O uso de duas línguas no bilinguismo

Por Luciana Lessa, PhD
Coluna Falando

Existem muitas dúvidas relacionadas a como inserir o bilinguismo na vida de uma criança. As dúvidas costumam variar de acordo com contextos específicos, como, por exemplo, qual a língua materna do pai e da mãe (se é a mesma ou não), ou qual a língua usada no país em que se está vivendo (se corresponde à língua materna dos pais ou não). Se pensarmos nas possibilidades de combinação apenas desses dois fatores já podemos imaginar diferentes realidades para crianças bilíngues: mãe brasileira e pai americano, vivendo nos Estados Unidos; ambos os pais brasileiros vivendo nos Estados Unidos; pais brasileiros que vivem no Brasil, falam uma segunda língua e tem a preocupação de que o filho seja bilíngue, dentre outras.

Uma das dúvidas frequentes é relacionada ao code-switching, ou seja, a mistura das duas línguas. Para indivíduos bilíngues esse fenômeno é extremamente comum. Adultos que aprendem uma segunda língua após a infância muitas vezes alternam o uso de duas línguas em momentos em que uma palavra ou expressão da segunda língua pode melhor expressar a ideia que se pretende passar. Isso acontece porque, embora seja possível traduzir o que se diz em uma língua para outra, nunca duas línguas serão uma o espelho da outra em termos de vocabulário ou de sentidos sociais e/ou culturais atrelados a palavras ou expressões.

parents talkingNo contexto de pais educando uma criança bilíngue, a mistura das duas línguas não é prejudicial para a aquisição de linguagem da criança. Em alguns países, como a Índia, por exemplo, é muito comum as crianças conviverem desde o nascimento com a alternância de duas ou mais línguas. Estudos mostram que crianças bilíngues dão sinais de que já identificam separadamente as duas línguas na idade de 2 anos; ao interagir com um adulto monolíngue, por exemplo, crianças de 2 anos já buscam usar a língua que esse adulto fala.

Assim, a proposta de que cada pai fale uma língua com a criança, embora seja eficiente, não é necessariamente a única maneira de se educar uma criança bilíngue. Como foi comentado, em muitas sociedades onde o bilinguismo ou o multilinguismo é a norma (como a Índia), a mistura das línguas nem sequer é questionada pelos pais, uma vez que já se assume sua naturalidade e já se sabe que as crianças não se confundem com essa mistura.

Alguns pais buscam apenas falar sua língua nativa com a preocupação de que seu filho possa ser influenciado pelo seu sotaque na segunda língua. Entretanto, se você vive em um país que não fala sua língua nativa, sem dúvida alguma vivenciará muitas situações junto com seu filho em que será necessário alternar para sua segunda língua. E a boa notícia é que seu sotaque não afetará negativamente seu filho.

A partir do momento que a criança começa a interagir com outras crianças e adultos que falam a língua do país onde se está vivendo (na escola, por exemplo), ela vai adquirindo o sotaque do meio social em que ela está inserida.

Assim, os pais não precisam se preocupar com seu sotaque na segunda língua, pois eles não serão o único modelo para seus filhos no processo de aquisição de linguagem. Um modo de perceber isso é pensando em pais brasileiros monolíngues que se mudam para outra região do Brasil. Alguns deles se surpreendem com o fato de seus filhos adquirirem tão rapidamente o sotaque do local em que se está vivendo.

As crianças em processo de aquisição de linguagem possuem uma grande abertura e flexibilidade para lidar com aspectos que parecem muito complexos e confusos na visão de um bilíngue adolescente ou adulto (indivíduo que aprendeu uma segunda língua na idade adolescente ou adulta). Para as crianças bilíngues, a alternância entre as línguas e o sotaque dos pais em comparação com falantes nativos do país em que se vive são informações que vão sendo incorporadas como naturais e elas parecem passar por isso sem qualquer problema.

A autora respondeu algumas das perguntas enviadas, aqui.

Luciana Lessa é Doutora em Linguística, é parte do corpo docente da Georgia State University e participa de importantes grupos de discussão sobre a aquisição da linguagem falada e escrita. É autora da coluna Falando na Plataforma Brasileirinhos e diretora do grupo de discussão e formação de professores da Brasil em Mente.

