Suécia – um governo pelo PLH

Por Andrea Menescal
Coluna Pelo Mundo

sweden_640Heloiza Lundgren Ekberg mora na cidade de Karlstad, na Suécia, desde 2010. Ela é uma dentre várias professoras de português como língua materna contratadas pelas prefeituras locais. O ensino da disciplina “língua materna” nas creches e escolas na Suécia “tem como finalidade proporcionar aos alunos com língua materna diferente do sueco a oportunidade de trabalhar com outras pessoas da mesma língua e desenvolver seus conhecimentos e habilidades”, além de “incentivar o desenvolvimento da língua nos alunos com multi-identidade cultural”. Leia mais, aqui.

Esse é um caso interessante em que o português como língua de herança é mencionado como sendo língua materna porque se refere à língua falada em casa, ou melhor, língua de convivência no lar com pelo menos um de seus responsáveis.

Blog Brasileirinhos – Heloiza, explique-nos como funciona esse sistema de apoio à língua materna?
Heloiza Lundgren Ekberg- Sou contratada pela prefeitura da minha cidade para dar aulas de português às crianças que tem o português como língua materna. As regras diferem de cidade para cidade mas, no geral, funciona da seguinte maneira: A prefeitura contrata uma professora a partir do momento que se tem 5 crianças que falem aquela determinada língua. Na minha cidade, Karlstad, temos 65 professores de língua materna e um total de mais de 33 línguas. Quando a criança tem entre 2 e 5 anos e está na creche, ela tem direito a uma hora de aula por semana. A partir dos 6 anos, ou melhor, quando ela entra na escola, essas aulas passam a ter a duração de 45 minutos. Esse tempo aumenta um pouco caso haja mais crianças na mesma escola ou creche.

BB – Como é o procedimento para que a crianҫa tenha essas aulas de português?
HLE – A criança só tem aula de português se os pais a inscreverem na disciplina “língua materna” através da escola ou da creche. Depois a escola/creche envia esse pedido para o Departamento de Diversidade e Inclusão (Mångfald och Integration) que providencia e contrata um(a) professor(a) para dar aulas na língua solicitada.

BB – Existe algum pré-requisisto para que a crianҫa tenha direito a essas aulas?
HLE – A única exigência do Skolverket (Ministério da Educação Sueco) é que a língua seja falada com frequência no lar onde a criança mora, com exceção das crianças adotadas pois essas tem o direito mesmo sem ter contato com a língua do seu país de origem, e que a criança tenha um conhecimento básico da língua.

BB – Quantas crianças você leciona e qual é a idade delas?
HLE – Atualmente tenho 14 alunos de 02 a 14 anos. Doze são filhos de brasileiros e dois de angolanos.

BB – Quem determina o conteúdo do curso de português e que material você utiliza?
HLE- O Skolverket tem algumas normativas que determinam os objetivos de cada ano na escola. Para cada ano existe um objetivo a ser alcançado na parte oral, escrita, textual e cultural. Há muita discussão a respeito desses objetivos e de terem um nível muito avançado porque diversas vezes, por exemplo, um aluno do 6o. ano possui o nível linguístico no português correspondente ao de uma criança do 2o. ano. Pessoalmente utilizo alguns livros editados em Portugal, tentando adaptar sempre ao português brasileiro. Tenho alguns livros que comprei no Brasil porém, a maioria deles exige um nível muito alto de conhecimento, o que não corresponde ao nível dos meus alunos. Quanto às informações sobre cultura do país, essas fazem parte do planejamento do Skolverket. Assim, procuro ensinar músicas brasileiras, falar sobre o carnaval, sobre a páscoa, São João e outras datas comemorativas de uma forma geral.

BB – Você possui acesso a livros para-didáticos em português? Existem bibliotecas com livros em português?
HLE- Na biblioteca central da nossa cidade existe uma área com vários livros em português. Em Malmö, cidade que fica no sul da Suécia, existe um maior número de brasileiros e também uma biblioteca incrível chamada “A Turma da Mônica”. Essa biblioteca promove vários eventos para manter viva a cultura brasileira.

