Copa do Mundo: entre pátrias, chuteiras e nações

Por Ylane Pinheiro
Perfil e Opinião

Sempre achei aquela máxima do Galvão Bueno, “A pátria de chuteiras”, um certo exagero. Hoje, guardadas as devidas proporções, com mais racionalismo e menos sensacionalismo, vejo que ele tinha uma boa parcela de razão. Quando fui convidada para colaborar aqui no blog fiquei muito honrada e feliz por ter a oportunidade de dividir com outras pessoas um pouco da minha visão sobre o esporte, que não é exclusiva, mas também não tão comum como eu e demais entusiastas e estudiosos do esporte gostaríamos que fosse. E para começar, nada mais presente, atual e lógico do que falarmos um pouquinho sobre a Copa do Mundo e como nós, brasileiros, residentes no país ou não, nos relacionamos com esse megaevento esportivo tão presente na história de cada um.

Muitos de nós, adultos de hoje, crescemos ouvindo histórias sobre Copas do Mundo, colecionando álbuns de figurinhas de diversas edições e aprendemos – por motivos diversos – a curtir os períodos quadrienais da disputa do Mundial de Futebol, mesmo não sendo por gosto pela modalidade em si. Nem que fosse porque a gente saía mais cedo da escola e perdia a aula de matemática.

Mas por que esse evento é tão importante? Por qual razão, no Brasil, dias úteis viram feriados, o calendário escolar sofre alterações e “Copa” pode ser considerada uma unidade de medida de tempo? (Sim, aparelhos de TV são vendidos com garantia de duas Copas, relacionamentos duram “X” ou “Y” copas, e nossos avós ficam orgulhosos em dizer quantas muitas Copas já acompanharam.)

Pois bem. Nós, brasileiros, gostamos de Copa porque gostamos de futebol. Gostamos de Copa porque gostamos do clima festivo, da folia, da expectativa, dos churrascos e do circo todo que se monta país afora. Porque no exterior ela também faz com que os brasileiros se procurem e se reúnam diante de uma TV. Mas não só por isso! Gostamos de Copa porque reunimos família e amigos e enchemos o peito para dizer quem somos e de onde viemos. Porque, contrariando nossas práticas diárias, é um momento em que nos sentimos parte de uma NAÇÃO. Em que conseguimos nos conectar à nossa pátria (amada, salve, salve!).

torcedores_copa

O conceito de “nação” não é o mesmo de “Estado” ou de “país”. Nação tem a ver com origem, raízes, etnia, identificação, identidade. Pátria diz respeito a uma terra – natal ou adotiva – com a qual construímos vínculos afetivos, históricos, culturais e de valores.

O esporte, por sua vez, é fatalmente uma das coisas que nos identifica uns com os outros, que nos une, e não haveria de ser diferente. A mistura étnica que origina nossa população, a diversidade cultural, as dimensões continentais e a pura e simples falta de hábito e valor são algumas das razões pelas quais o sentimento de fazer parte de uma nação não é comum aos brasileiros. O esporte, e, sobretudo, também o futebol, obviamente não são os únicos, mas funcionam como catalisadores dessas reações que proporcionam sentimentos de orgulho comum e pertencimento.

Pertencer a uma nação, ter uma pátria, significa que tem mais gente que pensa e sente como você. É muito bom sentir-se compreendido, apoiado, acolhido, encorajado. É confortável e confortante saber que outras pessoas compartilham de algumas de suas expectativas, angústias e orgulhos. Por isso, aquela sua avó que mal sabe que o cara de preto é o árbitro (e que mal sabe que árbitro é nome não coloquial dado ao juiz da partida) nem gosta tanto de futebol, mas sempre acompanha a Copa. Por alguma razão ela também se sente assim.

Isso posto, gostaria de chamar a atenção dos papais e mamães dos brasileirinhos espalhados mundo afora para uma reflexão acerca do papel do esporte na formação de uma identidade brasileira. Do alto da minha paixão pelos esportes e da minha insistência em buscar sempre o que de bom se pode fazer dele, vejo que torcer pelo Brasil na Copa do Mundo pode ser algo muito além de uma catarse coletiva ou da celebração do pão e circo, como se convenciona dizer pelas bandas de cá atualmente.

Esta é, para todos e sobretudo para vocês, uma oportunidade de fazer com que os filhos do Brasil sejam sim cidadãos do mundo aí onde estão, mas sintam que possuem aspectos comuns aos que aqui vivem, para que criem vínculos e desenvolvam fatores culturais e afetivos que os conectem ao Brasil, que os identifiquem com sua pátria, com a nação brasileira que transcende as fronteiras políticas do mapa-múndi. Para que pertençam.

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Ylane Pinheiro é brasileira, mestre em Educação Física pela UNICAMP, docente universitária e professora de Educação Física na Escola Americana de Campinas há 13 anos, onde convive diariamente com crianças de múltiplas nacionalidades. Absolutamente apaixonada por esportes e por todas as suas possibilidades, começou a trabalhar sua colaboração no blog jogando queimada e handebol no recreio com a colunista Andreia Moroni, no final dos anos 1980.

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