A diferença entre música e musiquinha

Por Felicia Jennings-Winterle
Coluna LIP

Na cultura brasileira usa-se o inho, inha, zinho, zinha não só para coisas pequenas, mas também para coisas gracinhas, fofinhas, lindinhas. O diminutivo é usado no transparecer de nossa ligação afetiva a algo ou alguém. Ironicamente, o mesmo recurso linguístico pode ser usado na definição de coisas medíocres, o que pode causar um problema para alguns conceitos.

No mundo da educação infantil é bem comum ouvirmos brincadeirinhas, aulinhas, musiquinhas, joguinhos. Por mais carinhosas que algumas dessas verbalizações possam ser, a diminutização é, às vezes, simplesmente reducionista.

Pergunte a qualquer educador musical se o que ele prepara e desenvolve é aulinha ou musiquinha. (Faça essa pergunta a uma certa distância porque você corre o risco de levar uma pandeirada na cabeça.) Como qualquer outro profissional da educação, ele responderá que por menores que sejam as aulas, ou por menores que sejam seus participantes, aulas são sempre (ou deveriam ser) uma riqueza. Um bom professor, um bom compositor, um bom artista tem à sua frente o melhor e mais sincero dos públicos – a criançada.

Como professora de gosto exigente, ex-cantora e detentora de ouvido absoluto, posso dizer, porém, que nem tudo o que achamos no youtube e no itunes é música de qualidade; alguns materiais podem sim ser chamados de musiquinha. Sem citar nomes, como fazem a Coca-Cola e a Pepsi, o McDonalds e o Burguer King, certos materiais são como um hambúrguer de cadeia de fast-food: pobres em nutrientes, mas com boa propaganda e embalagem magnífica. Outros são como um jantar num bom restaurante: ricos em nutrientes, e não necessariamente com uma embalagem tão colorida. Os dois enchem a barriga, mas o que realmente alimenta?

O que realmente alimenta a inteligência e a curiosidade de uma criança? Cores vibrantes, sons estridentes e personagens ridículas dançando de um lado para o outro? Na minha experiência, não. Esses passam tempo.

Interação com artistas e instrumentos: Criança se identifica com gente, com objetos e instrumentos curiosos, e definitivamente, realísticos. Nessas condições, elas podem explorar diversos timbres, da percussão, dos instrumentos de sopro, de cordas e, em troca, estarão desenvolvendo capacidades de análise e classificação, essenciais para o desenvolvimento, por exemplo, da lógica, da matemática e da linguagem. Ouvir diferentes instrumentos, e não somente os sons de um sintetizador, é uma das formas pelas quais a criança começa a saber classificar qual instrumento é de corda, qual é de percussão, que leão ruge, que passarinho canta, que M tem um som, N tem outro.

Quando vão à frente de um grupo de crianças, os artistas e professores devem tratá-las como realmente são, e não infantilizá-las. Já falou-se aqui como é prejudicial falar com criança com vozinha de tatibitá ou trocar palavras como cachorro por au-au.

Altura e intensidade das músicas: Em termos musicais, enquanto um adulto não deve imitar voz de criança, e criança não deve imitar voz de adulto, é importantíssimo pensar, em que altura a música está sendo cantada? É equivalente ao que a criança pode cantar? Ou seja, se a criança souber a letra, vai poder acompanhar no show e/ou assistindo o dvd em casa? Não adianta nada ser numa altura desconfortável porque esse será um fator inibitor da repetição da canção em outros momentos. Esse detalhe serve tanto para canções gravadas, quanto para as que o professor usa em sala de aula. Cante para eles numa altura que eles possam imitá-lo, nem tão agudo, nem tão grave, e sempre, sempre, afinado.

E em que intensidade essa voz chega à criança? Em termos de volume, é gritada? Então, fora. Cantar é uma coisa, gritar é outra.

Rítmo, prosódia e rima: A música é muito rápida? Tanto que nem um adulto consegue entender a letra do que está cantando? Assim não serve. A criança precisa pelo menos acompanhar o que canta, num ritmo que não vá excitá-la demais como fazem os doces. Mesmo que animada, música tem o objetivo de fazer a criança pensar, desenvolver a criatividade, formar conexões com o ambiente e relaxar.

A prosódia, como a letra deve se encaixar no ritmo, é estritamente dependente da língua na qual a canção está sendo cantada. Às vezes uma tradução encaixa tudo, mas nem sempre. É aí que surgem as adaptações. Mas mesmo um compositor brasileiro escrevendo em português deve ter a prosódia como raciocínio central, especialmente porque queremos que as crianças reconheçam e familiarizem-se com a sonoridade de sua língua, seja ela materna, de herança ou estrangeira, através da música. E essa composição, se o professor ou artista não estiver usando um material da cultura de tradição, deve sempre explorar a rima, os trocadilhos, as particularidades da língua portuguesa.

Conteúdo: Vamos sempre respeitar a inteligência da criança. Quanto mais dermos, mais conexões ela fará. Quanto menos dermos…

Precisamos ser críticos e pensar: esse conteúdo é apropriado ao público infantil? é curioso, divertido, ou só fala tchum, tchum, pá ou delícia, delícia assim você me mata? Que conexões uma criança pode fazer desse tipo de conteúdo?

A criatividade do professor, do compositor e do artista estão geralmente baseadas nas coisas simples, do cotidiano, que, organizadas conscientemente e de forma inteligente, geram conteúdos fantásticos: banana, bananeira, goiaba, goiabeira… (trecho da música Pomar, da dupla Palavra Cantada), ou b-i-c-i-c-l-e-t-a, sou sua amiga bicicleta (trecho da música Bicicleta do musical “A casa de brinquedos”, de Toquinho). Às vezes, e é claro, se bem pensado e com boa estratégia, o pouco é muito.