BB – Como é feita a avaliação de desempenho da criança nessa disciplina? Ela pode perder o direito de continuar tendo aulas de língua materna?

HLE- Quem controla o direito da criança em ter as aulas é o(a) professor(a) porém, é o diretor da escola que decide se vai retirar esse direito ou não. Muitas vezes, mesmo que o(a) professor(a) avalie que a criança não tem condições de continuar as aulas de língua materna (pelo baixo nível de conhecimento na língua e pela falta de interesse), a direção da escola nem sempre retira esse direito da criança. Isso está levando o Ministério da Educação da Suécia a organizar um tipo de avaliação de desempenho na língua materna para ser feita às crianças com a finalidade de justificar a exclusão do direito da criança ou até mesmo de analisar o direito dela às aulas.

BB- Que dificuldades você enfrenta no ensino de português?

HLE – A minha maior dificuldade em ensinar o português aqui é estimular nas crianças o interesse pela língua e pela cultura do nosso país. Além do mais, temos pouquíssimo tempo de ensino por semana – de 45 a 60 minutos semanais com o aluno é muito pouco.

BB – Como é a sua relação com os pais? Eles são participativos?
HLE – Por um lado, existem pais conscientes e cooperativos que me ligam e perguntam sobre o desempenho dos filhos e de que maneira podem me ajudar. E para esses nem preciso pedir que eles falem português em casa com seus filhos porque eles já o fazem. Por outro lado, existem pais com pouquíssimo interesse no envolvimento e aprendizado dos filhos e com esses meu relacionamento é difícil. Eles não falam português em casa com os filhos e não aceitam ouvir que a criança não está aprendendo ou não demonstra interesse pela língua contudo, exigem, mesmo assim, que seu filho aprenda português. Isso só pode acontecer, a meu ver, por meio de algum “milagre” porque o tempo de aula é muito curto e nos vemos apenas uma vez por semana (de 45 a 60 minutos) sem contar as vezes que a escola ou a creche organiza passeios extra-curriculares e que caem exatamente no seu horário de aula.

BB – Você passa alguma tarefa de casa que exija o envolvimento dos pais?
HLE – Aqui na Suécia há uma discussão enorme em torno do envio de tarefa de casa e se isso deve ser feito. Pessoalmente acho que seria uma boa opção para envolver mais os pais na educação dos filhos e no aprendizado da língua materna, especialmente por se ter tão pouco tempo de aula. Eu, particularmente, já fiz apostilas para os pais acompanharem o desenvolvimento da criança na língua com tarefas a serem feitas em casa. Mas isso não funcionou muito bem. Os pais deveriam trabalhar em casa com as crianças as atividades das apostilas (elaboradas de acordo com o ano escolar de cada criança) como complemento ao conteúdo que havia sido dado em sala de aula. Dessa maneira o restante do trabalho poderia ser desenvolvido na aula seguinte. Contudo, as crianças chegavam na aula sem saber o assunto e sem ter feito as tarefas, o que me levou a parar de utilizar esse método.

BB – Qual seria o seu recado para os pais brasileiros que moram pelo mundo afora?
HLE – Falem português com seus filhos, mesmo sendo uma tarefa árdua. De uma forma ou de outra, todo aquele tempo e todo aquele português que você achou que foi em vão, vai ficar fixado na cabeça da sua criança. E, pode ter certeza que no futuro eles irão lhe agradecer por toda insistência.

BB – Você quer deixar um recado para outros educadores de português como língua de herança?
HLE – O envolvimento dos familiares e amigos no processo educativo das crianças que tem o português como língua de herança ou língua materna é fundamental para a criação do contexto de vivência linguística e cultural, e o nosso papel como professor é muito significativo para ampliar e aprofundar essa vivência em sala de aula e completar a conexão.

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