Perfil e Opinião: um jeito delicioso de falar português

Por Luciana
Perfil e Opinião

familyMeu nome é Luciana. Sou brasileira, paulista, descendente de italianos e portugueses, casada com canadense, de Winnipeg. Residimos em Vancouver há treze anos e temos dois filhos, uma menina de oito anos e um menino de três anos, ambos nascidos no Canadá.

Assim como a maioria das famílias que mora fora do Brasil, a minha maior preocupação, quase uma obsessão hoje em dia, é fazer com que meus filhos falem bem o português e conheçam tudo sobre o Brasil. Meu objetivo principal é incentivá-los a se expressarem com desenvoltura em português. Não me importo com o sotaque, mas tem que falar, ler e escrever bem e para isso, devem conhecer a cultura, o folclore e a história brasileira.

Nós aqui leitores, pais ou não de filhos bilíngues, já ouvimos e lemos diversos artigos sobre bilinguismo e multiculturalismo e temos conhecimento das dificuldades de manter ou ensinar a língua nativa dos pais aos filhos residentes fora do Brasil. Eu cometi vários erros na maneira como introduzi o português em minha casa como mãe de “primeira viagem”. Mas com os meus erros também aprendi que há certos fatores e estímulos determinantes no desenvolvimento e aprendizado de uma língua.

Acho que é unânime o entendimento de que contar histórias e ler livros em voz alta todos os dias para as criancas, ouvir músicas brasileiras, estimular brincadeiras de rua como fazíamos em nossa infância, consistência, persistência e disciplina, são apenas algumas maneiras comprovadamente eficazes de estimular a habilidade e o desenvolvimento de uma língua. Como esse tópico é para as especialistas, não vou me meter a discutí-lo.

Gostaria de contar uma história para os leitores sobre como descobri mais uma forma legal, descontraída e deliciosa (literalmente) de fazer com que meus filhos se envolvam mais com a nossa cultura e falem mais a língua portuguesa.

Foi na hora mais feliz em nossa casa, que é a hora do jantar, quando desligamos todos os eletrônicos e juntos conversamos sobre o dia de cada um, que percebi que um dos assuntos favoritos da criançada era sobre o que estavamos comendo.  Passamos a discutir como é feita a comida, se vem da terra, da árvore e o nome do pé e se for típica, de qual país. Como o prato do dia tem sempre um toque especial da cozinheira brasileira – “eu” – percebi que sempre tínhamos muitas coisas relacionadas ao Brasil para conversar. Assim a história vem se repetindo. Descobrimos uma interminável gama de assuntos que passamos a explorar na hora do jantar e sempre relacionados com a comida, desde o nome dos ingredientes, as cores, as formas, passando pelos estados, capitais até as quantidades e texturas, além das boas lembrancas que cada prato traz.

Eu sou daquelas pessoas que adora comer; adoro exercícios também, não somente pelos benefícios que trazem, mas também porque me permitem chegar de uma corrida, por exemplo, e comer tudo o que eu desejo e gosto, sem muita culpa. Os meus pratos favoritos são aqueles que minha mãe fazia durante a minha infância. E com o cheiro das comidas preferidas acompanham as memórias mais legais do Brasil. Percebi que eu gostaria de transmitir mais essa herança aos meus filhos, além claro de praticar o português; quero que eles tenham essas lembranças também quando crescerem. Não serão lembranças do Brasil, porque eles não estão crescendo lá, mas sim, memórias de nossa vida no Canadá, memórias canadenses com sotaque brasileiro. Eu quero que quando eles forem visitar os parentes lá no Brasil, associem o cotidiano da vida brasileira com o nosso cotidiano canadense e assim percebam como a influência brasileira esta presente na vida deles.

Me lembro até hoje de chegar da escola e sentir aquele cheirinho de feijão cozinhando. Feijão com linguíça, acompanhado de farofa com couve; as saladas verdes que minha mãe criava nas quais não faltava palmito, tomate e ervilha (quem põe ervilha da lata na salada !?). Meu pai comprava maracujá fresco na feira (para falar a verdade ainda compra), congelava a polpa e tomávamos suco de maracujá nos finais de semana. E sexta-feira? Ah, este era o melhor dia da semana. Era o dia de pizza, e comíamos, além das tradicionais marguerita e portuguesa, a de atum, com milho, muçarela e muita cebola. E assim vai, tenho uma lista enorme de comidas-lembrança.

E quem não tem milhões de ótimas lembrancas de fatos associados a determinados pratos que costumava comer antes de se mudar, de casa ou de país? Arroz com feijão, bife à role, ovos pochê, polenta com molho a bolonhesa, acarajé. Biscoito de polvilho e de nata, picadinho, kibe, bife à milanesa e à parmegiana, panqueca, cupim ao molho madeira e empadão de frango. Cajuzinho, pão-de-queijo, brigadeiro, coxinha, pipoca com vinagre e pimenta na porta do cinema, quentão, vinho-quente, creme de milho com lombo, alcachofra fresca cozida regada a vinagrete de tomate, suco de cana-de-açúcar e acerola. A lista é interminável.

Então, foi justamente numa sexta-feira que fizemos pizza de atum, a favorita da minha filha, que a nossa aula de gastronomia e multiculturalismo se iniciou e nunca mais terminou. Minha menina perguntou por que não tem pizza de atum para vender aqui? E o meu filho afirmou que o côco vem do “coconeiro” (ainda estamos treinando a dizer coqueiro).  Aí foi uma longa conversa bacana sobre o comida brasileira e o Brasil, tudo em português, regado a suco de maracujá e com direito a doce de leite com queijo de sobremesa.

Espero que vocês também compartilhem todas as suas boas memórias com os seus filhos, principalmente aquelas relacionadas a um dos grandes prazeres da vida:  comida boa!  Mas tudo em português!

Abraços.

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7 comentários em “Perfil e Opinião: um jeito delicioso de falar português

  1. Amei o Post e viajei com vocês nessa viagem gastronômica!! Gostei muito da sua dica e também acredito que devemos repassar nossa cultura e língua com bastante alegria e entusiasmo, só assim os pequenos irao sentir prazer em aprender!

  2. Sem dúvida! Uma excelente forma de compartilhar a língua e os costumes, de trocar ideias e lembranças. Afinal, a vida é feita de lembranças. A motivação é a chave de tudo e não há melhor do que uma refeição, sobretudo, com os “pequeninos”. Parabéns, Brasileirinhos pelo artigo!
    Abraços,
    Aulas Lusofonia Galiza
    http://lusofoniagaliza.blogspot.com.es/

  3. Estou feliz e orgulhosa de voce , minha filha. Parabens pela iniciativa de ensinar aos meus netinhos a falar em português , seja qual for o meio; musica, alimentação etc. . Estou emocionada e agradecida. Beijos da mamãe.

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