O que é educação bilíngue?

Por Felicia Jennings-Winterle
Coluna LIP/Editorial

Bilíngue é alguém que fala duas línguas. Trilíngue é alguém que fala três. Certo? Mais ou menos. Estas definições são extremamente redutivas frente a tantas diferenças em proficiência entre falantes. Agora imagine definir o conceito educação bilíngue.

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Hoje no LIP, vou discutir alguns capítulos do livro “Foundations of Bilingual Education and Bilingualism” de Colin Baker (em português, Fundamentos da Educação Bilíngue e Bilinguismo) e o artigo Bilinguismo e educação bilíngue: discutindo conceitos, de Antonieta Heyden Megale.

Partimos primeiro de uma breve mostra sobre a definição de um indivíduo bilíngue ou multilíngue (muitas vezes contida na própria definição bilíngue) que Megale sintetiza em seu artigo. De acordo com,

bilíngue: definições

Percebeu como o mesmo termo varia em termos de sua extensão? Por esse motivo fica tão difícil definir preto no branco quem é ou não bilíngue, e consequentemente, que tipo de educação vai desenvolver o bilinguismo que eu quero para o meu filho.

Alguns questionamentos partem dessas poucas definições apresentadas. E eu, sou bilíngue? O meu filho é bilíngue? Devem-se considerar bilíngues somente as pessoas que tem domínio total nas duas línguas? Se eu entendo espanhol perfeitamente, porque é tão próximo ao português, eu sou bilíngue? Existem níveis de bilinguismo?

Me parece então que este termo bí-lin-gue é não só relativo, mas também reducionista, dada a sua carência frente a tantas nuances que só crescem em tempos de globalização. É preciso portanto, definir níveis de bilinguismo, levando em consideração graus de proficiência, a função e o tipo de uso da língua, como o indivíduo alterna o uso das línguas (code switching), e como uma língua influencia ou interfere na outra.

Em meio a mostra tão completa de Megale, aponto como a melhor definição a de Harmers e Blanc (2000) que ressaltam não poder ser ignorado o fato de o bilinguismo ser um fenômeno multidimensional e dever ser investigado como tal. Fatores como competência, idade de aquisição, o número de indivíduos que comungam da mesma língua em uma comunidade e sua influência e status na indentidade cultural também devem ser analisados ao se criar conceitos em relação aos falantes.

Da mesma forma, a educação relacionada a esse fenômeno multidimensional tem diversas faces. Megale faz uma citação “multinacional” a esse respeito:

“Escolas no Reino Unido nas quais metade das matérias escolares é ensinada em inglês são denominadas escolas bilíngues. Escolas no Canadá em que todas as matérias são ensinadas em inglês para crianças franco-canadenses são denominadas bilíngues. Escolas na União Soviética em que todas as matérias, exceto o russo, são ensinadas em inglês são escolas bilíngues, assim como escolas nas quais algumas matérias são ensinadas em georgiano e o restante em russo. Escolas nos Estados Unidos nas quais o inglês é ensinado como segunda língua são chamadas escolas bilíngues, assim como escolas paroquiais e até mesmo escolas étnicas de final de semana… [Consequentemente] o conceito de escola bilíngue tem sido utilizado sem qualificação para cobrir tamanha variedade de usos de duas línguas na educação” (MACKEY, 1972, apud GROSJEAN, F. 1982:213).

Em meio a essa variedade de produtos de mesmo nome surgem vantagens e desvantagens. Uma das vantagens, a meu ver, é a diversidade de propostas que tem em comum o incentivo e a promoção do bilinguismo. Uma das desvantagens, porém, é que existem diferenças significantes em termos do conteúdo e da qualidade dos programas, tendo em vista, inclusive, o número de horas trabalhadas.

Segundo Colin Baker,

“o tema educação bilíngue se relaciona aos debates sobre os propósitos e objetivos fundamentais da educação como um todo para indivíduos, comunidades, regiões e nações. Educação bilíngue (…) é um componente dentro de uma estrutura social, econômica, educacional e cultural e política mais ampla” (p. 184).

Baker cita outro autor, Paulston (1992), que discute que

“se não levarmos em consideração os fatores sócio-históricos, culturais e político-econômicos, que acabam levando à construção de certas formas de educação bilíngue, nunca entendermos as consequências de tal educação”.

Processo histórico da educação bilíngue nos EUA
Baker apresenta um resumo do processo histórico da educação bilíngue nos EUA explorando as interferências políticas, sociais e econômicas que moldaram já há muito tempo as noções sobre multilinguismo e multiculturalismo hoje vistas por aqui. Como vocês devem lembrar, tenho martelado na tecla de que os Estados Unidos não parecem estar seguindo o passo mundial que caminha não só rumo a globalização, mas também ao multiculturalismo (leia a discussão aqui).

