Os Sons na Música

Por Luciana Lessa, PhD
Coluna Falando

Há algum tempo, falamos um pouco sobre a importância da música no processo de aquisição de linguagem e, em particular, no processo de aquisição do Português por crianças que vivem fora do Brasil.

Hoje vamos destacar alguns elementos específicos da música que auxiliam no processo de percepção dos “sons” do Português: o ritmo das sílabas, as rimas, as vogais e as consoantes.

Uma das belezas da música é que ela amplia as possibilidades de “brincar” com os sons e as palavras. É um espaço em que a forma sensível e criativa com que muitos compositores e cantores percebem a sonoridade da língua pode se manifestar e, pensando nas crianças brasileirinhas que não vivem no Brasil, pode auxiliar no desafio de trazer seu brasileirinho mais pra perto do mundo do Português.

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Um dos elementos sonoros que a música permite explorar de formas variadas é a sílaba. Muitas músicas infantis incorporam em seu ritmo o ritmo das sílabas, como por exemplo, as alternâncias entre sílabas acentuadas e não-acentuadas. Para coordenar a pronúncia das palavras, saber em qual sílaba “cai” o acento é um importante passo. Uma música que marca uma distinção entre sílabas acentuadas e não-acentuadas é “Fome Come”, do grupo Palavra Cantada.

Nessa música, a ênfase nas sílabas acentuadas é dada não apenas no canto, mas também pelos instrumentos musicais que apresentam uma batida mais forte em sílabas acentuadas, em especial em sílabas acentuadas de palavras que estão no final dos versos. Esse é um padrão muito comum na entonação das frases do português, onde o acento principal de sentenças cai na última palavra.

A cantiga popular “O Sapo Não Lava o Pé” é outro exemplo de como se pode chamar a atenção para as sílabas, uma vez que ao longo da música, é necessário usar a mesma vogal para todas as sílabas, desde a vogal “a” até a vogal “u”. Nesse caso, a atenção deve estar voltada não apenas a cada uma das sílabas, mas também na manutenção da mesma vogal cada vez que se canta “o sapo não lava o pé” (V sVpV nV lVvV V pV), V correspondendo à vogal que deve preencher cada sílaba. Para crianças que não moram no Brasil e não estão o tempo todo cercadas pelos sons do português, enfatizar os sons que fazem parte da nossa língua é um ponto importante para minimizar um possível (e normal) sotaque.

Ainda quanto às vogais, é interessante notar que, no canto, elas são geralmente mais enfatizadas do que as consoantes. Uma característica presente no canto é que a duração das vogais tende a ser maior do que na fala. Um dos motivos é o fato de as vogais serem mais “sonoras” do que as consoantes. Na maioria das músicas você pode perceber uma ênfase nas vogais, que geralmente são produzidas com uma duração consideravelmente maior que na fala.

Como consequência de terem menos sonoridade que as vogais, as consoantes são menos frequentemente enfatizadas em músicas. Mas existem músicas que encontraram jeitos de destacar esses sons. Em algumas músicas, pode-se perceber uma repetição de padrões que é relacionado às consoantes. A música “Pé com Pé”, da dupla Palavra Cantada, por exemplo, ao explorar diferentes sentidos que temos associados à palavra “pé”, acaba por colocar uma ênfase nessa consoante.

Outra música que consegue dar um destaque para algumas consoantes é a Menina Moleca, também da dupla Palavra Cantada. Nessa música, podemos ouvir algumas vezes o jogo entre os sons das palavras “moleca” e “maluca”, palavras que mantêm as mesmas consoantes na mesma sequência em cada sílaba. Além disso, em alguns versos, existe a repetição de algumas consoantes, como em: “Ela diz que cata jaca no pé de jacarandá. Que mata um tatu do tamanho de um tamanduá. E que bumba meu boi é o bumbum de um boi bumbá […] Esperta que é danada é doidinha pra dançar. Chamou o batuntã do Butantã pra batucar”.

Por fim, um elemento sonoro que está (quase) sempre presente nas músicas é a rima. Como a gente sabe, a criançada adora brincar com as rimas das palavras! Teríamos uma infinidade de exemplos de músicas que utilizam a rima em sua composição. Destacamos duas: a cantiga popular “A Barata Diz que Tem” e a música “Sopa”, da dupla Palavra Cantada. Essas duas músicas exploram a rima de uma forma que nos permite criar brincadeiras semelhantes com as crianças. Basta seguir a trilha de ideias e criatividade que as músicas deixam de presente pra gente!

Luciana Lessa é Doutora em Linguística, é parte do corpo docente da Georgia State University e participa de importantes grupos de discussão sobre a aquisição da linguagem falada e escrita. É autora da coluna Falando na Plataforma Brasileirinhos e diretora do grupo de discussão e formação de professores da Brasil em Mente.

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