Antes cedo do que tarde

Por Keiko Shikako-Thomas

Um dia desses participei de uma conferência sobre o desenvolvimento do cérebro.
Antes disso, eu já tinha planejado este post (e a conferência justifica o atraso!), querendo focar na importância do brincar cedo na vida. A conferência, com os top cientistas do mundo em “cérebro”, veio para reforçar o que eu queria contar para vocês. A realidade de muitos pais com os quais converso, vem reforçar a importância disto na vida real.

Já é senso comum que estímulo é bom, e quanto mais cedo melhor. O que me fascina, no entanto, é ver como a ciência pode nos ajudar a interagir melhor com nossos filhos, alunos, pacientes. Ou ao menos nos dar bons motivos para tirar o tempo necessário para prover o melhor estímulo possível, no melhor tempo possível.

Seja a conversa na beira do parque, na terapia, na aula de música, brincando por acaso ou falando obsessivamente sobre desenvolvimento como toda boa mãe sempre faz, a pergunta sempre aparece: mas o que eu posso fazer com meu bebê para estimular seu desenvolvimento? Quais brinquedos? Que atividades? Será que eu compro aquele brinquedinho pra criança ficar de pé? E aquele de pular?

Já falamos sobre vários aspectos do brincar e sua relação com o desenvolvimento aqui. Mas hoje, vamos focar nos fatos científicos:

Primeiro, como estimular meu filho cedo?

bebês-brincando-juntosUm estudo com crianças que foram abandonadas em uma espécie de “depósitos de crianças” provou que, crianças que cresceram sem nenhum estímulo dado por um cuidador (estas casas foram parte de um programa de um regime que resultou em casas onde crianças eram deixadas por seus pais e basicamente, recebiam cuidados essenciais tais quais comida e roupas – mas não recebiam nenhum tipo de interação ou estímulos, sem brinquedos ou cuidadores para interagir). O cérebro destas crianças, foi comparado através de neuroimagem e testes do desenvolvimento cognitivo e do desenvolvimento social, a

1. Crianças que estavam nestes “depósitos”, mas foram realocadas para casas de famílias antes dos 24 meses;

2. Crianças que estavam nestes locais, mas foram realocadas para casas de famílias depois dos 24 meses.

As crianças em situação de orfanato somente, tiveram resultados claramente piores em todas as áreas de desenvolvimento. Além de mudanças no resultado de testes de “inteligência” como raciocínio lógico, capacidade de resolução de problemas e performance escolar anos depois, o cérebro mesmo, em suas áreas responsáveis pelo que chamamos de “função executiva” era menor, as conexões entre áreas essenciais para todo o desenvolvimento, não estavam presentes. Além disso, as crianças em situação de falta de estímulo extremo desenvolveram uma série de maneirismos (movimentos repetitivos e sem propósito), e apresentaram atrasos significativos na linguagem. O ingrediente mágico? Relacionamentos! Interação! Alguém pra conversar, pra fazer caretas, pra cantar canções e contar histórias antes de dormir, alguém pra mediar a relação com o mundo, e um ambiente que nem precisava ser excelente, cheio de brinquedos que piscam e falam sozinho, mas somente, brinquedos que permitissem explorar e interagir.

As crianças que receberam a oportunidade de estímulos e interação apenas depois de 24 meses de idade, no entanto, não apresentaram os mesmos resultados que aquelas que receberam “uma família” antes dos 24 meses. Elas ainda estavam “melhores” do que as que ficaram abandonadas durante toda a primeira infância, mas significativamente piores do que as outras, que foram removidas da situação de privação bem mais cedo.

Então ficamos assim: Interações significativas antes dos 24 meses é critico para o desenvolvimento do cérebro. E brincar é o tipo de interação mais significativa que um adulto pode desenvolver com uma criança. MAS mantenha em mente que, interações também são enriquecidas por materiais, que viram brinquedos. No entanto, é importante lembrar que crianças saudáveis, vão se desenvolver em uma ordem natural, e que, esta ordem natural deve ser respeitada.

Estimular não significa pular etapas, não significa colocar pra ficar de pé antes de ter dado a chance dos músculos e articulações se desenvolverem para isso. Estimular significa FACILITAR o desenvolvimento. Dar oportunidades para interagir, para explorar, para resolver problemas. Estar perto, tocar, falar, dar a dica, mas não a resposta. E acima de tudo, a conclusão destes estudos foram: Estimular significa “relacionamentos”. E para não deixar escapar o que tudo isso tem a ver com os nossos brasileirinhos, não esqueçamos: Provavelmente nenhum de nós migrou da nossa terra quentinha onde canta o sabiá para abandonarmos nossos filhotes sem interação e privá-los de relacionamentos.

No entanto, a mensagem da neurologia é que “neurônios que crescem unidos, permanecem unidos” (a expressão em inglês é “neurons that fire together, stay together”), o que significa que, se queremos que a nossa língua, a nossa cultura, também acompanhem o desenvolvimento dos nossos pequenos, devemos também facilitar os relacionamentos (com pessoas, com espaços, com canções, com cheiros, cores, sabores e histórias) que permitirão que o desenvolvimento motor, cognitivo e afetivo cresça de mãos dadas com o desenvolvimento do brasileirinho que está lá dentro.

Mais sobre as coisas lindas e mágicas que rolam dentro da caixola enquanto brincamos… mês que vem!

Referências:
Marshall, P.J., Fox, N.A., & the BEIP Core Group. (2004). A comparison of the electroencephalogram between institutionalized and community children in Romania. Journal of Cognitive Neuroscience, 16(8), 1327-1338.

Zeanah, C.H., Smyke, A.T., Koga, S.F.M., Carlson, E., & the BEIP Core Group. (2005). Attachment in institutionalized and community children in Romania. Child Development, 76(5), 1015-1028.

Nelson, C.A., Zeanah, C.H., Fox, N.A., Marshall, P. J., Smyke, A.T., & Guthrie, D. (2007). Cognitive recovery in socially deprived young children: The Bucharest Early Intervention Project. Science, 318, 1937-1940.

Bos, Karen J., Fox, N., Zeanah, C.H., & Nelson, C.N. (2009). Effects of early psychosocial deprivation on the development of memory and executive function. Frontiers in Behavioral Neuroscience, 3, 1-7.

Nelson, C.A., Furtado, E.A., Fox, N.A., & Zeanah, C.H. (2009). The deprived human brain. American Scientist, 97, 222-229.

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2 comentários em “Antes cedo do que tarde

    1. Que bom que você gostou, Thais! 🙂 Eu acho o cérebro em desenvolvimento (e as possibilidades que vêm com ele) uma coisa simplesmente linda!

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