O que é a função executiva cognitiva

Por Felicia Jennings-Winterle
Coluna LIP

Você já ouviu falar nesse termo: função executiva? É parte do campo da cognição e tem tudo a ver com o bilinguismo. O post de hoje da coluna LIP discute 2 artigos publicados no The New York Times que destacam o bilinguismo e seus benefícios, entre eles o impacto na função executiva.

O título do primeiro artigo sintetiza uma questão muito atual, debatida por aqueles que de uma forma ou de outra levantam a bandeira do bilinguismo – por que bilíngues são mais espertos? O artigo foi publicado em 2012 com o título em inglês Why are bilinguals smarter? e discute como o bilinguismo influencia a inteligência do indivíduo de maneira mensurável.

Já é senso comum (entre os mais esclarecidos, vale ressaltar) que falar duas línguas, ao invés de uma, tem benefícios práticos óbvios em um mundo cada vez mais globalizado. Mas cientistas tem começado a mostrar que as vantagens do bilinguismo são ainda mais fundamentais do que ser capaz de conversar com uma gama maior de pessoas. Ser bilíngue faz o indivíduo mais esperto porque tem profundos efeitos em seu cérebro, aumentando capacidades cognitivas, inclusive as que não são relacionadas à linguagem, e até formando um verdadeiro escudo contra a demência na terceira idade (traduzido do artigo).

O artigo ainda ressalta que a visão de bilinguismo que se tem hoje é muito diferente do entendimento que se tinha em grande parte do século 20. Entende-se melhor hoje em dia que sim, há interferência e transferência entre as duas línguas, mas que ao contrário do que se pensava, tais fenômenos só fortalecem os “músculos cognitivos”.

brain-weight

Em outras palavras, uma das qualidades de ponta do bilinguismo (inclusive anteriormente discutida no post sobre o livro “The bilingual Edge”) é a flexibilidade de pensamento, ou como eu gosto de dizer, um repertório mais variado de não só palavras e expressões linguísticas, mas também de ideias e soluções para problemas que são apresentados ao bilíngue. O artigo discute um experimento interessantíssimo que ilustra tal capacidade.

Um estudo realizado em 2004 pela grande Ellen Bialystok comparou crianças bilíngues e monolíngues em idade pré-escolar. Os pesquisadores apresentaram a elas uma tela de computador com 2 caixas: uma com a etiqueta “quadrados azuis” e a outra “círculos vermelhos”. Na primeira tarefa, as crianças precisavam colocar círculos azuis na caixa rotulada de quadrados azuis, e quadrados vermelhos na caixa rotulada círculos vermelhos. Os dois grupos de participantes demonstraram resultados parecidos.

Na segunda tarefa, as crianças foram instruídas a organizarem as figuras de acordo com a forma geométrica, o que por natureza, tornou a tarefa mais desafiante já que envolvia manusear digitalmente imagens com cores conflitantes. Resultado: as crianças bilíngues tiveram uma performance bem mais rápida do que as monolíngues.

O resultado deste e de outros estudos semelhantes demonstra que o bilinguismo influencia a função executiva – um sistema que direciona os processos de atenção, planejamento, resolução de problemas e muitas outras tarefas mentais. Especificamente, estes processos incluem ignorar distrações, concentrar-se e direcionar a atenção de um ítem para o outro, focando na informação central.

No artigo The Bilingual Advantage, também publicado no NYT, Bialystok comenta que no decorrer de suas pesquisas foi capaz de revelar diversos aspectos nos quais crianças monolíngues e bilíngues diferem, mas que elas sabem muito de maneira semelhante também. A diferença, porém, está na maneira pela qual o sistema cognitivo dos bilíngues se manifesta com a habilidade de atentar para o que realmente importa e distanciar sua atenção do que não importa tanto. Em outras palavras, bilíngues demonstram que suas funções executivas performam de maneira singular e mais produtiva porque tal função é requerida regularmente no uso diário das duas línguas. É o uso regular de tal função que a torna mais eficiente. Outra característica interessante de tal função cognitiva é a multitarefa, que tem sido demonstrada mais eficiente em bilíngues.

No mesmo artigo, a entrevistadora pergunta a Bialystok se é positivo que imigrantes ensinem suas línguas maternas aos filhos. A pesquisadora responde o que diz responder várias vezes ao dia – “você tem um presente em potencial em suas mãos”. Diz ainda que há duas razões principais para que os pais passem a língua de herança a seus filhos – para que se conectem melhor com seus familiares e porque o bilinguismo é um exercício cerebral – torna o cérebro mais forte.

 

Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.
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5 comentários em “O que é a função executiva cognitiva

  1. Texto interessante, mas – desculpem-me a sinceridade – estou farta de ler artigos sobre como é vantajoso criar criancas bilíngues porque elas sao mais inteligentes ou porque terao melhores chances no mundo globalizado… Ensino minha língua materna aos meu filhos porque os amo e nao tenho outra saída se quiser dar-lhes as melhores cartas para se tornarem pessoas plenas e felizes. Uma pessoa que nao sabe de onde vem, que nao pode se comunicar com suas origens – pais, avós, livros do país de seus familiares – tem menos chances de se conhecer plenamente e, assim, de ser feliz.

    1. Olá Cintia, bom dia! Saiba que não está sozinha nessa luta. Sua bandeira é a mais certeira de todas, pois usa o vínculo afetivo como estandarte. Sugiro que aprofunde-se nos artigos da Brasil em Mente. Encontrará material abundante e interessante sobre aquilo que você faz aos seus filhos: ensinar o português como língua de herança. Talvez você não tenha tanta informação técnica – e nem precisa – pois essa determinação de ensinar aos seus filhos amaparados nesses valores que você enfatizou, já são mais do que suficientes para que eles façam de verdade a diferença no mundo.
      Parabéns!

      Lucia Wenceslau

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