O terceiro lugar é o melhor lugar possível

Por Andreia Moroni, com a colaboração de Felicia Jennings-Winterle

No princípio, eram as trevas. Depois veio a luz. E depois nunca mais ninguém prestou atenção em todas as sombras que se formaram ou onde elas estavam. É sobre esse terceiro lugar, que não é nem luz, nem trevas, nem seco, nem molhado, que parece estar no meio, mas não é o meio, pois pode bem ser um outro canto, espaço novo, totalmente diferente, que eu gostaria de falar.

Se você é dessas que se sente mais que à vontade falando uma língua que não é o português, dado a você como língua materna, mas que também não acha que o inglês ou espanhol ou alemão que usa a esta altura do campeonato seja uma língua estrangeira, pois depois de dividir com ela por tanto tempo a vida, os dias e a cama já tem intimidade de sobra, está num terceiro lugar: a língua que você escolheu usar e viver não é nem materna, nem estrangeira.

Se você tem filhos, seu companheiro é de outra nacionalidade e as crianças aprendem ou falam mais de uma língua, saiba que elas já nasceram num terceiro lugar: terão como referência não a cultura da mãe ou a do pai, mas uma terceira e outra coisa, composta pelas duas (e às vezes com ingredientes extras, como a do país de residência) – que, no entanto, não é nem a primeira, nem a segunda.

Se você é dessas que, como eu, decidiu amarrar seu jegue em praias pra lá de longínquas já há um tempinho, talvez não se sinta aí nas suas areias nem brasileira (um primeiro lugar), nem estrangeira (um segundo lugar). Mas uma brasileira que mora no exterior. Esse é um terceiro lugar, um terceiro lugar conceitual. E, para mim, é o melhor lugar possível, aquele onde me sinto mais cômoda – insistir em ser só brasileira fora do Brasil seria uma opção deliberada de saudades e frustrações, e ser apenas estrangeira, como os habitantes dali, negando meu passado, seria abdicar de uma parte importante do que fui e do que faz de mim o que sou.

A solução foi, literalmente, inventar um terceiro lugar – um lugar que não foi dado a mim por nascimento, por um simples ser e estar no mundo, mas buscado, criado (e nesse sentido, pasmem, tenho muito em comum com os transgêneros nessa nossa louca casa chamada pós-modernidade – mas isso já é outra conversa). Um lugar nem de luz, nem de trevas. Que pode parecer óbvio é fácil para muita gente, mas quem realmente se sente cômodo e se define como “um brasileiro que mora no exterior” sem saudade, sem arrependimento, sem dúvidas ou questionamentos, por favor que levante a mão e escreva um comentário aí embaixo para nos contar como é.

Artigo 005 - O caminho do meio

Um terceiro lugar não é algo de uma vez só. É um processo constante de criação de novos terceiros espaços – talvez um processo de situação, pois o dar-se conta de que ali estamos pode ser mais importante que a iniciativa de buscar esses espaços em si, pois é quando a busca acaba. Qual é o meu país? Qual é a minha língua? Qual é o meu esporte preferido? Se você tem dificuldade em responder, talvez esteja falando de um terceiro lugar.

Com tudo isso, de repente vai ficando cada vez menos estranho, com menos cara de novidade e ainda mais natural participar de iniciativas como a Associação de Pais de Brasileirinhos da Catalunha (APBC) ou a Brasil em Mente (BEM), ambas bem jovenzinhas e cheias de frescor, as quais oferecem, entre outras muitas coisas, cursos em português para crianças filhas de brasileiros, nestes casos na Espanha e nos EUA. Essas iniciativas são espaços de Brasil, língua e cultura da mãe, em território político e geográfico do pai – ou vice-versa. Provando, nem luz nem trevas, que dá para conciliar o que parecia tão distante no mapa e no peito, junto, em algum novo lugar à sombra. E que esse possa ser o melhor lugar do mundo para quem estiver lá, como o lugar em que estamos deveria ser sempre o tempo todo para todos.

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4 comentários em “O terceiro lugar é o melhor lugar possível

  1. Alegria profunda é o que tomou conta de mim ao me sentir em companhia de tantos outros que vivem aqui, no terceiro lugar, ainda que tão distantes deste local geográfico em que me encontro! Obrigado!

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