Como nasce uma língua?

Por Andreia Moroni

Lá em momentos remotos da minha existência, quando era criança e curiosa por natureza, lembro de perguntar a minha tia formada em Letras o que exatamente era o latim, tratando de entender por que ninguém mais falava essa língua, por que ela estava “morta”. Então uma língua, que não era gente, não era bicho, não era planta, também morria?

De alguma maneira já me indagava como uma língua podia surgir. O rumo da conversa seguia: mas então o que aconteceu com o tal do latim para ele virar português, francês, espanhol ou italiano (o clássico quarteto, embora hoje eu saiba que o time é maior), e por que era tão difícil entender o francês mesmo sendo ele parente do português?

Minha avó, que morava com essa tia, sabia francês e tinha imensos livros ilustrados de fábulas que faziam parte do seu repertório de histórias a serem contadas aos netos. Sempre que ela abria o livrão para nos mostrar a ilustração da fábula que contava eu, alfabetizada, podia passar o olho por aquelas palavras enigmáticas cheia de respeito e constatar: eu não entendia nada.

Mesmo naquela idade já dava para entender, sem ser darwinista nem saber de genética, que “as línguas evoluem”, ou seja, vão mudando com o passar do tempo, de geração para geração.

Essas ideias, apesar de serem verdade, de certa forma são vagas, são generalidades, vêm do senso comum. Sempre fiquei com aquela pulga atrás da orelha, aquela curiosidade de entender o momento em que uma língua crioula como o haitiano deixa de ser uma mistura de francês com outras coisas e passa a ser ela mesma, como o holandês que se transformou em africâner na África do Sul.

E semana passada li uma notícia deliciosa, dessas pelas quais você agradece ao universo por resolver se informar sobre o mundo bem naquele dia, naquele minuto, naquele site. Uma verdadeira anunciação: num vilarejo remoto da Austrália, uma nova língua recém-nascida foi descoberta, o warlpiri rápido. A aventureira que documentou o fenômeno é a linguista Carmel O’Shannessy, da Universidade de Michigan.

recém-nascidoAgora outra pergunta: como se sabe que a língua é recém-nascida? Bem, trata-se de uma língua falada exclusivamente por menores de 35 anos, cerca de 700 pessoas, todas as quais falam também o warlpiri, idioma que compartilham com cerca de outros 4000 falantes de vários vilarejos.

E como nasceu o warlpiri rápido, como, afinal, nasce uma língua? Carmel explica que, quando essa geração era criança, os pais, que além do warlpiri falavam também o inglês e o crioulo local, mudavam muito de um idioma para outro quando se dirigiam aos filhos. Com isso, as transições entre os idiomas foram assimiladas pelas crianças de maneira consistente, e elas cresceram conversando entre si nessa nova língua recém-inventada, que misturava estruturas e léxico das três línguas que estavam em contato na região. Hoje essas crianças já são adultos com filhos que têm o warlpiri rápido como idioma materno.

Mas atenção: uma nova língua não surge assim de uma simples mistura. Carmel ressalta (e qualquer coleguinha linguista também o faria): o novo idioma tem estruturas gramaticais inovadoras que são próprias dele. E são estáveis. Mais que isso: a tal nova língua está vivinha da silva, sendo aprendida pela nova geração e com um futuro talvez mais promissor que o do warlpiri tradicional. Bingo!

É muito bonito saber que existe uma nova língua falada exclusivamente por jovens. E eu poderia puxar o fio da meada para outros assuntos igualmente fascinantes que têm a ver com jovens falantes, como os processos de revitalização de línguas minoritárias como o maori na Nova Zelândia, o catalão na Espanha, o hebraico em Israel. Mas vai ficar para a próxima.

Para fechar, retomo algo dito pela própria Carmel na nota difundida pela BBC (observem que não fui eu quem disse): “Para as pessoas bilíngues é muito comum passar de uma língua para outra no meio de uma conversa”.