Ao ler este percurso histórico, fica mais fácil entender esta visão política adotada, inclusive, por brasileiros e outros imigrantes que mudam-se para cá. Para começo de conversa, Baker diz ser uma ilusão achar que a educação bilíngue é um fenômeno recente. Pelo contrário, esse tipo de educação tem publicações datadas de bem antes do século XX. O perigo dessa ilusão é que as pessoas não reconhecem que os benefícios desse processo necessário tem sido vistos há mais de 500 anos, segundo Mackey citada por Baker – “bilinguismo e multilinguismo são características muito próprias e primitivas da humanidade”.

Processos diversos de educação bilíngue foram trazidos para cá e eram inclusive populares entre as diversas comunidades de imigrantes europeus entre os séculos XVIII e XIX e antes da I Guerra Mundial. Muito antes dos europeus, haviam mais de 300 línguas nativas e que não foram instantaneamente colonizadas.

Entretanto, o número crescente de imigrantes, que mudou dramaticamente no século XX, deu cabo ao conhecido processo de xenofobia e à ideia de que imigrantes analfabetos em inglês eram uma fonte de preocupação social, política e econômica. Esse processo de americanização foi construindo então, a noção de que a competência em inglês está associada à lealdade aos Estados Unidos. Diversidade linguística foi substituída por intolerância linguística (Baker, 2001).

Baker cita um trecho de um dos discursos de Thoedore Roosevelt, datado de 1917:

“Nós temos que ter uma só bandeira. Nós temos que ter uma só língua. Esta deve ser a língua da Declaração da Independência, do discurso de despedida de Washington, do de Lincoln em Gettysburg e da Segunda Inauguração. Nós não podemos tolerar qualquer tentativa de oposição ou suplementação da língua e cultura que tem caído sobre nós dos construtores da república com a língua e cultura de qualquer país europeu. A grandiosidade desta nação depende da troca e assimilação dos estrangeiros que esta recebe em suas margens. Qualquer força que tente retardar esse processo assimilativo é uma força hostil aos mais altos interesses de nosso país”.

Fica claro ao ler tal discurso que a legislação federal americana funciona de maneira a encorajar que a instrução seja somente em inglês. O atual presidente, Barack Obama, parece trazer uma visão diferente da educação, inclusive mostrando seu apoio à bilíngue, incluída em seu projeto de reforma educacional que busca promover recuperação econômica (The American Recovery and Reinvestment Act –ARRA – of 2009). Porém, tal reforma parece estar em seu início.

Somam-se as noções errôneas e retrogrades dessa filosofia de americanização, as suposições desarraigadas das pesquisas científicas de que o bilinguismo possa ser mais uma fonte de brechas e lacunas nos desenvolvimento escolar. Bilíngues, nos EUA, acabam tendo performances escolares mais baixas porque o problema não está no aluno ou na língua minoritária que ele representa, e sim, no método subtrativo e separatista que pretende reduzir aqueles que poderiam ser bilíngues a monolíngues.

A problemática não para na escola. Alunos param de estudar antes de formar-se, e problemas emocionais e sociais são diretamente ligados a este fenômeno de negação de identidade.

Você acha que estou defendendo bilinguismo ser melhor que monolinguismo? Absolutamente.

Se a educação bilíngue for bem feita, bem implementada, não só não será causa para baixa performance, mas sim a cura para o mesmo problema da qual é acusada, parafraseando Baker. Imigrantes ou não, crianças se beneficiam e muito de um processo bilíngue, e em troca, o indivíduo, a família e a sociedade se beneficiam, cognitivamente, socialmente e politíca-economicamente.

Então imagine os efeitos que a sociedade americana veria em sua educação, política e economia se contasse com o apoio e suporte de pais e iniciativas públicas defendendo a educação bilíngue ser parte importante de uma sociedade democrática, já que este tipo de proposta é não só um ponto chave educacional, mas também político (Crawford, 2004 citado por Baker, p. 259).

Tipos de educação bilíngue
Mais uma vez faz-se necessário mencionar que o termo e-du-ca-ção bi-lín-gue é um rótulo simples demais para um fenômeno tão complexo (Baker, p.207). O mesmo termo tem sido referido tanto a programas que usam e promovem duas línguas, quanto aqueles que a instrução é monolíngue e passada para falantes de línguas minoritárias. Vamos começar distinguindo os programas em relação aos seus objetivos:

educação bilíngue - definições

Existem também as formas monolíngues de educação oferecidas a bilíngues. É isso mesmo. Nos Estados Unidos, a maioria dos programas oferecidos nas escolas públicas, vai ao contrário. É o caso dos programas que separam (ou seria melhor dizer, segregam?) os alunos chamados de ESL (inglês como segunda-língua) nos quais o objetivo social e educacional é a assimilação subtrativa e o resultado final, o monolinguismo.

