sistemas de sons das duas línguas foram estabilizados simultaneamente (não necessariamente no mesmo nível de proficiência) no processo de aquisição de linguagem. Para os monolíngues aprendendo segunda língua, a relação entre percepção e produção da segunda língua será sempre atravessada pelo sistema de sons da língua materna, gerando essa maior dificuldade para lidar com o sistema de sons da segunda língua.

Assim, mais uma vez, levantamos nossa bandeira a favor do bilinguismo dos queridos brasileirinhos! São muitos os benefícios para ele e para a relação do pai e/ou mãe brasileiro(a) com seu brasileirinho!

Luciana Lessa é Doutora em Linguística, é parte do corpo docente da Georgia State University e participa de importantes grupos de discussão sobre a aquisição da linguagem falada e escrita. É autora da coluna Falando na Plataforma Brasileirinhos e diretora do grupo de discussão e formação de professores da Brasil em Mente.

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