Lendo Ou isto ou aquilo

Por Cristina Marrero
Coluna Lendo

Ou isto ou aquilo“Quem me compra um jardim com flores? borboletas de muitas cores, lavadeiras e passarinhos, ovos verdes e azuis nos ninhos”…?

Um dia minha filha voltou da escola encantada com esse poema: Leilão de Jardim de Cecília Meireles. Ele faz parte do livro Ou isto ou aquilo lançado pela primeira vez em 1964. Quase 50 anos se passaram e a magia das palavras ainda está lá, intacta e pronta para brincar. Porque a poesia é um convite para a brincadeira das rimas, dos sons, do imaginário solto nos pensamentos e nos sentimentos. Talvez a poesia não seja o genêro mais fácil para ler mas quando aprendemos a gostar, ela abre as portas para um mundo de sensibilidade e emoção.

 

O livro é composto por 57 poemas. Alguns se tornam mais especiais que outros porque eles estão ligados ao que sentimos quando os lemos, podem reavivar lembranças, falar de algo que nos toca particularmente, ou nos fazer sonhar. Nisso reside a magia da poesia: um mundo de possibilidades, de palavras que cantam e brincam.

Ou isto ou aquilo é interessante a começar pelo título que nos faz pensar nas nossas escolhas, que podemos seguir este caminho, ou aquele outro. O livro pode ser lido de trás para frente, do meio até o final. Um poema de cada vez e sempre voltar.

Cecília Meireles escolhe as palavras, cria versos e os arruma para o leitor. Nem sempre a rima é aquela tradicional, como menina e Carolina, logo no primeiro poema. A autora também busca palavras que combinam como coral e colar, formadas pelas mesmas letras. Ou cria idéias como os caracóis do cabelo do menino que quer usá-los como anzóis, na Cantiga da Babá.

O poema Leilão de Jardim continua sendo o meu preferido, foi minha filha quem me o apresentou, ela se divertiu ao brincar no que mais poderia ser leiloado num jardim. Ela tinha 5-6 anos e aprendeu o que era a rima, ficamos um bom tempo nos divertindo ao buscar palavras que rimassem, que cantassem. Ainda hoje, passados alguns anos, voltamos ao livro como quem volta a um lugar muito querido, como a casa de um amigo.

O poema A Bailarina é perfeito para as meninas sonhadoras, que gostam de dançar, que se imaginam com as suas sapatilhas e ensaiam ficar na ponta dos pés. E tem A chácara do Chico Bolacha, onde “o que se procura nunca se acha”. Tem Um Mosquito que escreve e O Menino azul, que quer um burrinho para passear…

Os poemas “falam” das coisas de todos os dias, de bichos, de sonhos, de brincadeiras, disto ou daquilo, o leitor pode escolher. A poesia está ali para ser lida, sentida e não necessariamente, compreendida. Este é, para mim, o  último “estágio” da poesia. Ela desperta a nossa sensibilidade, as palavras dançam ao som da rima mas compreender não é o objetivo, apenas sentir. E as crianças fazem isso de uma forma especial, muitas vezes precisamos do olhar infantil, da pureza e da inocência deles para resgatar algo que está adormecido dentro de nós.

A autora perdeu os pais muito cedo e foi criada pela avó, dona Jacinta e a babá, Pedrina. As duas enriqueceram a infância sofrida de Cecília com histórias e lendas. Mais tarde ela estudou música e uniu a sonoridade musical com o amor pelas palavras em lindos poemas.

Cecilia Meirelles

O crítico Paulo Rónai escreveu o seguinte sobre ela:

”Considero o lirismo de Cecília Meireles o mais elevado da moderna poesia de língua portuguesa.  Nenhum outro poeta iguala o seu desprendimento, a sua fluidez, o seu poder transfigurador, a sua simplicidade e seu preciosismo, porque Cecília, só ela, se acerca da nossa poesia primitiva e do nosso lirismo espontâneo…A poesia de Cecília Meireles é uma das mais puras, belas e válidas manifestações da literatura contemporânea”. 

Os seus poemas foram traduzidos para muitos idiomas e musicados por grandes nomes como Lamartine Babo. Assista aqui o vídeo do poema que leva o nome do livro, narrado e animado.

E para terminar, um trechinho do poema O último andar:

“No último andar é mais bonito:

do último andar se vê o mar.

É lá que eu quero morar…

…De lá se avista o mundo inteiro:

tudo parece perto, no ar.

É lá que eu quero morar:

no último andar.”

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10520087_10205119346253278_826309639437374543_nCristina ama literatura infantojuvenil e por isso, faz as aventuras, descobertas e fantasias chegarem até você através de dicas e reviews de livros. Cristina é diretora da Biblioteca Infanto-juvenil Patricia Almeida, um departamento da Brasil em Mente.

 

© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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Um comentário em “Lendo Ou isto ou aquilo

  1. Adorei o texto! Nos temos o livro, mas ainda nao o folheamos o suficiente, mas claro, tudo o que lemos da Cecilia Meireles, adoramos! Ja separei para ler um pouquinho no final-de-semana!

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