Aqui (e em qualquer lugar) se fala português

Por Felicia Jennings-Winterle, MA
Coluna Pelo Mundo

usa_flagPelo Mundo deste mês chega até Chicago. Na verdade, um pouco mais no subúrbio, onde Renata Molina desenvolve um trabalho único na região, de pouquinho em pouquinho. Ela começou do básico – aqui se fala português. Com essa máxima, Renata tem inspirado diversos brasileirinhos e seus pais a falarem, brincarem e aprenderem numa língua secreta, numa língua muito especial. Renata começou também uma biblioteca. Eles estão na fase “estante-biblioteca”. E é assim mesmo que tudo começa.

Plataforma Brasileirinhos –  Renata, pelo que me foi descrito, você é uma andorinha que sozinha tem feito verão. Conta para gente um pouco dos desafios do seu trabalho?
Renata Molina O maior desafio do meu trabalho ensinando português para crianças tem sido encontrar livros, jogos e atividades para trabalhar em sala de aula. Entrei em contato com várias editoras que não puderam fornecer cópias de livros porque eu não pertenço a uma escola no Brasil. Também junto ao Consulado não obtive ajuda por falta de recursos deles.
Daí, resolvi pedir doação de livros e jogos para os meus amigos e parentes no Brasil e lá veio meu pai me visitar, com uma mala pesando toneladas e uma boa conta para eu pagar da livraria Senac! (Até a bandeira do Brasil foi presente).
Assim que formei o primeiro grupo de crianças, pedi para os pais que compartilhassem os livros que tinham em casa. Todos os livros na nossa “estante – biblioteca” são catalogados e cuidadosamente emprestados porque são um tesouro de valor ímpar.

Aqui se fala portuguêsPB – Que idades você recebe na “Aqui se fala português” e que tipo de abordagem utiliza?
RM Crianças, não importa a idade. Todos tem direito a aprender a língua de herança. Faço uma avaliação abordando leitura, interpretação, compreensão (não adianta saber ler e não entender nada, não é?) e escrita. De acordo com estes níveis, mais a faixa etária, tenho dois caminhos: ou entra no grupo que está formado ou dou aulas particulares para futuramente participarem de um grupo com criançaas brasileiras.

Só o prazer de estar entre amigos que falam a mesma língua “secreta” faz os olhinhos brilharem. Isto é que eu gostaria que as mães vissem e sentissem. O prazer e o orgulho que as crianças sentem de serem brasileiros.




Nossas aulas seguem o currículo das escolas brasileiras. Aqui se fala português, faz cópia, tem ditado, leitura em voz alta e avaliação. Também fazemos jogos de antigamente (pular corda, pular amarelinha) e atuais (ABC dos copos), jogos didáticos e STOP. É obrigatório levar um livro por semana para casa e ler pelo menos um capítulo para contar na classe. Se estamos em semana de prova, vale ler uma revistinha da Mônica.

PB – Você me contou também que além das aulas acaba se envolvendo em conscientizar pais sobre a importância de começar e continuar nas aulas de português. Conta um pouquinho para a gente?

RM – Antes mesmo de conhecer a criança, eu faco a seguinte pergunta para as mães: “o que você quer para seu filho com as aulas de português?” Geralmente a resposta é: “que ele seja fluente na língua”. A partir daí, eu explico que elas são colaboradoras do meu trabalho e que eu sou intermediadora no aprendizado da língua. Se não houver parceria, não acontece o aprendizado.

Vou ajudando a família a mudar o comportamento criando novos hábitos. Entendo que o mais fácil seja ceder ao inglês, que é a lingua majoritária das crianças. Porém isso não é educar para a vida e ceder aos filhos nem sempre é um benefício. Ninguém pergunta se o filho quer tomar banho, cortar as unhas, ir ao dentista. Tem que ir. Esta é a postura que eu espero dos pais, de colaboradores neste processo de aquisição de linguagem. Tem que falar em português com a criança o máximo possível, senão o tempo todo.

Tem que ler livros, bolar brincadeiras para fazer na aula e brincar com a atividade da semana. Cantar as músicas e principalmente quando vem buscar a criança recebê-la falando português. Sabe, acho que este sim é meu grande desafio: lidar com os pais . Despertar neles a consciência do direito que seus filhos tem de aprender o português que também é a lingua deles, de não ter preguiça de ensinar, participar, fazer tarefa de casa, cobrar a leitura de um livrinho.

PB – Onde você quer chegar com a “Aqui se fala português”?
RM Gostaria de sentir que minhas aulas tem a mesma importância que a de natação ou cheerleader da escola tem. Confesso que tenho mães maravilhosas que se tornaram minhas ajudantes com sugestões e ideias riquíssimas. Outras também estão em processo de aprendizagem juntamente com seus filhos. Não tenho preguica não! “Aqui se fala português”, começando em casa.

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Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.
© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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2 comentários em “Aqui (e em qualquer lugar) se fala português

  1. Motivante mesmo! Também faço um trabalho com as crianças brasileiras de Dubai, a “Hora do Conto em Dubai” , e vejo que muitos dos desafios que você tem se igualam aos meus!
    Os desafios são grandes mas as alegrias são muito maiores, não é Renata? Parabéns pela iniciativa!

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