O brincar e a autoestima

Baby playing with mirrorPor Keiko Shikako-Thomas, PhD

Espelho, espelho meu…

Existe alguém mais feliz do que eu…brincando?

Muitos estudos mostram a importância do brincar e da participação em atividades de lazer para a autoestima da criança. Enquanto antigos teoristas (que não deixam nunca de serem atuais) como Winnicot, Piaget e Vigotsky (pra citar os meus favoritos) já observavam empiricamente (“sem provas”) os muitos benefícios do brincar em múltiplas etapas do desenvolvimento, hoje, estudos pragmáticos (com testes e métodos científicos mais rigorosos), confirmam muitas associações entre brincar e um monte de coisa boa. Diga-se de passagem, nunca vi nenhum estudo mostrando malefícios de brincar, a não ser quando a culpa é do contexto, não do brincar em si. Brincar sempre faz bem. E hoje vamos falar de autoestima: um fator multidimensional ligado à percepção de si e de suas competências sociais, acadêmicas, afetivas e de comportamento (Harter é uma autora que fala muito sobre autoestima, pra quem quiser saber mais). Algo que define em muitos casos sua relação com o mundo. Ui, coisa séria pela frente!

Para adolescentes com deficiência, por exemplo, participar em atividades de lazer como esportes, está relacionado à percepção de capacidade de apelo romântico, onde a competência experimentada no brincar, é transferida e aplicada para outras situações da vida. Outros estudos mostram também que crianças com deficiência experimentam uma sensação de auto competência e de valor próprio únicos quando engajados em atividades recreativas, e que esta sensação fortalece a auto competência em outras áreas da vida. Para a criança em qualquer fase de desenvolvimento não é diferente. O brincar permite experimentar o sucesso sem crítica, e o sucesso em uma etapa, garante uma percepção positiva de sí que gera motivação interna para a próxima fase, para o próximo desafio, em um ciclo de sucessos baseados na experimentação auto conduzida, fortalecendo a autoestima um pouquinho mais a cada nova etapa. Brincar é um trenzinho descarrilhado do bem, que você não sabe bem ao certo onde vai para, mas onde todos os efeitos, mesmo que aparentemente adversos (como o fracasso em uma atividade, perder um jogo, não conseguir montar um quebra-cabeça), podem contribuir para um resultado positivo.

Para brasileirinhos morando cá e lá, o brincar pode, além de tudo, favorecer um senso de pertinência, como já falamos aqui. Mas uma outra faceta que podemos acrescentar, é que o brincar, contextualizado à uma cultura, traz um senso de identidade, que também favorece e fortalece a autoestima. “Eu brinco dessas coisas que fazem parte de um universo único (e divertido), por isso eu sou mais, porque eu sou parte (importante, integral e sem a qual nada acontece)  de algo maior”. Isso é claro, considerando um brincar saudável, espontâneo, mas contextualizado. Um brincar que faz sentido pois tem raízes, que faz sentido pois tem sons, tem história de viagens, tem cheiro do pão de queijo da vó no forno, tem amigos que brincam junto e  por isso compartilham deste mesmo senso de auto identidade que se fortalece em uma identidade coletiva, tem colo que vem junto com as lembranças da mãe que brincando, também revive e acaba reescrevendo uma parte da sua história, e reescrevendo sua história fortalece o senso de identidade na criança.

Contexto fortalece autoestima, ajuda a construir uma percepção de si balizada em uma percepção do mundo. E poucas situações são tão propícias de se contextualizar quanto o brincar.

E falando em colo, podemos acrescentar um último elemento crucial ao desenvolvimento da autoestima, que é o contato próximo, afetivo e responsivo (não aquele de quem está respondendo mensagem no iPhone) de uma pessoa significativa (pais, mães, avós, irmãos, professores). E novamente, nada como o brincar para favorecer estas relações. Brincando de roda, dificilmente um pai vai ser tão crítico quanto quando olhando um boletim escolar, dificilmente vai ser tão exigente como quando pedindo para arrumar o quarto. Mais que isso, ao brincar junto, a gente se abre para escutar  e valorizar as opiniões dos pequenos (talvez eu não consiga concordar em deixar meu filho ir para a escola de calça de moletom vermelha e camiseta regata verde para a escola, ou minha filha ir vestida de princesa, como eles gostariam  – mas eu não preciso me opor às suas expressões individuais ao escolher as regras de um jogo, ao escolher a música que vamos cantar juntos no carro ao inventar uma história absurda para encenarmos juntos) – e poder “ser”, poder opinar e ser respeitado, ainda que (e especialmente se) brincando, é crucial para formar indivíduos assertivos e seguros de si.

Enfim… se você hoje se olhar no espelho mágico, e enxergar um indivíduo forte, com uma autoestima alta o suficiente para ser assertivo quando necessário e humilde quando imprescindível, que se sinta capaz de conquistar o mundo e vencer os desafios cotidianos, que saiba se posicionar em relação aos amigos respeitando seus limites sem perder sua identidade e sem abrir mão de suas convicções, saiba que, há alguns anos, essa pessoa na frente do espelho certamente brincou. E muito!

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