O uso de duas línguas no bilinguismo: comentários da autora

Por Luciana Lessa, PhD
Coluna Lendo

Muito obrigada pelos comentários de vocês. As respostas me ajudaram a perceber pontos do texto que podem não ter ficado muito claros, especialmente, a falta da definição do code-switching, uma vez que não corresponde a uma mistura aleatória entre línguas, e sim um fenômeno permeado por regras (algumas estão listadas abaixo).

O uso da Índia como exemplo foi uma tentativa de levantar a reflexão de que se as crianças conseguem separar as línguas ao longo de seu processo de aquisição de linguagem numa sociedade em que a interação dos pais com os filhos não é baseada no método “um-pai-uma-língua” e a mistura das línguas é algo bastante comum, filhos de brasileiros que vivem em outro país não serão prejudicados com eventuais ocorrências de code-switching.
O post não se trata de uma defesa de que qualquer mistura entre línguas seja aceitável. Por isso que uma grande falta foi a contextualização de algumas regras que permeiam o code-switching de acordo com estudos da Linguística. Uma pessoa já tinha levantado uma dúvida no blog e eu já havia percebido que o problema havia sido esse.

Meu marido é americano e fala português fluentemente. Nós primeiro moramos juntos no Brasil, assim o Português foi a língua que nós nos acostumamos a interagir mais no início de nosso relacionamento. Agora estamos morando nos EUA e buscamos falar predominantemente em Inglês, e muitas vezes o code-switching acontece. Por exemplo, quando eu quero falar que sinto falta de mandioquinha, não tem uma tradução em inglês. Olha que eu já procurei, porque queria encontrar nos mercados, mas não tem. Ele também faz isso, pois ele faz o chá gelado em casa com o Chá Mate. Então, quando quer ir ao mercado brasileiro comprar Mate, sem dúvidas que ele diz algo como: I need to buy Mate (juro que a gente faz outras coisas além de comer, tá? rs).

Se seu cônjuge americano não fala português, naturalmente você não vai misturar as línguas, senão você não será compreendida. A não ser que ele aos poucos aprenda palavras que são características de nossa cultura e que apresentem essa dificuldade na tradução.

De todo modo, parece que muitas pessoas ainda apresentam mais resistência, mesmo com a mistura de línguas melhor “regulada”. Bem, isso se trata de uma questão/opção mais pessoal mesmo. Se pra você, misturar é algo negativo e isso te incomoda, então, não misture.

Mas cuidado ao colocar isso como uma regra muito rígida, pois muitos pais fazem isso (especialmente casais que são ambos bilíngues e que mantêm um contato forte com ambas as culturas) e as crianças adquirem as duas línguas normalmente. Eu já soube de casos que eu mesma achei bastante confusa a regra de interação estabelecida e mesmo assim deram certo. Muito provavelmente porque na aquisição de línguas existem muito mais aspectos em jogo do que apenas os formais.

A identificação de seu filho com o Brasil, com a cultura brasileira, é um aspecto importantíssimo, por exemplo, para que ele não vá deixando o português de lado aos poucos. Se, ele tiver desenvolvido o desejo de manter o português como língua de herança por conta dessa identificação, pode ter certeza que ele seguirá com isso e buscará estar sempre em contato com a língua de alguma maneira.

Sobre o code-switching
É importante destacar que o code-switching não corresponde a ausência de regras no uso de duas línguas, ou seja, não é uma bagunça que cada pessoa fala como bem entende. Pessoas bilíngues fazem isso a depender de alguns contextos, como, por exemplo:

(a) com quem está conversando: essa pessoa também sabe as duas línguas ou apenas uma? Se a outra pessoa fala apenas uma língua, o bilíngue não vai ficar misturando as línguas e vai buscar manter sua fala apenas na língua que essa pessoa fala;

(b) situação da conversação: se é um contexto mais formal, o bilíngue busca manter sua fala em apenas uma das línguas, aquela adequada à situação de comunicação. Se é um contexto mais informal e a outra pessoa conhece também as duas línguas, o code-switching já é mais comum;

(c) Muitas vezes, os bilíngues alternam entre a língua A e B por não conhecer uma palavra na língua A que “traduza” com eficácia algo que ele está tentando expressar e que conhece melhor na língua B. Isso acontece pois a relação entre língua, sociedade e cultura é muito forte. Assim, algumas palavras do português podem ser difíceis de traduzir para o inglês, ou para o alemão (o inverso também acontece), pois seus conceitos são carregados de sentidos sociais e culturais de um país, de um povo, de um grupo social;

(d) O code-switching não acontece aleatoriamente, desrespeitando regras gramaticais das duas línguas. Um bilíngue não costuma, por exemplo, falar aleatoriamente as palavras das línguas A e B, mas mantém uma estrutura que não fere princípios gramaticais;

(e) O lugar onde você vive também conta muito como critério para como o code-switching é “organizado”. Se você mora numa região de contato entre duas ou mais línguas (fronteiras de países, por exemplo), a mistura das duas línguas será um fenômeno muito comum. Se você não mora numa região de contato, esse fenômeno será menos frequente, mas também bastante comum entre pessoas bilíngues.