Outras formas de educação bilíngue para bilíngues, classificadas por Baker de fracas, são aquelas que transferem a criança da língua minoritária para a majoritária, chamados transicionais, e que também resultam em monolinguismo; e os que oferecem a segunda língua (L2) somente para falantes da majoritária (L1), que resultam em um bilinguismo limitado e separatista, que acaba gerando distância entre as duas línguas.

Formas mais fortes de educação bilíngue que visam não só o bilinguismo, mas também a alfabetização nas duas línguas, são os programas de imersão (na qual a criança falante de L1 aprendem inicialmente com ênfase na L2), os de língua de herança (na qual a criança domina a língua de herança) e os de linguagem dupla (no qual há crianças que falam L1 e L2, ou são representantes das duas, em número equilibrado, e as aulas são dadas em L1 e L2) –  todos resultando em pluralidade  enriquecimento como objetivo social e educacional.

Eficácia dos programas de educação bilíngue
Abaixo, resumo alguns dos pontos discutidos por Baker que apresenta estudos avaliando programas bilíngues, em termos de sua eficácia.

Em relação aos programas de imersão (Immersion Bilingual Education):
– Os alunos que bem cedo integram programas de imersão superam os alunos que estão nos programas English-only. Mesmo os alunos que entram mais velhos em tais programas, mostram efeitos que de maneira alguma são danosos à língua majoritária;
– Pode haver diferenças em performance em matemática e ciência, pelo menos a princípio, nas séries pré-escolares. Frizando, A PRINCÍPIO. Esse fato se dá devido a diferença natural de proficiência linguística, que tende a equilibrar-se na idade escolar;
– Os resultados, em geral, sugerem que os programas de imersão não tem efeitos negativos em performance curricular, especialmente aqueles que são iniciados nas séries pré-escolares.

Em relação aos programas de linguagem dupla (Dual-Language programs):
– Estudantes que tiveram instrução entre 10%-20% em Inglês apresentaram notas tão boas nesta disciplina quanto os alunos que estavam nos programas English-only;
– Níveis altos de proficiência bilíngue foram associados com níveis altos de conquistas em leituras;
– Em testes de matemática, estudantes deste programas tiveram performances em média 10 pontos mais altas do que estudantes ensinados somente em Inglês;
– Alunos de sexta série dos programas de linguagem dupla demonstraram-se à frente dos alunos da mesma idade participantes dos programas separatistas para ESLs quando foram avaliados na Língua Inglesa.

Em relação aos programas de língua de herança (Heritage Language Education):
– Estudantes mantém sua língua materna, especialmente se comparados com aqueles que são colocados nos programas substrativos oferecidos a ESLs;
– Tais crianças apresentam performances em matemática, ciência, história e geografia tão boas quanto crianças em programas normais;
– Estudos demonstram que a atitude destas crianças é particularmente positiva em relação à estrutura do programa – a cultura da casa e da comunidade, os pais e como estes se relacionam são aceitos pela escola e esse fenômeno tem um efeito positivo no desenvolvimento escolar;
– Testes demonstram que em Inglês, qualquer que seja a língua de herança em questão, tais crianças apresentam performances comparáveis com as aquelas que frequentam programas regulares.

Destes dois materiais, faço duas conclusões. Primeiro, é preciso que os conceitos bilinguismo, bilíngue e educação bilíngue sejam redefinidos, assim como as noções ligadas à importância da educação bilíngue em uma sociedade democrática, especialmente a americana. O setor público tem o dever de possibilitar programas bilíngues para todos os seus alunos, sejam eles americanos ou imigrantes recebidos em suas margens. Só assim este país verá mudanças significativas em sua política externa e economia.

Segundo, os objetivos e a descrição dos programas bilíngues devem estar bem claros na cabeça de pais e professores para que estes sejam bem sucedidos. É papel da escola desenvolver e aprimorar o bilinguismo, especialmente promovendo a dupla alfabetização. É papel da família promover a língua materna e a de herança e mantê-las.

BIBLIOGRAFIA:
Baker, Colin (2011). Foundations of Bilingual Education and Bilingualism (Quinta edição). Capítulos 9 – 12. Multilingual Matters: New York.

Megale, Antonieta H. Bilinguismo e educação bilíngue – discutindo conceitos. Revista Virtual de
Estudos da Linguagem – ReVEL. V. 3, n. 5, agosto de 2005. ISSN 1678-8931 [www.revel.inf.br].

 

Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.
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