Perfil e Opinião: Ser pai de criança bilíngue não é tarefa fácil

Por Ingrid Helena
Perfil e Opinião

Ser pai de uma criança bilingue não é uma tarefa fácil. As críticas surgem muitas vezes já na gravidez. Na hora de mandar o filho para a escola, nem sempre você encontrará uma escola e professores com o devido preparo pedagógico para lidar com crianças bilíngues. Ignorância no assunto, falta de vontade e muitas vezes comodismo atrapalham um processo de aprendizagem da qual a criança é a maior beneficiada.

Eu sou brasileira, meu marido e meu filho são holandeses e no momento moramos na Bélgica, perto de Maastricht na Holanda. Aqui em casa falamos 3 idiomas: português entre eu e meu filho, holandês entre meu marido e meu filho, e inglês entre eu e meu marido. Com nosso filho não falamos inglês, mas como ele sempre nos ouviu falar em inglês e os programas na tv aqui não são dublados (exceto desenhos infantis) ele entende tudo que falamos.

O primeiro ano dele na escola belga, Kleuters 1 (jardim 1) foi uma novela rica em detalhes desastrosos, tais como indicação de Ritalina pela professora. Como estamos voltando para a Holanda em breve, decidimos que nosso filho continuaria a frequentar a escola aqui da vila para ajudá-lo na adaptação do idioma que é semelhante ao Holandês falado na Holanda. Algo como português brasileiro e português.

Recentemente fomos convocados na escola para uma reunião com a professora e uma pedagoga de uma instituição governamental que auxilia pais, professores e alunos com déficit educacional. Para o padrão escolar, segundo a professora, meu filho apresentava atraso mental e não estaria se adaptando ao esquema. Meu filho tem hoje 4 anos e 4 meses e está no Kleuters 2 (algo como jardim 2 no Brasil). Segundo a escola, o atraso de desenvolvimento do meu filho seria por causa do idioma e por isso nos recomendaram alguns testes para medir a gravidade do problema. E que ele não teria chances de ir para o Kleuters 3 em setembro (início do novo calendário escolar aqui). Sai da reunião muito chateada, pois como qualquer pai que ama seu filho, o mínimo que você quer é sofrimento para a criança. Meu marido não aceitou o diagnóstico da escola, mas concordou em permitir os exames. Para ele, nosso filho é apenas uma criança agindo como criança e que aqui na Bélgica eles exageram na rigidez escolar.

Pois bem, três testes foram feitos: auditivo, para saber se ele escuta direito, teste de idioma para saber o nível de compreensão em holandês apenas, e o teste de QI. Os resultados foram bem interessantes. Em todos os 3 testes, meu filho está bem acima da média da idade dele. O exame auditivo mostrou que ele tem audição extremamente aguçada, algo raro para a idade dele. No exame com o fono, outro sucesso. Ele esta acima da média das crianças da idade dele que só falam holandês. Segundo o fono, se fosse aplicado um teste que medisse os conhecimentos dele nos 3 idiomas aos quais ele é exposto (holandês-português-inglês) seu resultado seria ainda mais alto. Por fim o teste de QI também revelou que ele está 6 pontos acima da média das crianças da mesma idade. Só elogios (coisa rara europeu elogiar estrangeiro) e que não havia a menor necessidade de ter passado por estes exames.

O fono propôs (uma vez que nosso seguro cobre) acompanhar a fonética e a concentração para que meu filho se sinta ainda mais seguro pelo menos no idioma holandês, a pedagoga disse que meu filho poderia ir tranquilamente para o Kleuters 3 em setembro, a professora, toda sem graça com os resultados, tentou justificar a falta de interesse do meu filho dizendo que talvéz ele durma pouco a noite, ou tenha problema oftamológico. Claro que rebati as tentativas frustradas dela deixando claro que o problema não estava no meu filho, mas em como as aulas estavam sendo trabalhadas, a fim de motivá-lo.

Ingrid HelenaPor fim, nós os pais, decidimos trocá-lo de escola. Mesmo que fiquemos apenas mais 1 ano aqui, ele estudará em outra escola. Desta vez, ele irá para a internacional que é próximo de nós e fica em Maastricht, na Holanda. Semana passada visitamos as instalações e meu filho se apaixonou pelo local. Chegou a entrar numa sala com os alunos e não queria mais sair de lá! Espero que esta motivação continue depois também.

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4 comentários em “Perfil e Opinião: Ser pai de criança bilíngue não é tarefa fácil

  1. Puxa, ninguém merece passar por este susto. Vcs fizeram muito bem em trocá-lo de escola. A professora da anterior não tinha preparo nem interesse em integrá-lo de verdade. Uma incompetente. Vou torcer para que ele se adapte rapidamente ao novo ambiente e seja muito feliz. Boa sorte!

    1. Sim, Bruna, foi mesmo difícil. O que mais dificulta é o fator cultural dele ser o único estrangeiro da turma. Aqui na região onde moramos, existe também o dialeto local que é restrito ao nativos daqui. Como meu filho não é exposto a esse dialeto, naturalmente as crianças também o excluem de suas conversas privadas. A vantagem da internacional é que lá todos são estrangeiros 🙂 obrigada pelos votos.

  2. Ingrid, parabens por ter lutado pelos direitos do seu filho! Eu como professora de Ingles como segunda lingua aqui nos Estados Unidos vejo muito esse tipo de despreparo profissional para lidar com alunos bilingues. tenho muitos pais de alunos meus que param de falar com seus filhos em Portugues ou em Espanhol por recomendação de uma fono ou uma professora despreparada. Eu sempre deixo bem claro para os pais dos meus alunos, que se eles desconfiarem de algum tipo de problema de aprendizado, a criança deve ser testada nas duas línguas, ou tres, que fala. Se for possivel, claro. E que nunca deixem de falar sua lingua de herança em casa.

  3. Ingrid Helena, estava na busca em achar alguém que estivesse passando algo parecido comigo, acho que uma boa mae é aquela que luta pelo bem está do seu filho, e assim vc fez. Eu estou morando a 1 ano aqui na Holanda e minha filha está na idade escolar ( obrigatória dos 4 anos) hoje faz 7 dias que ela está frequentando a escola holandesa do grupo 1. Eu e meu marido somos brasileiros, ele fala holandes e aqui em casa só se fala portugues, mas desde que chegamos minha filha hoje com 4 anos só tem contato com holandes, desde a Tv como pessoas que falam holandes e também portugues. Estou agora com um problema na escola onde a todo tempo reclamam que a minha filha nao fala, direito, que so fala portugues, que chora, que é insegura etc e tal, e o que vejo é que quando ela chega da escola é sempre cantando todas as músicas que aprendeu na escola em HOLANDES. Vejo que o despreparo aqui está sendo muito grande em tentar inserir a minha filha no grupo, e olha que a sala dela praticamente só tem estrangeiros filhos de turcos, marroquinos, indianos , chineses e apenas um holandes…. vejo minha filha no pátio sozinha e nenhuma professora ajuda agrupa-la. Deram até quinta feira para ela ficar na escola pois iriam encaminhar a uma escola especializada, como se minha filha tivesse algum problema, Fica aqui minha revolta diante de professores e pedagogos que nao sabem inserir um estrangeiros no grupos escolar.Uma verdadeira incompetente !!!!!!!Muito chateada.

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