A relação dos pais com a fala da criança

Por Luciana Lessa, PhD
Coluna Falando

Você com certeza já vivenciou a situação em que um adulto, ao se dirigir a uma criança pequena, modifica sua fala (por exemplo: “Voxê é a coixinha maix linda!”, “Voxê té uma futinha?”). Esse tipo de ajuste de fala ao se comunicar com uma criança é uma atitude bastante comum de pais brasileiros.

Sabemos que é quase instintivo em nossa cultura se dirigir à criança de um modo mais carinhoso e uma das maneiras que encontramos de fazer isso é através da fala. Muitas mães recorrem a uma fala mais infantilizada como forma de criar uma relação de afeto com o filho, com a preocupação de ele se sentir acolhido, protegido, especial, fofo, lindo, cheiroso! rs

Entretanto, uma vez que a relação com os pais é algo muito forte para as crianças, que envolve, dentre outros valores e princípios, identificação, proteção, aceitação, ensinamento, a sugestão é que se evite falar de forma infantilizada com o filho.

A sugestão não se trata de deixar de expressar esse carinho em sua fala. O tom de voz mais “suave”, uma fala mais lenta, a presença de onomatopeias de fato contribuem para o estabelecimento de uma relação próxima entre pais e filhos. Entretanto, uma infantilização na forma de produzir os sons que parte espontaneamente dos pais, ou como cópia da fala do filho após uma palavra “engraçadinha” que o filho falou pode contribuir para que a criança tenha mais dificuldades para reconhecer as diferenças entre sua fala (ainda em aquisição e com “erros”) e a fala do padrão adulto (o “padrão-alvo” da língua em aquisição).

Claro que tal sugestão não se trata de uma regra extremamente rígida; pode-se dizer que certa flexibilidade não seria um fator prejudicial, especialmente no caso de pais educando os filhos na mesma língua falada onde vivem. Mesmo que esses pais usem em certos momentos uma fala mais infantilizada, o fato de essa fala não ser a regra da interação com a criança e, além disso, o fato de a criança estar imersa o tempo todo na língua falada onde se vive, contribuem para que ela não venha a ter dificuldades com o sistema de sons da língua.

Para pais brasileiros que não moram no Brasil e ensinam a seu filho o Português como língua de herança, a sugestão de evitar a fala infantilizada deve-se manter de forma mais rígida pelo fato de a criança não estar imersa numa sociedade falante do Português e, portanto, ela não encontra tantas fontes variadas de interação e vivência nessa língua, sendo os pais brasileiros a principal fonte de inserção dessa criança no Português.

Como afirmado anteriormente (e nesse caso reforçado), a fala infantilizada dos pais pode dificultar que a criança reconheça a diferença entre sua fala e o alvo da língua em aquisição, uma vez que os pais igualam a sua fala à do filho, quando no processo de aquisição de linguagem, o ajuste deve ser no caminho oposto.

Mas o que mais pode estar em jogo nessa relação da fala dos pais com o filho?

Embora a preocupação geral se refira prioritariamente a questões formais de uso da língua (“se você falar errado, seu filho vai te imitar”), existem outras atitudes ligadas à relação dos pais com a fala do filho que também merecem atenção.

O modo como uma criança se relaciona por meio da linguagem é extremamente vinculado à relação dos pais com a fala do filho. Por exemplo, se a relação de afetividade entre os pais e o filho for de algum modo atravessado pela fala “errada” da criança, a consequência pode ser a “compreensão” de que seu lugar como sujeito da linguagem ainda é o da criancinha que fala de forma “engraçadinha”, mesmo que a idade já não seja mais compatível com a fala que a criança vem apresentando. Isso gera na criança um receio de que mudanças na sua fala possam ser negativas para essa relação de afeto com os pais.

Um exemplo vem da prática fonoaudiológica com crianças com dificuldades de produção de sons. A criança, uma menina de 6 anos de idade, apresentava características de uma fala infantilizada (além de uma voz infantilizada, falava PÓA, para BOLA; MAXÃ, para MAÇÃ, CAIA, para CARA, etc). Logo numa das primeiras sessões, a mãe questionou se a fala da criança estava sendo gravada. A fonoaudióloga respondeu que sim. A mãe explicou: “Ah que bom! Depois que ela mudar o jeito como fala, posso ter uma cópia? Porque é tão bonitinho!”. Durante as sessões de terapia, a paciente sempre mostrava certa resistência na realização das atividades propostas. Certo dia, ao ser questionada sobre seu desejo de estar em terapia, ela disse: “Não quero mudar o jeito de falar”. A fonoaudióloga perguntou o por quê. Ela respondeu: “Porque aí eu vou deixar de ser eu mesma”.

nhem nhem...Com base no contexto geral da relação da família com essa paciente, a “tradução” para essa sua fala seria de que, mudando o jeito de falar, ela perderia o lugar de “bebê” da casa. Assim, o que esse exemplo nos mostra é como a relação de afeto entre a mãe e a filha de algum modo era permeada pela fala “errada” da filha. É claro que nós, adultos, sabemos que, a partir do momento que a filha mudasse o jeito de falar e passasse a falar corretamente, a relação com a mãe não seria afetada negativamente; mas, para a criança, esse ainda era um mundo desconhecido e ela resistia a mudanças, pois não sabia o que aconteceria se ela passasse a falar corretamente.