Só para esclarecer. Crianças adoram ver animais, desenhos animados e criaturinhas, além de adultos e outras crianças cantando e dançando. Seguindo o mesmo cuidado que foi mencionado acima de respeitar sempre a criança como um ser pensante, desenhos animados e musicados podem ser excelentes para o desenvolvimento global da criança. Mas, assim como em nutrição, tudo deve ser cultivado em equilíbrio.

 

ideiasDicas: Em nosso canal no youtube, você encontrará um excelente seleção de vídeos musicais produzidos pela prefeitura do Rio de Janeiro. Não deixe de assistí-los!!

Os grupos e indivíduos abaixo são excelentes exemplos de música para crianças, mas não deixem de consultar também nossas páginas de músicas para brasileirinhos e para os maiorzinhos também.

Palavra Cantada, sempre!! O material deles é fantástico em canções e vídeos musicais.

Grupo Trii Tem um trabalho novo, cheio de coisas bacanas, além de muitas dicas educativas no facebook deles.

Banda Brasileirinhos que canta e toca a obra de Lalau e Laurabeatriz.

CD Tum Pá, do grupo de percussão corporal Barbatuques Percussão para o público infantil

Helio Ziskind Dispensa comentários. As músicas dele são para lá de inteligentes.

Adriana Partimpim cantora que o público adulto já conhece e que há alguns anos vem desenvolvendo um trabalho lindo para crianças.

Tem mais dicas? Não deixe de mandar para nós.

 

Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.
© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

Anúncios

9 comentários em “A diferença entre música e musiquinha

  1. Felicia, que lindo! Que bom ler, quão reconfortante saber que não estou só nessa luta. Aproveito para indicar também algo que lembrei e que adoro: O cd de contação de histórias do Rubem Alves chamado Quatro Estórias, começa com o Renato Braz cantando uma canção linda. Beijo e parabéns!

  2. Felícia,
    as dicas são boas mesmo. Olha, às vezes, musiquinhas podem fazer a revolução cultural de um país, podem também ser instrumento de inclusão social. É o que tenho visto com o rapp, brega-chique (do Pará) e o funk ostentação (S.Paulo). Não são letras agradáveis, não são músicas com ‘nutrientes’, mas carregam o couro da periferia da cultura. Diferentemente de alguns monstros que assustam crianças, mas não existem, esses são assustadores e rondam nossos lares, entram pelas nossas tevês…

  3. Maria Célia, adorei seu comentário, e te respondo com um exemplo de musiquinha também – “cada um no seu quadrado”. Acho que tudo tem o seu momento, a sua idade, o seu público, o seu registro. Eu, adulta, formada, em minhas horas vagas ouço um monte de musiquinha, mas o meu objetivo em tais ocasiões não é nutrição. Acredito que a infância seja um momento de intensa nutrição e talvez só ouvir musiquinha seja doce demais, fritura demais, refrigerante demais. Tudo em moderação e no momento certo, não é?

    1. Perfeito. Concordo. E nem tenho argumentos para debater com você, que tem grande experiência nisso. Mas tenho feito um trabalho de campo no trem da periferia de SPaulo e você não acreditaria no que escuto ali. Mas não é só a música (que corre pelos sons de celulares ultrapotentes) é um conjunto de elementos que compõem essa periferia que grita, grita por soluções, grita por espaços, por direitos, e olha…. é de assustar, porque sabemos que não há ouvidos que possam conduzir a uma solução. É um caso diverso das crianças sobre as quais conversamos. Enfim, realidades diferentes!

      1. Demais, Maria Célia.
        Você escreveria para nós a respeito?
        Adoraríamos ter a sua perspectiva na coluna Perfil e Opinião. Que tal?

  4. Excelente artigo que dá para trazer outras discusões como “gancho”. Amei a dualidade que você trouxe sobre os diminutivos. Interessante é que como sou professora de português e espanhol, eu tenho algumas experiências até divertidas e outras nem tanto com os diminutivos. Lembro de um aluno hispano que queria impressionar uma candidata a namorada, encheu a moça de “inhos”, dizendo coisas o tempo todo como: “…que bonitinho seu vestidinho e o seu sapatinho…” pensou que estaria agradando.Resultado , perdeu a quase namorada brasileira que , desconfiada, confessou achá-lo artificial e falso. Foi em nossas aulas que ele veio a saber que, diferentemente do México, na língua portuguesa os “inhos” podem sim, ser um “cuchilo de doble filo”… ( faca de dois gumes).
    Concordo com a boa avaliação dos conteúdos. Tudo que emite som, sim pode ser uma música, mas nem tudo que se entitula música ou ‘musiquinha” pode ser considerado material educativo de qualidade.
    Uma situação é certa: as crianças estao sempre aprendendo sob os materiais aos quais estão sendo expostas; seja na família, escola ou comunidade. Cabe a nós como auxiliares no processo de formação e educação ajudar a separar o que é educativo, ou não. 🙂
    Lucia Wenceslau

  5. Artigo super interessante! Fazemos um trabalho (para criancas de pre-escola) aqui na Nova Zelandia de ensino do POLH usando musicas e brincadeiras (https://www.facebook.com/BrasileirinhoNz).
    Muitas vezes sinto que os pais nao entendem como acontece o aprendizado do POLH usando uma metodologia Ludica e a Musicalidade para criancas de pre-escola.
    Adoraria se vc escrevesse algo esclarecendo isso (tipo: Playgroup ensina Portugues tanto quanto, ou mais, que a formal ‘Aula de Portugues’).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s