13 comentários em “O uso de duas línguas no bilinguismo

  1. Você diria, entao, que nao tem diferenca se um pai ou uma mae mistura as línguas ao falar com a crianca? Como é o ensino do português, por exemplo, para uma crianca cujo pai brasileiro com frequência fala português e alemao misturado? O que você acha de educadoras/professoras brasileiras que, em um jardim de infância ou creche bilíngue (português-alemao), falam com as criancas (bilíngues também) misturado português e alemao ? Exemplo: “Quem que um “Wurst”?”, “Agora nós vamos pegar um “S-Bahn” na “Ostbahnhof”? ou “Vamos para o “Spielplatz”?

    Gostaria muito de saber da opiniao de conhecedores/as da língua para entender se esse tipo de mistura realmente nao prejudica o ensino de português (e de alemao) da crianca bilíngue. Ela vai falar as duas línguas perfeitamente mesmo desse jeito?

    Agradeco muito qualquer contribuicao.

    Um abraco,
    Andréa

  2. Olá, Andréa, tudo bem?
    Obrigada pelo seu questionamento.
    O objetivo do post foi uma tentativa de esclarecer como os pais podem ficar mais tranquilos ao misturar as línguas na frente de seus filhos, ou mesmo na conversa com seus filhos, uma vez que as crianças bilíngues conseguem lidar com essas misturas de modo mais natural e conseguem separar as duas línguas ao longo de seu processo de aquisição de linguagem. Vou deixar para falar sobre o contexto de escola bilíngue mais para o final, ok?
    É importante destacar que, mesmo no dia-a-dia, o code-switching não corresponde a ausência de regras no uso de duas línguas, ou seja, não é uma bagunça que cada pessoa fala como bem entende. Pessoas bilíngues fazem isso a depender de alguns contextos, como, por exemplo:
    (a) com quem está conversando: essa pessoa também sabe as duas línguas ou apenas uma? Se a outra pessoa fala apenas uma língua, o bilíngue não vai ficar misturando as línguas e vai buscar manter sua fala apenas na língua que essa pessoa fala;
    (b) situação da conversação: se é um contexto mais formal, o bilíngue busca manter sua fala em apenas uma das línguas, aquela adequada à situação de comunicação. Se é um contexto mais informal e a outra pessoa conhece também as duas línguas, o code-switching já é mais comum;
    (c) Muitas vezes, os bilíngues alternam entre a língua A e B por não conhecer uma palavra na língua A que “traduza” com eficácia algo que ele está tentando expressar e que conhece melhor na língua B. Isso acontece pois a relação entre língua, sociedade e cultura é muito forte. Assim, algumas palavras do português podem ser difíceis de traduzir para o inglês, ou para o alemão (o inverso também acontece), pois seus conceitos são carregados de sentidos sociais e culturais de um país, de um povo, de um grupo social;
    (d) O code-switching não acontece aleatoriamente, desrespeitando regras gramaticais das duas línguas. Um bilíngue não costuma, por exemplo, falar aleatoriamente as palavras das línguas A e B, mas mantém uma estrutura que não fere princípios gramaticais;
    (e) O lugar onde você vive também conta muito como critério para como o code-switching é “organizado”. Se você mora numa região de contato entre duas ou mais línguas (fronteiras de países, por exemplo), a mistura das duas línguas será um fenômeno muito comum. Se você não mora numa região de contato, esse fenômeno será menos frequente, mas também bastante comum entre pessoas bilíngues.
    No contexto de uma escola bilíngue, justamente por ser uma proposta mais formal de educação bilíngue, busca-se controlar melhor o uso das duas línguas. No caso de uma professora misturar as duas línguas, por alguma das razões expostas acima (geralmente, pela dificuldade de encontrar uma tradução eficiente entre as duas línguas), deve ser explicitado para as crianças tal “manobra” e até mesmo, aproveitado para discutir com as crianças sobre o code-switching.
    Muito obrigada pela sua pergunta!
    Abraços,
    Luciana

  3. Excelente artigo. Sou brasileira, casada com um italiano e moro na Itália. Meus filhos, 8 e 2 anos, inciaram a faalr bem cedo, e falavam, no início, mais o português do que o italiano. Hoje falam muito mais o italiano e o mais velho, quando fala o português, usa a estrutura da frase em italiano. Mesmo falando com eles em português, me respondem em italiano. A minha pergunta é: um dia eles falarão fluentemente o português?