Por outro lado, uma ansiedade exagerada de que a fala do filho não tenha erros também pode afetar de alguma forma a confiança e a autoestima da criança frente à sua própria fala. Alguns pais se antecipam um pouco ao processo de aquisição de linguagem e ficam ansiosos em saber se a fala do filho está ou não normal. Claro que os pais se preocupam e devem se preocupar com isso, mas o cuidado que deve ser tomado é para que se respeite o tempo da criança, buscando informações sobre os limites da normalidade nesse processo e considerar que existe variação entre as crianças. Mesmo que a criança tenha uma dificuldade, deve-se lidar com naturalidade e de forma positiva, afinal, muitas crianças apresentam dificuldades de linguagem e as superam ou, em casos mais graves, aprendem a se comunicar da melhor maneira possível dentro de suas dificuldades.

Assim, tendo o filho uma dificuldade de linguagem ou não, uma ansiedade exagerada dos pais pode gerar comportamentos como, por exemplo, falar pela criança (quando alguém pergunta algo para o filho, o pai ou a mãe já respondem por ele, com a preocupação de que a criança não fale ou fale errado), ou corrigir excessivamente a fala do filho. Tal comportamento pode ser sentido negativamente pela criança e fazê-la se sentir fracassada em relação à linguagem, o que afeta sua segurança no modo como ela se vê como um sujeito falante.

Um último exemplo se refere a pais que traduzem a fala do filho. Quando a criança começa a expressar as primeiras palavras e frases é comum que muitas vezes os pais compreendam melhor a fala da criança do que outras pessoas. Alguns pais tendem a traduzir a fala do filho sem que ele tenha que lidar com a situação de que não foi compreendido, além de usar as “palavras” da criança como regra de suas interações (“voxê qué ‘ba’?”, para “você quer água?”, por exemplo). Algumas vezes essa tradução também pode ser de gestos que a criança faz. Ao invés de os pais solicitarem à criança que tente dizer o que quer, os pais aceitam os gestos e os traduzem. Pode-se dizer que é uma tentativa de proteção (uma vez que evita que a criança se sinta frustrada) que acaba resultando na falta de uma experiência essencial da aquisição de linguagem, que é a reação dos outros aos erros de sua fala (ou à ausência de fala com uso de gestos).

Para a criança em processo de aquisição de linguagem, é importantíssimo que o conflito de não estar sendo compreendido seja vivenciado. Se os pais assumem o papel de traduzir a fala do filho para os outros, essa criança sofrerá quando começar a frequentar ambientes em que os pais não a acompanham, como a escola. Nesses contextos, a criança vai começar a se deparar com situações em que os outros (professores e colegas) não compreendem sua fala. Como essa criança nunca teve que lidar com esse tipo de frustração, seu sofrimento nessas situações é grande e acaba por afetar sua relação com a linguagem, fazendo-a se sentir incapaz.

O que os pais devem estar atentos é que, embora eles compreendam as tentativas de comunicação de seu filho, a língua é social e a criança deve aprender a usá-la de maneira que os falantes dessa língua possam compreendê-la e, assim, ela se sinta parte ativa do processo de comunicação.

Portanto, quando pensamos na relação dos pais com a fala dos filhos, não são apenas os aspectos formais da língua que estão em jogo. Algumas atitudes dos pais, mesmo que estejam baseadas em aspectos positivos como afeto, preocupação e instinto de proteção, podem resultar numa relação de conflito da criança com a língua em aquisição.

Assim, os pais devem estar atentos não apenas para evitar o uso de uma fala infantilizada, mas também para lidar com o processo de aquisição de linguagem com o objetivo de que o filho se mantenha ativo nesse processo, tendo acesso a variados estímulos do padrão a ser atingido, percebendo seus “erros”, buscando tentativas de mudar gradualmente a fala, e assim ir aos poucos construindo uma identidade como um sujeito falante da língua.

Luciana Lessa é Doutora em Linguística, é parte do corpo docente da Georgia State University e participa de importantes grupos de discussão sobre a aquisição da linguagem falada e escrita. É autora da coluna Falando na Plataforma Brasileirinhos e diretora do grupo de discussão e formação de professores da Brasil em Mente.

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