Planejamento linguístico + políticas linguísticas familiares, muito prazer

Por Andreia Moroni. Post #150

Para nós, homines e mulieres sapientes brasileiros que provavelmente crescemos monolíngues, é possível que as línguas diferentes da “materna” sejam tudo a mesma coisa: língua estrangeira lá no nosso balaio de gatos. E que não fique tão claro assim por que o português que a gente ensina pro filho, que mora e cresce no exterior conosco, falando também a língua desse outro lugar, não é exatamente uma língua estrangeira (como a gente gosta de chamar por aqui, isso é “português como língua de herança”, PLH).

Embora aparentemente “estrangeiras”, no sentido de ser de um outro lugar que não aquele em que a gente está, “língua de herança” e “língua estrangeira” não são a mesma coisa. E quem está tratando de aprendê-las tem necessidades bastante diferentes nos dois casos.

Imagine que você resolveu fazer um curso de língua estrangeira, vamos radicalizar e pensar que você quer aprender russo, chinês ou sueco. E na verdade não sabe lá grandes coisas do povo ou cultura desses países. Você começa a frequentar duas vezes por semana uma aula de uma hora e meia e vai aprendendo, aos poucos e tudo ao mesmo tempo, a ler, escrever, falar, escutar, a gramática e as expressões idiomáticas, com pinceladas de informação cultural que vão te explicando como são os hábitos das pessoas que vivem nesses lugares.

Para alguém que quer aprender ou melhorar sua proficiência em sua língua de herança, esse esqueminha não é o melhor dos mundos. No pior dos casos, o aprendiz de língua de herança já costuma trazer uma bagagem importante de compreensão oral dessa língua (mesmo que não a fale), se sai melhor no listening e também na produção oral e traz muita, muita informação cultural sobre os usos e práticas dessa língua e cultura, não raramente achando um absurdo a maneira estereotipada como essa cultura que ele conhece tão bem e traz no coração é retratada nos livros didáticos.

O que tenho observado e pesquisado são as iniciativas existentes ao redor do mundo para a manutenção do PLH com a criançada. Esses projetos parecem ter muitos pontos em comum e espero um dia poder coletar informações suficientes para corroborar essa hipótese (adoraria receber convites para fazer trabalho de campo em todos esses lugares, se você que está lendo souber de uma dica preciosa sobre como pedir um apoio para viabilizar essa empreitada no seu país, me conte!).

Em primeiro lugar, esses projetos de aulas e encontros em português são uma extensão da vontade das famílias. Os projetos surgem por iniciativa de um grupo de pais preocupados com que seus filhos aprendam o português (e, consequentemente, também a cultura do Brasil). Não é o Itamaraty, o MEC do Brasil, a prefeitura da cidade ou o governo federal do seu país estrangeiro que resolveu dar o pontapé inicial na ideia, embora todo apoio seja bem-vindo e muitos países sejam receptivos à ideia e deem sua ajudinha, à qual muito agradecemos.

Isso quer dizer que a vontade de que as crianças aprendam português já vem de dentro de casa, e o hábito de se falar português costuma ser uma realidade que faz parte das famílias.

     Juntando uma coisa com outra, a formulinha vai mais ou menos assim: as crianças já estão em contato com a língua e falando alguma coisa de português, chegam nas aulas e a grande sacada não é só a aula em si (momento formal de aprendizagem), mas o mundo de possibilidades que se abre por elas estarem em contato com outras crianças na mesma posição, além de toda a comunidade de falantes que está ao redor – os demais pais, professores, simpatizantes e toda a vida social que brota dali, de um piquenique ou convite para brincar com os amigos às festas de carnaval, festas juninas e por aí vai. A língua deixa de ser algo que acontece só em casa e com os pais e passa a ter uma função social, é através dela que se dão todas essas vivências e esse aprendizado cultural: ela passa a ter uma função real pra criança.

O papel das aulas entra, principalmente, se o que se deseja é que a criança seja um usuário proficiente da língua lida e escrita (o que chamam de literate, em inglês). Existem outros caminhos de construir esse aprendizado (muitos corações de gratidão e inspiração para exemplos como o da Claudia Storvik aqui, aqui e aqui, mas se você tem a possibilidade de contar com uma proposta formal de aprendizagem aí onde está, eu não a desconsideraria.

Sempre vai ser mais fácil chegar na biliteracy se a criança já tiver um bom domínio oral da língua antes de entrar na parte de leitura e escrita. Daí a relevância de todo aquele trabalho que começa no berço. E, olha, se você pensa nisso desde que estava grávida, parabéns, você não é só uma mãe coruja preocupada e exagerada: você tem uma postura ativa em relação ao planejamento linguístico da sua prole e provavelmente está colocando seu grãozinho de areia na política linguística familiar e da comunidade brasileira à qual pertence.

família

Porque tudo isso, decidir falar português em casa, levar o filho nas aulas e encontros, ajudar a organizar a festa junina (ajudem, ajudem, dá um trabalhão, sempre tem alguma coisinha pra fazer que não vai ocupar todo o seu tempo do mundo), ler livrinho em português, assistir um milhão de vezes aos clipes da Galinha Pintadinha, é planejamento linguístico e faz parte de uma política linguística. Mesmo que seja sua e da sua família, e não de toda a nação brasileira da diáspora. Política e planejamento não precisam ser macro e acontecer em grande escala pra ser efetivos e (surpresa!) estão aí mesmo que você não se dê conta.

Para quem quiser sair da caverna e participar das atividades de algum grupo que trabalha pelo PLH, convidamos a clicar aqui e conhecer algumas iniciativas ao redor do globo. Você conhece alguma que ainda não está no mapa?
Conte para nós, será um prazer incluí-la.

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3 comentários em “Planejamento linguístico + políticas linguísticas familiares, muito prazer

  1. Achei muito pertinentes as considerações e os pontos levantados neste texto: parabéns! Desde outubro de 2014 sou professora de PLH em uma iniciativa (informal, pois tem periodicidade semanal, de 3h) de Roma – Itália, que propõe atividades com crianças brasileiras já alfabetizadas, de 6 a 12 anos. Como educadora, junto com outro professor, posso afirmar que a dificuldade maior não está no bilinguismo e sim no biculturalismo: muitas crianças possuem boa proficiência na fala e na leitura, mas desconhecem nosso acervo musical (infantil, MPB, samba etc.). O que temos feito, com certo amargo na boca, além de promover a proficiência na escrita, é APRESENTAR – MOSTRAR – ENSINAR a cultura, o folclore do Brasil em nosso encontro aos sábados.

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