A coluna da Emma

Por Andreia Moroni
Coluna Educação Bilíngue

Um belo dia, ou uma bela tarde, estava eu gastando alguns preciosos e inconfessáveis minutos do meu tempo surfando pelas redes sociais. Mais especificamente, naquela do logotipo azulzinho que eu sei que você bem sabe qual é. E todo mundo que é mãe ou é amig@ de uma mãe sabe que um de nossos desperdícios de tempo favoritos é postar sobre as peripécias das crias, acompanhar as peripécias das crias alheias e esperar que os demais babem nas peripécias das crias próprias.

Normalmente a gente aperta o botão do polegar levantado e todo mundo fica feliz. Mas, às vezes, coisa com a qual ainda estou me acostumando nesses sete anos de estrada de maternidade, porque de repente as crias são cada vez mais donas de si e menos dignas de diminutivos, a surpresa é tanta que isso fica pouco. E quem surfa por aqui deveria saber que há dias de marolinhas sem graça, mas também tem um dia ou outro em que chega uma onda poderosa e te dá um caldo.
E foi assim que eu perdi o fôlego quando vi, pela primeira vez, o desenho da Emma:

desenho da emma

O desenho da Emma mexeu muito comigo. Primeiro, porque ela retratou a mãe, a Laurence, essa da direita, que é francesa e foi minha colega de trabalho uns tempos atrás (e toda mãe baba em qualquer tentativa da cria de retratar a mãe, própria ou alheia). Depois, porque, além da Laurence, ela retratou a Cristina, que é uma grande amiga italiana que eu e a Laurence temos o privilégio de compartilhar.

Mas a história do desenho vai um pouco além disso. Hoje, Cristina mora em Luxemburgo e Laurence e Emma, em Barcelona. Tem alguns milhares de quilômetros entre esses dois pontos. E é muito, muito bonito ver o que a Emma colocou escrito ali no balãozinho das duas: “Somos… diferentes. Mas seremos amigas pelo resto da vida!”. Olha, se a sua cria consegue dar conta de perceber um vínculo desse tamanho e desenhá-lo quando seus encontros com alguém querido são bem menos frequentes do que você gostaria, e ainda por cima fazer uma ode ao respeito às diferenças, você pode dormir tranquila. Bem tranquila.

Porque toda mãe de criança multilíngue provavelmente traz uma história de imigração na bagagem, e isso sempre quer dizer, de alguma maneira, estar longe de uma parte da família e de uma cacetada de gente querida. Eu, aqui na distância do Brasil, me equilibrando na corda-bamba das diferenças culturais a mais milhares de quilômetros ainda da Cristina e da Laurence e de um monte de gente lá de Barcelona, ou do México, onde a família paterna das minhas crias está, recebi esse olhar da Emma como um analgésico de ação prolongada.

Aliás, o que acabou de me fazer perder o fôlego enquanto a onda terminava de me arrastar até a praia foi isso: 10 palavras, 3 línguas. Um tiro ao alvo em outro de meus pontos fracos. A Emma escreveu essas duas frases em inglês, francês e italiano, multilíngue que é, enquanto observava a mãe e a amiga conversarem na cozinha de casa para fazer o desenho (sim, conversas na cozinha podem ser um hábito que dispensa fronteiras). Tão simples.

A Emma tem 12 anos, fala francês com a mãe, catalão com o pai e com a galera toda (também com a mãe) e espanhol por aí. Mora em Barcelona (e suspeito que esteja aprendendo inglês na escola). Cristina, que também é mãe, é italiana e tem duas bellas picolinas que estão crescendo em Luxemburgo, falando italiano com ela, catalão com o pai, espanhol e francês na escola e sabe-se mais lá o que na rua. Eu, aqui no meu canto, me viro pra dar conta dos usos do espanhol e do português dentro de casa (com frequentes incursões pelo inglês, língua franca de nosso círculo de famílias amigas internacionais), sabendo que a partir de setembro minhas crias, o Mateo e a Sofia, estarão frequentando a escola em catalão, pois estaremos de novo em Barcelona e cedo ou tarde iremos esbarrar com a Emma e a Laurence nas ruas do bairro de Gràcia.

Às vezes, talvez porque eu tenha crescido monolíngue e bem sedentária, sem nunca ter mudado de cidade até os 16 anos, essa coisa toda de afetos à distância e filhos que precisam falar várias línguas para transitar por seus entornos parece ser muito complicada. Mas, de repente, nem é. Não é, Emma?

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Agradeço a gentileza da Emma de me emprestar seu desenho e autorizar que ele seja publicado aqui. E também à Laurence, por visitar a coluna e compartilhar um pouco de sua experiência como mãe de crias multilíngues às mais neófitas, como eu, que não me canso de fascinar com esses mistérios e milagres linguísticos.

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