  4. Olá, Eliane!
    Outra excelente questão a ser pensada. Muitas vezes, pensamos que por estarmos falando o português com os filhos, eles naturalmente se tornarão falantes dessa língua. Entretanto, não podemos esquecer que o aprendizado de uma língua tem um aspecto social muito forte. O próprio conceito de língua é baseado em sua natureza social e interacional. No seu caso, como de muitos brasileiros que vão morar em outro país, temos que estar atentos ao fato de que a língua falada no país em que se está vivendo vai se tornando cada vez mais a língua mais “funcional” para as crianças, uma vez que é a língua em que a criança identifica mais facilmente um objetivo prático em aprender e desenvolver, por ser a língua falada no meio social que eles estão vivendo. Quando você vive em um país em que o português não é comumente falado, geralmente requer um maior esforço para que os filhos vejam sentido nesse aprendizado. É comum que filhos de brasileiros que vão viver em outro país não aprendam o português por conta da falta de funcionalidade no uso do português.
    Pessoas geralmente aprendem línguas por necessidade, por ver algum sentido no aprendizado, seja prático ou emocional. Assim, se você se preocupa que seus filhos de fato tenham o português como língua de herança, acredito que um passo para você seja tentar resgatar com eles as funcionalidades de se aprender o português; no aspecto funcional, pode ser por eles se sentirem independentes em visitas ao Brasil, conseguindo se comunicar com os outros sem ficar dependente de tradução sua; no aspecto emocional, pode ser por eles conseguirem se comunicar com familiares que moram no Brasil, como tios, avós, primos. Não existe uma fórmula única, infelizmente; a tentativa deve ser no sentido de eles conseguirem encontrar uma necessidade no aprendizado do português.
    Abraços,
    Luciana

  5. Ola Luciana!

    Obrigada pelo artigo! Sou brasileira casada com um bosnio, e moro na Italia. Tenho uma filha de 15 meses. Eu falo portugues com ela, meu marido bosnio, e na escola italiano. Eu e meu marido nos comunicamos em ingles, e eu tambem falo italiano. Consultei especialistas em linguista e amigos em situacoes similares, e acho importante ressaltar que para a crianca crescer realmente bilingue, e preciso que os pais utilizem a sua propria lingua quando conversam com a crianca individualmente. Quando se esta em um ambiente social, por exemplo, um jantar em familia, ai sim e possivel que a conversa seja em outra lingua (no nosso caso, o ingles). Se os pais utilizam mais de um idioma em conversas individuais, ha risco da crianca adotar a lingua com que se sente mais a vontade. Tambem e normal que por um certo tempo, a crianca tente fazer com que os pais falem com ela na lingua que se sente mais a vontade – normalmente, a lingua que se fala na escola. Nesse caso, pais devem ser persistentes, e continuar a responder em sua propria lingua, pois a crianca ira voltar a utiliza-la. Um abraco, Juliana

