Mãe só muda de endereço

Por Daniella Araújo
Perfil e Opinião

É comum pensar (e dizer) que mãe é igual em todo lugar, tem as mesmas preocupações e sempre faz as mesmas recomendações aos filhos. “Veste um casaco!” “Já escovou os dentes hoje?” “Não volte tarde…”
Para muita gente, o comportamento materno é uma espécie de manifestação universal, que se incorpora na consciência feminina das mulheres nos quatro cantos do globo a partir do momento em que elas dão à luz. O vínculo biológico entre mãe e bebê, claro, é o fundamento dessa crença num padrão de funcionamento materno universal.

Afinal, depois de carregar uma criaturinha dentro de você, dar de comer do seu próprio corpo, parece óbvio que mãe simplesmente saiba que é melhor para o filho a cada momento. Afinal, as necessidades do recém-nascido são biológicas. Até pelo menos dois anos de idade, a principal preocupação dos pais é o desenvolvimento físico; assuntos como mamadas, sono e cocô viram objeto de intensos e apaixonados debates.

A crença de que a mãe reage por impulso, guiada pelos desígnios da Mãe Natureza parece muito razoável nesse sentido. Mas, se fosse assim, não seria lógico esperar que todas as mães do mundo cuidassem dos filhos do mesmo jeito?

Pois foram exatamente essas perguntas que alguns pesquisadores começaram a fazer, dando origem a um ramo novo de investigação científica: a etnopediatria.

Essa nova área de pesquisa estuda como as práticas de cuidado com os filhos − ou estilos parentais — afetam a saúde e o desenvolvimento emocional das crianças. E ela começa justamente fazendo uma distinção crucial entre o que é biológico e o que é cultural. O quanto dos cuidados que acreditamos ditados por necessidades biológicas são, na verdade, manifestações e traços de uma cultura?

Para responder a tais questionamentos, os cientistas buscam comparar os estilos parentais em culturas e sociedades diferentes. Estou justamente acabando de ler um livro primoroso sobre este tema: Our Babies, Ourselves: How Biology and Culture Shape the Way We Parent, da antropóloga Meredith Small. Analisando cientificamente diversas culturas e seus estilos parentais, Small conclui que, ao contrário do que se poderia imaginar, pais criam seus filhos de acordo com normas culturais e padrões de sucesso dentro de suas comunidades, e muito pouco corresponde a demandas biológicas das crianças.

Por exemplo, o povo Kung San, que habita as savanas do deserto Kalahari na África Austral, valoriza indivíduos capazes de tolerar esforços físicos pesados no dia-a-dia, por isso estimulam seus bebês a desenvolver habilidades físicas desde cedo. Nos EUA, a sociedade preza, acima de tudo, a independência; como resultado, pais americanos “treinam” os filhos a passar mais tempo separados dos adultos, para desenvolver esta desejável autonomia o quanto antes. O Japão, ainda que como os EUA, ostenta o status de país industrializado e com elevado padrão de vida, apresenta um padrão cultural já bem diferente: na cultura japonesa, o grupo prevalece sobre o indivíduo e, por conta disso, as mães no país asiático encorajam a dependência dos filhos em relação a si, vendo nisso uma conotação de intimidade e sucesso familiar.

Com a perspectiva aberta por este tipo de estudo, mães e pais podem se sentir mais livres para tentar práticas e estilos de criação que sejam diferentes daqueles praticados em sua cultura. Qualquer mãe conhece aquele sentimento que dá no fundinho do peito quando todo mundo diz para você fazer uma coisa com seu filho, mas seu feeling aponta em outra direção. Com minha filha pequena, que nasceu nos EUA, eu morria de medo de deixá-la dormir na minha cama, pois lá existe uma campanha muito intensa de prevenção à Síndrome da Morte Súbita Infantil que vincula a incidência do problema com a prática da cama compartilhada. Confiei no meu instinto e botei o bebê para dormir comigo. No começo eu acordava a cada meia hora para checar se ela estava respirando. Mas fui em frente, porque sentia que era o melhor para nós naquele momento.

O livro de Meredith Small apaziguou minha consciência. Ele dedica um capítulo inteiro para cada um dos temas: sono, choro e amamentação. Na parte que trata do sono, a antropóloga analisa a fundo como os bebês são cuidados em várias culturas e conclui que, estatisticamente e cronologicamente, a maioria das mães sempre dormiu junto de seus bebês. As evidências biológicas indicam que o contato da pele da mãe com o bebê ajuda a regular a respiração, os batimentos cardíacos e a temperatura do filho. A ideia de colocar bebês para dormir em camas, e mesmo cômodos separados, é − segundo a autora − uma invenção cultural da sociedade moderna.

Uma mãe na Holanda descreveu assim seu ritual noturno com o filho: “Visto o pijama, troco a fralda, coloco o bebê na cama com um bonequinho, música suave. E, depois um beijo e saio.” Uma prática que reflete os fundamentos culturais das famílias holandesas: a crença de que uma parte essencial da saúde do bebê repousa sobre uma rotina regular e equilibrada.

