Da tradição árabe à cultura brasileira: da contação de histórias ao despertar pela escrita.

Por Andrea Menescal
Coluna Pelo Mundo

united_arab_emirates_sphere_icon_640Em continuidade à grande tradição árabe de contar histórias oralmente, nascia há mais ou menos mil e uma noites uma iniciativa brasileira nos Emirados Árabes Unidos: a Hora do Conto de Dubai. Em tardes ensolaradas, Magaly Quadros reúne brasileirinhos que vivem naquela cidade para um momento de imersão na língua e na cultura brasileira. Professora do Ensino Fundamental I e Professora de Português do Ensino Fundamental II e Ensino Médio no Brasil, Magaly aterrisou em terras árabes devido à tranferência do marido para Dubai e se tornou, sem saber, uma professora de Português como Língua de Herança (PLH).

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Blog Brasileirinhos – Magaly, como surgiu a ideia de iniciar a Hora do Conto em Dubai?
Magali Quadros –
Nasceu de maneira despretenciosa: um dia depois de ler um gibi para minha filha, ela insistiu para que eu lesse o mesmo gibi para amigos brasileiros conhecidos. Um dia ela levou o gibi, sem eu ver, num jantar com esses amigos e me pediu para ler. Eles gostaram muito e isso me fez querer convidar outros brasileirinhos para participarem. Comecei, assim, a contar histórias para outras crianças além da minha filha. A minha vontade na época era a de trazer um pouco da cultura brasileira para os brasileirinhos que vivem aqui, dentre eles a minha filha.

BB – Quantas crianças participam da Hora do Conto em Dubai?
MQ –
O número de crianças varia entre 08 e 20 por encontro, vira e mexe chega gente nova. Participam crianças de 02 a 12 anos e todas têm um dos pais brasileiro. No início havia limite de idade mas passei a não considerar mais esse limite porque a mãe que trazia o filho maior, muitas vezes tinha que trazer o menor e esse acabava também participando. Já houve a participação até de netos de brasileiros que, mesmo sem entenderem português, gostavam de participar dos encontros.

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BB – Mas os encontros não se limitam à leitura em português, não é?
MQ –
Não, nos encontros temos também um tempo só para brincadeiras: pular corda, pega-pega e outras atividades que remetem às brincadeiras infantis do Brasil. Também utilizamos muitas músicas nas atividades por meio de CDs, DVDs e programas na Internet.

BB – E as datas comemorativas, também recebem atenção especial?
MQ –
Claro. Sempre que possível fazemos alguma programação especial nas datas comemorativas. Por exemplo: piquenique no dia das crianças, festa junina, baile de carnaval, caça aos ovos na páscoa, amigo secreto no Natal, cinema para assistir ao filme RIO, entre outros.

BB – O seu trabalho é totalmente voluntário?
MQ –
A Hora do Conto em Dubai sim. É um trabalho voluntário que se realiza na minha casa. Leio, canto, mostro filmes, brinco com as crianças e falo sobre as datas comemorativas importantes do Brasil. As aulas de português, no entanto, são pagas. Com elas são aprofundadas as questões culturais, regionais e históricas do Brasil e trabalhadas a leitura e a escrita. Nos dois tenho como objetivo falar sobre a cultura brasileira.

BB – O interesse por essas aulas de português surgiu dentro desse grupo da Hora do Conto de Dubai?
MQ –
Isso mesmo. Algumas mães queriam que seus filhos aprendessem também a ler e escrever português. Assim, em março deste ano comecei a dar aulas para sete crianças desse grupo.

BB – Que material você utiliza no seu trabalho?
MQ –
Tanto na Hora do Conto em Dubai como nas aulas de português utilizo os livros de leitura que trago do Brasil, os que tinha quando era professora e os livros e gibis que as próprias mães doam. Além disso, procuro adquirir todo ano coleções novas. Para me atualizar, procuro informações sobre livros infantis recém-lançados no Brasil ou entro em contato com minha ex-diretora para rebecer dicas do que ler para cada idade. Videos, filmes e músicas também são trazidos do Brasil.

BB – E as outras mães, também trabalham em atividades nesses encontros?
MQ –
Elas me ajudam trazendo os lanches e na hora das brincadeiras. Uma delas tem mostrado bastante interesse em organizar um espaço mais adequado para as atividades.

BB – Como é o envolvimento, em geral, dos pais nesse trabalho?
MQ –
Nesses últimos dois anos os pais têm demonstrado muito interesse nos encontros. Eles trazem as crianças com certa frequência, gostam de saber sobre o trabalho e participam de atividades. Eles não participam ou se envolvem ainda no aprendizado de português mas tenho esperança de que desse grupo de pais saia alguém que venha a me ajudar a dar aulas.

BB – Você realiza encontros com os pais para falar sobre bilinguismo e temas relacionados?
MQ –
Não especificamente pois há pouco tempo estou pesquisando e aprendendo mais sobre esse tema. Por isso mesmo quis fazer o curso da Brasil em Mente (BEM). Mas sempre falo para as mães sobre a importância de manter o português com os filhos e no dia 16 de maio vamos promover o debate mostrando o documentário “Brasil com Z” da BEM. Aos poucos vou tentando organizar reuniões com as mães para falar sobre a importância do PLH.

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BB – Algum desafio, alguma dificuldade?
MQ –
O maior desafio do meu trabalho é conscientizar os pais da importância do português para os brasileirinhos. E a questão do espaço é uma das nossas dificuldades. Precisamos de um espaço maior para a realização dos encontros porque o que temos atualmente é limitado (minha casa) e no dia que vem mais de 20 crianças fica apertado. Mas esse a gente dá um jeito… Além disso, tem sido difícil ter mais pessoas para ajudar. Mas o que tem me feito continuar com o trabalho é ver o interesse das crianças em ouvir sobre a nossa cultura e vivenciá-la. Eles participam porque gostam!

BB – Qual seria o seu recado para os pais?
MQ –
Ao aprenderem sobre o Brasil, sua língua, seus costumes, sua cultura, seus filhos irão se aproximar mais de suas raízes. Vale o esforço!

BB – Um recado para outros educadores de PLH?
MQ –
Na verdade, gostaria muito de aprender com educadores de PLH de todo o mundo sobre como trabalhar com os brasileirinhos que estão crescendo fora do Brasil.

https://www.facebook.com/AHoraDoContoEmDubai
http://horadocontodubai.wordpress.com

2 comentários em “Da tradição árabe à cultura brasileira: da contação de histórias ao despertar pela escrita.

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