  6. Olá, Juliana!
    Quando você contou sobre sua história, me lembrei de um menino que já atendi. A mãe era argentina (falava espanhol com ele), o pai era russo (falava russo com ele) e ele morava no Brasil e falava português na escola ou qualquer outra situação com brasileiros. Entre si, na frente do filho, o pai falava português e a mãe falava um portunhol.
    Naquela época, ele (a criança) falava o português e espanhol tranquilamente já; quanto ao russo ele compreendia o pai, mas ainda respondia em português. O pai continuava falando com ele em russo de todo modo. Era parte do processo; ele não estava rejeitando o idioma russo, mas ainda não se sentia seguro para se expressar nessa língua.
    Apenas destaquei esse caso pois me pareceu muito similar com o que acontece no seu caso. E os pontos que vc destacou são mesmo importante. Primeiro, buscar ajuda de profissionais que podem auxiliar no modo como as interações serão organizadas; e segundo, manter uma regularidade. E , tb como vc disse, no dia-a-dia, nos deparamos com situações sociais em que manter um ideal fica difícil, sendo necessário falar outra língua que não a língua materna na frente dos filhos, e devemos compreender que essa flexibilidade não afetará o processo de aquisição de linguagem deles.
    Cada família terá suas particularidades quanto ao modo que os filhos serão expostos ao bilinguismo, justamente porque tem que se pensar em toda uma conjunção de fatores (língua materna da mãe, do pai, país onde vivem). E essas estruturas variam de acordo com a sociedade em que a família está inserida.
    A maioria dos brasileiros ainda cresce em ambiente monolíngue. Mas estudos apontam que o bilinguismo é mais comum no mundo do que o monolinguismo. Muitas sociedades convivem com a presença de duas ou mais línguas rotineiramente. E quando os próprios pais já são bilíngues, ou trilíngues, a alternância entre as línguas costuma ser bastante comum.
    Muito obrigada por seu comentário!
    Abraços,
    Luciana

  7. Oi Luciana,

    Respeito sua opinião profissional, mas é contrária a tudo o que aprendi na prática. Li seu artigo seguinte também. Concordo que o sotaque dos pais não vai influenciar o da criança na língua majoritária do país. Mas misturar palavras em mais de um idioma, além de desnecessário, na minha opinião prejudica sim o vocabulário da criança na língua minoritária (no nosso caso, o português).

    Não cabe a comparação entre os adultos estrangeiros que misturam idiomas conversando entre si e enquanto falam com as crianças. Também não se pode comparar com crianças em países onde há mais de uma língua predominante. Os brasileiros expatriados que acham legal misturar as palavras ou o fazem por terem esquecido como se diz X ou Y em português (quanto menos se usa, maior a chance de esquecer) não estão na fase de aprender a falar português. Já as crianças, se sempre escutarem que isso está “boring” (pra usar uma das palavras em inglês preferidas dos meus amigos que misturam idiomas), nunca vão aprender que existem as palavras chato, entediante, maçante, porre… A gente não memoriza somente palavras, é preciso usá-las em contexto. Misturar é negar à criança a oportunidade de aprender como se diz aquilo em português, como se expressar corretamente naquele idioma. É furtar dela a chance de aprender a conversar como se conversa no Brasil.

    Tenho vários casais de amigos brasileiros aqui no Canadá cujos filhos não falam português. Os pais ACHAM que só falam português com as crianças, JURAM que tentam de TUDO, mas nem percebem que raramente sai uma frase inteira em português. Um exemplo típico são as palavras relacionadas à vida escolar. É um tal de “fui falar com o principal” e “a tutor disse isso” ou “recebi o report card”, como estas crianças vão aprender a usar em contexto “diretor”, “professora particular” e “boletim”? A não ser que passem uma temporada no Brasil, conversando sobre isso, não vão.

    Como em tantos aspectos da maternidade, não há somente um jeito correto de fazer as coisas, mas quando se tem convicção, não é difícil conseguir falar sem misturar. Palavra de quem mora há 13 anos fora do Brasil, casada com um marido que é imigrante do leste europeu e tem 2 filhos nascidos no Canadá, falando português fluente e com sotaque de brasiliense, como o meu. Quando vamos de férias, nem os adultos notam que meus filhos não são nascidos e criados no Brasil. Tenho certeza de que não são mais inteligentes do que os filhos dos meus amigos brasileiros nascidos aqui e que não falam português.

    PS: Na minha terra, mandioquinha é batata-baroa. Achei que aqui fosse parsnip (já vi muito no supermercado), mas como não gosto, nunca provei pra ver se era igual.

    1. Olá, Flávia, tudo bem?

      Muito obrigada por colocar aqui sua opinião! É muito importante mesmo essa discussão visto que é um tema realmente complexo e instigante.

      Entendo seu posicionamento. Vou te responder por partes.