É assim. É comum, é normal, faz parte da nossa realidade. Por essas e outras, tendo a desconfiar quando os brasileiros que moram no exterior, sobretudo aqueles casados com um estrangeiro, declaram que falam exclusivamente em português com os filhos. Considero uma nobre e mais que válida declaração de vontades, de intenções – mas acho pouco provável que isso se comprove na realidade. O que não tem por que ser considerado um problema. Sinta-se uma pessoa bilíngue normal se você não mora no Brasil e não consegue falar só em português com seus filhos.

Mas fique de olho (ou de ouvido) em como, quando e porque você passa da uma língua para outra, e como usa a sua língua estrangeira que não é o português. Porque, em vez de transmitir o português como língua de herança, pode acontecer de você estar plantando a semente do portuglish, portuñol, portuglais e outras novidades mais. O que não necessariamente é um problema para a diversidade evolutiva das espécies linguísticas – mas é o que você quer?

Um comentário em “Como nasce uma língua?

  1. Como nasce uma Língua

    “O certo é que as línguas não podem ter nascido por convenção já que, para se porem de acordo sobre as suas regras os homens necessitariam de uma língua anterior; mas se esta última existisse, por que razão se dariam os homens ao trabalho de construir outras, empreendimento esforçado e sem justificação?» (Umberto Eco)

    Nesta ótica, pergunta-se: falamos português ou galego? Polemicas à parte, a Fundação Geolíngua propõe o seguinte: baptizar de Geolíngua o galego-luso-brasileiro que se fala nos dias de hoje, pois, é a única língua natural, desde o século XIII, capaz de “substituir” o Esperanto (língua artificial criada em 1887) e o inglês, (pseudo língua universal) cuja aprendizagem promove o monoglotismo no anglófono, excluindo-o, desta forma, de um universo cada vez mais democrático e bilingue.

    Desde o tempo de D. Dinis há, entre o galego e o português, semelhanças na fonética, na morfologia e na sintaxe, muito próximas e, neste âmbito vislumbra-se que a percentagem necessária para que uma língua seja diferente de uma outra, seja de 20%. Ora, a diferença entre o português de Portugal e o galego, hoje, é de 7% e entre o português e o “brasileiro” é de 3%, portanto, via esta observação fundamentada e com base histórica e científica, a língua “portuguesa” foi “separada” do galego em 1214, supostamente, por D. Afonso II e em 1297 oficializada por D. Diniz (sexto rei de Portugal e primeiro rei alfabetizado) numa situação geopolítica e sociocultural compreensível e necessária, pois, Portugal estava à delimitar fronteiras e se formar como um País independente do Reino de Castela e Leão (Espanha) e, não ficava bem continuar a ter o galego como língua de Portugal, daí esta “separação”, politica. – Assim sendo, surge a 8 Séculos atrás, a primeira “marca branca” do mundo – a língua portuguesa, tendo como fornecedor a sua matriz – o Galego.

    E, nesta perspectiva o “português” é, até os dias de hoje, portanto a 8 Séculos, a primeira língua do mundo, com base cientifica e histórica, onde se pode afirmar que – pelo fato de o português entender 90% do espanhol, 50% do italiano e 30% do francês, sem qualquer dificuldade (pelo menos na linguagem escrita) une, para já e, a partir de sua semelhança com o espanhol – 800 milhões de pessoas em 30 países nos 5 continentes e – se acrescentarmos o italiano ultrapassa-se os 900 milhões, superando o inglês e o mandarim, com a vantagem de – o português possuir, alem do aspecto quantitativo, também o qualitativo, geopolítico e geoeconómico, em simultâneo, o que não é encontrado em nenhuma outra língua do planeta, nos últimos 2.000 anos.

    Para saber mais sobre este tema sugiro escrever no google o seguinte: Roberto Moreno+Verbos e Letras – E, o financiamento para promover a GEOlíngua, vira da fundação Geolíngua, via o conceito de – ENDOECONOMIA (ver no google)

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