Espero que a questão tenha sido esclarecida. Adorei ver e saber de tantos comentários. Comentem mais.

Luciana Lessa é Doutora em Linguística, é parte do corpo docente da Georgia State University e participa de importantes grupos de discussão sobre a aquisição da linguagem falada e escrita. É autora da coluna Falando na Plataforma Brasileirinhos e diretora do grupo de discussão e formação de professores da Brasil em Mente.

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5 comentários em “O uso de duas línguas no bilinguismo: comentários da autora

  1. Oi! Obrigado pelo blog. Eu moro na França e sou mãe de um menino de 4 anos e durante muito tempo tive muitas duvidas relacionadas ao uso de duas linguas. Meu marido não fala português e até agora eu falava francês com meu filho para que ele não se sentisse excluido das conversas. Também porque ficava com medo do Benjamin chegar à escola sem dominar a lingua francesa e passar por dificuldades. Mas agora que descobri esse blog tirei um peso enorme das costas. Estou tentando falar mais português com ele; confesso que é dificil, porque o habito de sempre falar francês ainda esta muito presente, mas fico sempre atenta para falar em português e repito em português o que ele me diz em francês. Ele é o que vocês chamam de bilingue passivo. Para recuperar o tempo perdido estou tentandoformar um grupo de mães brasileiras aqui na cidade para possibilitar aos nossos filhos encontrar outras crianças que falem português (meu filho ainda me diz, estamos na França temos de falar francês!). Bom, ja falei demais, queria agradecer pelos artigos e continuarei fiel seguindo vocês! Beijo.Shirley

  2. Olá, Shirley!
    Muito obrigada pelo seu comentário.
    Como você poderá conferir em artigos do blog, diversos estudos vêm desmistificando a ideia de que o bilinguismo possa interferir negativamente na aquisição de linguagem. Ao contrário, o bilinguismo é apontado como um fator bastante positivo, não apenas pelo fato de a pessoa bilíngue poder falar duas línguas, mas, além disso, como lidar com duas línguas afeta positivamente algumas habilidades cognitivas, por exemplo.
    Você comentou, por exemplo, sobre seu medo de que ele tivesse dificuldades com o francês. Na verdade, essa é a língua que vc menos precisa se preocupar, por ser a língua falada no país em que vivem; ele vai estar em contato com o francês o tempo todo, na escola, com amigos, além de ser a língua com que vc e seu marido se comunicam em casa. Ou seja, no caso do francês, você não precisa se preocupar em explicitar para ele razões ou necessidades para que ele aprenda pois o tempo todo ele está imerso em interações que envolvem o uso dessa língua. No caso do português, por não ser uma língua partilhada socialmente na França, você precisará de mais esforço para que ele compreenda e incorpore motivos que o levem a desenvolver o português como língua de herança.
    Sua iniciativa de buscar um grupo de mães brasileiras é ótima! Esse post aborda um pouco essa questão:
    https://brasileirinhos.wordpress.com/2013/01/28/a-importancia-do-grupo-no-desenvolvimento-da-linguagem/
    Tem tudo a ver com ele perceber que, sim, estão na França e aí se fala francês, mas ele também tem raízes em outro país, e também faz parte de um outro grupo social. Ele pode perceber até mesmo como a ligação com o Brasil e o português é viva e importante para você e isso já pode acender nele um maior interesse pela língua e cultura do Brasil. Para crianças, argumentos mais racionais são mais difíceis para elas compreenderem (como: falar outra língua te ajudará profissionalmente no futuro..); assim a criação de um vínculo da criança com o Brasil, seja pelo contato com parentes que ainda moram no Brasil pelo Skype, seja por visitas ao Brasil, seja pela integração em um grupo de brasileiros na França, é muito importante para que a criança passe a querer aprender o português e veja uma necessidade nisso.
    Boa sorte e qualquer dúvida nos escreva!
    Abraços,
    Luciana

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