      Primeiramente, acredito que grande parte de sua opinião seja relacionada ao modo negativo com que vc encara o code-switching. Para casais bilíngues, o code-switching é um fenômeno muito natural visto que ambos conhecem as duas línguas e, de modos diferentes, as duas culturas. Essa alternância acontece por diferentes razões, algumas regras foram as que escrevi anteriormente e não existe nada de ruim ou negativo nisso (você poderá ler na citação abaixo). O próprio code-switching é um sistema regrado estudado na linguística para que se possa desvendar como funcionam essas interações. Minha opinião não se trata de convicções pessoais, de achar que isso é certo ou errado, mas da observação de resultados de estudos e pesquisas da área, que vêm crescendo muito e desmistificando muitas dúvidas e preocupações na educação das crianças bilíngues.

      Vou colar aqui uma parte de um artigo sobre isso. O nome do artigo é “Raising Bilingual Children: Common Parental Concerns and Current Research” (KING and FOGLE, 2006). Caso tenha interesse em ler o artigo completo, o link é: http://www.cal.org/resources/digest/digest_pdfs/RaiseBilingChildi.pdf.
      É curtinho, e tem informações importantes. Eu o escolhi por ser bem didático. Eis o trecho:

      “Many of the parents interviewed worried that their children would experience confusion due to exposure to two languages. Some believed that language delay was the result of this confusion. Several advice publications (e.g., Eisenberg, Murkoff, & Hathaway, 1989; Honig, n.d.) suggest that confusion could be avoided by using the one-parent, one-language approach to bilingual childrearing, in which each caregiver uses only one language with the child and parents refrain from using two languages in the same conversation.
      However, research indicates that the ability to switch back and forth between languages, sometimes called code-switching, is a sign of mastery of two linguistic systems, not a sign of language confusion, and that children as young as 2 are able to code-switch in socially appropriate ways (Lanza, 1992). Research also shows that many normally developing bilingual children mix their two languages, with the type and amount of code-switching depending on environmental factors, such as how much the parents or wider community engage in code-switching.
      As to the effectiveness of the one-parent, one-language approach, there is evidence that it can lead to the development of children’s active competence in two languages, but it can also result in passive bilingualism (Döpke, 1992; Yamamoto, 1995), in which children understand both languages but speak only the majority language (i.e., the high status language of the wider community). This approach is one option for raising bilingual children, but parents do not need to fear language confusion if they opt for another approach, such as using only the minority language in the home or using both languages in the same contexts. Parents instead should be encouraged to think about the total quantity and quality of exposure to both languages that their children receive.”

      Segundo, você comentou sobre brasileiros que fazem isso e deu alguns exemplos. No final desse mesmo trecho, você pode ler que “parents instead should be encouraged to think about the total quantity and quality of exposure to both languages that their children receive.” Quando se está educando um filho bilíngue, sim, existem cuidados que têm que ser tomados! Nisso eu jamais vou discordar de você. Então, deve-se evitar simplesmente substituir palavras de uma língua para a outra, sem expor seus filhos às palavras do português, como nos exemplos que você mencionou. Os pais devem expor ambas as línguas aos filhos. Se você estabelece que “principal” sempre substitui “diretor”, realmente o filho não terá de onde resgatar a palavra em português se não for exposto a ela nesse contexto. Fazendo isso, você acaba não expondo seu filho a ambas as línguas, pois você não está usando as duas línguas, mas engessando o uso de determinadas palavras apenas em uma delas.

      Quanto a filhos que acabam por não falar o português, pode-se pensar na relação que a família tem com o português e se os pais conseguiram despertar no filho o desejo de ter o português como língua de herança, seja pela relação afetiva com um dos pais (ou ambos) passar pelo português, seja pela sua identificação com a cultura brasileira, dentre outros fatores. O fato de a criança desenvolver ou não uma língua de herança é muito mais relacionada a fatores como necessidade prática ou vinculo emocional com a língua do que com aspectos formais. Os aspectos formais influenciam numa maior ou menor proficiência da criança nas duas línguas, mas o desejo de manter o português como língua de herança passa muito mais pela identificação com a língua.

