Quando chegamos ao fim

Por Andreia Moroni
De repente, estamos em dezembro e o ano acabou. Hora de fechar para balanço: há quem coloque num papelzinho as metas e pedidos para 2014 e queime os desejos escritos no último réveillon, há quem coma 12 uvas invocando 12 desejos com cada badalada do relógio, quem pule ondas na praia ou o que as tradições locais permitirem.

O fim traz consigo seus lutos possíveis. Tudo o que não fizemos, não conseguimos, não realizamos. Aquela lista que, mesmo que mental, queremos pulverizar. Quem cruza fronteiras também carrega seus lutos por uma vida ou estação, um inverno ou réveillon.

Mudar de país implica em mudar nossa condição de pertencimento no mundo. Na nova pátria, muitas vezes construiremos nossa identidade em base no que não somos: sou como sou, tão diferente dos que são daqui. Há aquela parte de cada um brasileira que, lá, será sempre estrangeira. E isso passa a nos definir.
Mas as águas do tempo transcorrem, nosso lado esponja (lado sobrevivência?) vai absorvendo o que nos rodeia e, num dado momento, pode ser que as coisas se invertam: sou tão como os daqui, o que permanece em mim de brasileiro?

Acho que todo mundo que imigra se pergunta, em maior ou menor grau, se vai decidir ficar ou se um dia vai voltar – e quando.

Quando a gente decide ficar, de certa maneira abre mão do que foi, deixa que aquele lugar geográfico chamado Brasil se acomode no passado. E isso, minha gente, é um luto. Não deixa de ser uma forma de adeus, um adeus a si mesmo, um adeus consciente ao que fomos e não poderemos revisitar como quem vai ali na esquina ou escapa da capital para passar o final de semana no interior. E pode doer, pode levar tempo para parar de incomodar, pode que não pare de incomodar nunca, como joanete que lateja em dia de chuva, mas que não dá para arrancar do pé.

Mas um pé com joanete não deixa de ser um bom pé, desses que deram o primeiro passo numa estrada de mil léguas até esse lugar onde resolvemos fazer jardim. Existem tantos lugares para plantar sementes de tudo que fomos, existem os filhos, existe esse começar algo novo que nos move cá e lá e mesmo a quem nunca saiu do lugar.

2013 clock

O que eu desejo para 2014? Que nossas crianças aprendam a arte de surfar correntezas para atravessar as margens de seu mundo como quem pega jacaré, rindo e brincando, porque joanete não tem por que ser hereditário.

***
Que nossos fins sejam plenos de novos começos. Mas que sejam vividos, pois também fazem parte da história. Season’s greetings, felices fiestas, bones festes ou algo assim, que o Natal é belo e doce, mas é também quando tudo isso vem à tona e por vezes viramos lágrimas. Mas só até o próximo começo.

2 comentários em “Quando chegamos ao fim

  1. Muito boa leitura, nao da pra esquecer o Brasil…ninguem aqui tem vontade de continuar contribuindo para um Brasil melhor de formas variadas como voluntaria nas ferias ou arrecadando dinheiro, roupas ou brinquedos e livros para enviar pro Brasil. Patrocinando criancas brasileiras e ensinando ingles para brasileiros no Brasil que nao tenham condicoes?

    Acho que ja fui de ter raiva do Brasil nao ser tao isso ou aquilo para uma vida boa la mas acho que passou e agora eu so penso no quanto quero ajudar meu Brasil. Acabei de voltar de la e tive uma experiencia incrivel. Dei aula de ingles e me senti parte da solucao, sem contar que me senti Brasileira, completamente Brasileira. Foi tao bom nao me sentir uma estrangeira la como me sinto todos os dias aqui na Australia.

    Sou nova por aqui mas tem projetos de Brasileiros fora do pais investindo no Brasil?

    Obrigada…

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