O capítulo sobre o choro também é muito ilustrativo de como a cultura ocidental pode ter “evoluído demais” a ponto de negligenciar as necessidades biológicas dos bebês. A autora defende que o choro é um sinal que a criança, evolutivamente, desenvolveu para se comunicar com os pais. Quando o choro é ignorado, o bebê responde aumentando o berreiro em intensidade e duração. Como resultado, os bebês do “mundo desenvolvido” choram muito mais do que aqueles nascidos em povos primitivos, simplesmente porque as mães dos primeiros, em geral, decidem que não podem atender a qualquer choro da criança, pois assim podem acostumá-la mal. E mais importante ainda, quanto mais as mães respondem a seus bebês, mais elas aprendem sobre suas necessidades e funcionamento, numa simbiose que as mães ocidentais podem simplesmente estar perdendo a chance de desfrutar.

Ler o livro de Meredith Small me ajudou a colocar em perspectiva as práticas de criação dos meus filhos que eu considerava verdades absolutas e a flexibilizar meu julgamento sobre atitudes de pais em contextos familiares diferentes do meu. Morar no exterior com os filhos, mesmo que por pouco tempo, pode ser uma das melhores maneiras de perceber como podemos (e devemos) relativizar essas meias-verdades e desenvolver um estilo de criação autêntico e fiel ao que desejamos para nossos filhos.

Uma mãe americana vivendo em Buenos Aires descreve o choque de seus hóspedes ao notarem pequenos argentinos desfrutando alegremente de uma refeição noturna com sua família às 11.30 da noite em um restaurante — para os argentinos (e para muitos latinos) a refeição consiste em um momento familiar sagrado e não seria justo banir os pequenos deste convívio, mesmo quando ele envereda por altas horas da noite.

Outro relato que me fez sorrir intimamente foi o desta mãe americana que teve seu filho no Rio de Janeiro e conta, com muito humor, seu desconforto com as pessoas que a interpelavam na rua para recriminá-la porque o filho estava sem meias em um dia com temperaturas de 30°C! Para um americano, é muito difícil entender que as pessoas se permitam intromissões e palpites não solicitados na vida alheia. E, segundo as teorias da etnopediatria, essa característica tipicamente brasileira começa dentro de casa:

Estudos indicam que o núcleo familiar brasileiro inclui avós, sogros, cunhados, tios como parte ativa da criação dos filhos, quer diretamente envolvidos nos cuidados diários com a criança, quer indiretamente quando as próprias mães consultam as opiniões das mães, sogras, tias e primas sobre decisões importantes relacionadas aos filhos.

Amei ler o relato dessa mãe americana porque passei exatamente pela mesma experiência. Quando minha filha fez sete meses, tive que passar doze semanas no Rio de Janeiro a trabalho. Era abril, e eu tinha acabado de enfrentar um frio de -10°C no inverno de Washington DC… Passear de manhã pelas calçadas do Flamengo com um clima de 25 graus era como estar no paraíso. Até o dia em que uma senhorinha passou por mim, e vaticinou: “Não era bom colocar umas meias nos pezinhos dela não…? Está tão frio!” Fiquei com raiva alguns minutos pela intromissão, mas depois pensei com os meus botões: estar de volta é isso, é ter a certeza de que todo mundo se mete na sua vida, sem pudor, porque é parte intrínseca do nosso povo sermos absolutamente sociáveis. E esta sociabilidade tem um preço. É justo.
Daniella AraujoDaniella de Araújo é diplomata em La Paz, na Bolívia. Ela é mãe e escreve o blog Lagarta Pintada.

 

© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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4 comentários em “Mãe só muda de endereço

  1. Uma graça o comentário sobre as meias. Sempre me horrorizou o hábito japones de deixar os bebês sem meias no auge do inverno, na verdade o ano todo. Eles crêem que assim, fotalecem a criança. Descobri vivendo aqui que fazemos coisas opostas com os mesmos objetivos, ou seja, tudo esta certo, ou tudo errado, depende apenas do seu ponto de vista, heheeh.

  2. Ah, que pena que este blog não existia quando os meus filhotes eram pequenos. Hoje eles têm 18 e 21. Gente, só queria dizer para vocês que eu fiz tudo errado quando eles eram pequenininhos, e mesmo assim dá tudo certo no final, desde que tenha sido feito com amor. Aqui em casa é todo mundo bilíngue (port e ing), mas meu filho prefere falar inglês enquanto a filhota, como a mãe, tem preguiça de enrolar a língua, prefere o português. A gente assiste ao Batman em inglês, e ao Batchiman em português.

    Parabéns a todas vocês pelo blog maravilhoso!

    Usha

  3. Excelente texto, Daniella! Na verdade ninguém, mãe nenhuma acerta sempre, ou faz tudo errado. Quando há amor e bom senso, o resultado final não costuma ser totalmente desastroso, ainda que não seja perfeito. Afinal, quem é?

  4. Daniela, onde encontraria uma versão em português do ‘Our Babies, Ourselves: How Biology and Culture Shape the Way We Parent’? já vi outros comentários acerca do livro mas acredito q não tenha sido editado por aqui. Vc não dispõe de uma versão em portugues ou espanhol?

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