      Acredito que algumas perguntas que você pode se fazer sobre isso são: quanto aos pais que você observou que substituem sistematicamente palavras do português por palavras do inglês (“diretor” por “principal”, “professora particular” por “tutor”), qual a relação deles com o português? Qual a identificação deles com o português? É uma identificação positiva? Se a própria identificação dos pais com o português não for muito forte (e que pode não ser e não tem problema algum), a criança pode perceber isso de algum modo e não conseguir desenvolver a necessidade de aprender o português. Na verdade, quando uma criança começa a rejeitar uma língua (a língua minoritária, que não é falada em seu meio-social), tem que se pensar em uma conjunção de fatores para isso. Não existe apenas um motivo que leva crianças a rejeitarem uma língua de herança e cada caso deve ser pensado dentro de suas circunstâncias.

      Ah.. quanto à mandioquinha.. a parsnip não é igual não.. já pesquisei sobre isso, não tem mesmo, uma tristeza pra mim que amo mandioquinha rsrs

      Eu realmente espero ter conseguido te deixar menos receosa em relação ao code-switching. Realmente há um ideal no senso comum que vincula esse fenômeno a confusão entre línguas, ou ao não conhecimento das línguas, mas não é o que os estudos vêm mostrando. Esses estudos me fazem pensar no code-switching mais como uma ampliação de possibilidades de comunicação e de pertencimento cultural do que como um problema. Mas, claro, se em sua convicção ele não entra, então, deixe-o fora. Não devemos fazer nada que pareça agressivo a nós mesmos, ainda mais na educação dos filhos, ok?

      Obrigada por suas colocações. Tenho certeza que muito mais pessoas pensam como você e é ótimo podermos falar sobre isso.

      Beijos,

      Luciana

  8. Olá Luciana,
    Adorei o texto e quero deixar aqui a minha experiência: sou brasileira e moro na Alemanha. Meu namorado é alemão e já morou no Brasil. Ele fala português e eu falo alemão e nós somo super adeptos do code-switching. É divertido e as frases tem contexto. Agora, quando eu percebo que ele falou a frasem portugues com uma palavra em alemao que ele ainda nao conhece em portugues, eu repito com a palavra certa, pra ele ampliar o repertório de palavras. Por exemplo: se ele diz “Hoje eu comi um Wurst e tava muito bom”, eu respondo “ah, tava gostosa a salsicha?” Talvez essa seja uma boa saída para pais que educam crianças bilingues.

  9. Adorei o blog de vocês.
    Como sou metida, vou deixar aqui os meus 2 cents!
    Acho code-switching o máximo, pois na verdade até os brasileiros já o fazem naturalmente por aqui por conta da Internet. Meus filhos cresceram em Montreal onde code-switching é normal. Aqui em casa além de fazer até hoje,tínhamos os nossos próprios codes como chamar os pés de feetchis (one foot, two feetchis). Eles adoravam as brincadeiras de misturar as línguas. Meu filho ria toda vez que lia ou via a palavra “foca”… muito parecida com a f word. Eu os criei sem pensar muito na questão, embora me preocupasse um pouco. Minha mãe mandava os vídeos da Monica e do Castelo Rá-tim-bum. Meu único guia foi um documentário de David Suzuki sobre crianças bilíngues. Além disso, eles nunca quiseram “pagar o mico” de falar português na frente dos canadenses e inglês na frente de brasileiros.
    No final deu tudo certo, mas como eu gostaria de ter tido um blog como este há 20 anos!
    Usha

  10. Obrigada pelo post.
    Tenho descendência japonesa e há algum tempo estava receosa no meu modo de ensinar.
    Tenho uma filha de 1 ano e falo com ela em português quando estou com o meu marido. Já quando estou com a minha família, converso em japonês com a minha filha.
    Ou seja, uma hora estou falando em japonês e em outro momento, em português.
    A minha mãe que cuida dela fala somente em japonês. Meu marido só em português e eu alterno entre português e japonês.
    Com o seu post, percebi que não preciso me preocupar, pois ela saberá diferenciar os idiomas.
    Obrigada!

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