Brasil, um país plurilíngue?

Por Andreia Moroni

Você, que mora aí nesse mundão estrangeiro, já se sentiu coibido, censurado, recriminado por falar português quando todo mundo ao seu redor parecia preferir ou esperar que você falasse outra língua?

Como você se sentiria se fosse expressamente proibido de falar a sua língua e tivesse que usá-la escondido, aos sussurros, entre quatro paredes e sempre temendo ser denunciado por vizinhos rabugentos?

Brasileiro tem fama de hospitaleiro. Também de valorizar tudo o que vem de fora, qualquer lugar parece ser melhor, mais desenvolvido e menos problemático que o Brasil. Mas, em algumas questões relacionadas ao uso de várias línguas, somos (e fomos) bastante chauvinistas, conservadores, zelando pelo orgulho próprio.

Você sabia que durante a era Vargas (1930-1945) nesse nosso Brasil que tanto imigrante recebeu (e todo mundo tem aquela pontinha de orgulho ao se declarar neto ou bisneto de italianos, alemães, espanhóis, poloneses – e a lista é longa) houve uma verdadeira proibição de que essas comunidades usassem suas línguas? Encontrei este depoimento, mencionado num artigo do professor Cléo Vilson Altenhofen, da UFRGS, o qual vi falar ao vivo mês passado em um congresso sobre esses temas que a gente adora, e gostaria de dividi-lo com vocês:

“O clima era de terror. Ninguém tinha coragem de falar em público com medo de ir para a cadeia. Nessa tal de nacionalização queriam que todos falassem português da noite para o dia. Prenderam até velhos que nada queriam com a política só porque falavam alemão em público. Mas antigamente o governo não proibiu falar alemão, não providenciou escolas ou coisas semelhantes, que ensinasse as pessoas o português. Agora, depois de todos esses anos de indiferença, queriam que a gente falasse português sem sotaque.”

Vocês já pararam para pensar que, diferente do que prega o senso comum, no Brasil não se fala só português, embora essa seja a única língua oficial do país? Sim, sim, é óbvio, vocês vão pensar nas muitas línguas usadas pelos povos indígenas em território brasileiro, mas sabiam que outros tantos idiomas de imigração continuam sendo falados mais de cem anos depois que os primeiros estrangeiros que a trouxeram chegaram aqui?

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Eu adoro este delicioso relato postado pela Claudia Storvik no blogue Filhos Bilíngues contando uma viagem de seu pai, já adulto, à Polônia: ele cresceu numa colônia polonesa do Paraná e só foi aprender português quando entrou na escola, aos sete anos de idade.

Mas qual é o ponto de falar de línguas de imigração no Brasil e português como língua de herança no mundo? No final, há tanta coisa parecida entre essas duas situações que seria um desperdício não observar o passado com um olhar sensível em busca de um aprendizado: tanta gente aqui na luta para transmitir o português aos filhos no exterior e é no mínimo incrível que essas línguas de imigração perdurem há três gerações ou mais num país monoliticamente monolíngue como o Brasil. Eu me pergunto: como isso acontece?

Só que não é só isso. A gente vai tentando devagar e aos pouquinhos trazer pra mesa discussões importantes sobre políticas linguísticas (por favor, não faça como eu, que tenho preguiça mental sempre que ouço a palavra “política”, juro que não vou falar de partidos ou presidentes, aqui o termo quer dizer outra coisa). Basicamente, para abrir espaço para que as famílias, grupos e associações que promovem o português como língua de herança (POLH) possam existir mundo afora, exercer seus ideais e, por que não, buscar reconhecimento e apoio oficial (leia-se: do governo, institucional) para suas atividades.

Por um lado, tudo vai ficando mais fácil se os simpatizantes-leitores dessa causa entendem melhor como é isso de ter filhos bilíngues, suas necessidades educacionais, o espaço das línguas e seu funcionamento na sociedade – daí a importância do trabalho de toda a equipe que mantém este blogue: a gente quer dividir com vocês coisas que nos deu um trabalhão descobrir.

Por outro, no momento em que as discussões e movimentos pelo POLH começam a se articular, nosso olhar também deveria estar atento às questões das línguas de imigração no Brasil. Eu, pessoalmente, acho que o passado delas pode ter muita relação com nosso futuro – não só no que diz respeito à transmissão de um idioma dentro de casa, mas porque, no final, os pais de brasileirinhos do mundo estão educando crianças multilíngues, que falam outras línguas além do português, e seria ao menos gentil que o patrimônio linguístico desses cidadãos brasileiros em formação fosse respeitado. Além do mais, tanto no caso das línguas de imigração no Brasil como do português como língua de herança no mundo estamos falando de brasileiros multilíngues, seus direitos e manutenção da língua materna. No fim das contas, somos farinha do mesmo saco, e gostaria de imaginar resultados culinários promissores a partir dessa mistura.

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Um comentário em “Brasil, um país plurilíngue?

  1. Muito importante que a língua ( no nosso caso, o português ) seja ensinado logo na primeira infância. Muito fácil aprender com o nosso passado, principalmente no caso do Brasil, onde boa parte das imigrações aconteceram relativamente há pouco tempo. Tenho o exemplo do meu avô, brasileiro, filho de alemães que aos 90 anos sofreu um derrame e nunca mais voltou a falar português. Já o alemão, idioma esquecido na infância voltou e é exercido com fluência, tornou-se seu único meio de comunicação, com exceção da mímica.
    Então, sei que a hora de ensinar meus filhos pequenos a minha língua materna, e toda a cultura envolvida, é agora! Mesmo que depois essa identidade brasileira fique um pouco escondida (tomara que não!), poderá ser ativada e retomada facilmente.

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